Lembranças de minha cidade natal (28)

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Por Agripino Grieco

Nas palestras comigo, o Guttmann Bicho insistia que, em conjunto, os pintores são criaturas mais agitadas, mais atormentadas que os homens de letras. Os consumidores de tela e tinta, duelando-se com a gente do governo, sofrem no instante da encomenda de retratos e quadros históricos. E sofrem entre si na luta em derredor dos prêmios, especialmente do prêmio de viagem, ou na ânsia da medalha de ouro.

Muitos a se rirem deles, porque, no dia do “vernissage” permanecem, por força da tradição, junto às suas pinturas, como quem apresenta o autorretrato aos admiradores.

Nem são eles poupados pelos apelidos irônicos, pelas acusações de plágio, pelas picuinhas dos frequentadores de cafés.

Vários, malograda a esperança de maiores triunfos, contentam-se, quase ao fim da vida, com uma simples menção honrosa, a tal que inspirou a um Francês assim galardoado o comentário: “Mention honorable? Je suis deshonoré…”

De quantos artistas, grandes e pequenos, vim a saber o fim melancólico.

Almeida Júnior foi assassinado por um marido ciumento; Vítor Meireles, na velhice, esfalfou-se e humilhou-se um pouco ao exibir os panoramas do Rio; Castagneto morou semanas e semanas numa lancha abandonada lá pela praia do Caju, e pintava em madeira de caixa de charutos aquelas deliciosas marinas com que, em viagem, pagava aos hoteleiros do interior, antes de se ver intrujado por dezenas de contrafatores da sua maneira de artista.

Luis Christofle cegou. Os dois irmãos Timoteos acabaram loucos.

Sempre atrapalhado, nas excursões, com as malas em que conduzia pincéis, palheta, cavalete e demais utensílios, Batista da Costa não sorria nunca, parecendo seguir envolto no nevoeiro petropolitano das suas telas, e, apesar de excelente mestre, deixou discípulos que não passam de ruminantes da paisagem.

Bem idoso, Eliseu Visconti foi surrado por um energúmeno.

E não faltaram epigramas a um dos seus trabalhos no Teatro Municipal do Rio, aquele pano de boca onde ele acumulou dezenas de poetas, músicos e pintores e onde, em certos espetáculos, há mais gente do que na platéia.

Epigramas injustos em se tratando do retratista de Gonzaga Duque, desse Gonzaga que nós reveremos sempre tal qual se acha na tela de Visconti, da mesma forma que aos admiradores de Verlaine o “Pauvre Lélian” só reaparece tal qual se acha na pintura de Carrière.

O pobre Artur Lucas, que não ia de todo mal no pastel, acabou hemiplégico.

Com o ventre convexo, Belmiro de Almeida nada mais conservava do artista rebelde historiado na “Mocidade morta”, de Gonzaga Duque.

Ao Henrique Bernardelli os invejosos chamavam “chocolateiro”, porque abusava da cor de chocolate, como chamavam “marmorista” a seu irmão Rodolfo, porque fosse o mais procurado dos nossos escultores.

Heitor Malagutti foi um entorpecido pela auto-crítica exagerada. Certas aventuras o atraíam e costumava dizer: “Esposa é classicismo, amante é romantismo…”

Amoedo, ótimo pintor na juventude, tornara-se em velho um perigoso caricaturista verbal, revelando na mobilidade da face o filho de atores que era.

Aportou aqui um cidadão do Cairo, a vender aquarelas, e viu-se logo apelidado de décima-primeira praga do Egito, afirmando alguém que, se o mar Vermelho se abrira, fora para que os hebreus fugissem mais depressa das aquarelas desse sujeito.

Dançava sempre nas pilhérias de botequim um amador caolho, depois metido a literato: afirmavam dele possuir obrigatoriamente uma visão unilateral do mundo e ter a desgraça de voltar sempre o olho bom que lhe restava para os recantos mais feios do Brasil.

Foi uma gargalhada unânime quando o cenógrafo Jaime Silva ajeitou num cortejo carnavalesco diversas passagens do “Inferno” de Dante, através das ilustrações de Gustavo Doré.

A propósito de um paisagista mulato de nariz recurvo: “Parece filho de corvo e judia.”

Outro comentário maldoso: “Tão mal feita era aquela garota que a natureza deve ter imitado, ao fabricá-la, os processos do pintor Madruga.”

O Antônio Parreiras haveria pintado a parte de ambiência de um quadro alegórico do Lucílio de Albuquerque, mas, sendo mau retratista, andaria bem se pedisse ao Lucílio que lhe desse em troca duas ou três figuras humanas.

Aliás, muitas perfídias sofreram os três Parreiras, pai, filho e sobrinho.

Antônio, o chefe da tribo, nasceu para reproduzir árvores, águas e morros, e a paisagem que menos lhe interessava era a face das criaturas. Quando tentava o retrato, saíam-lhe despropósitos como aquela senhora de dois pés esquerdos que deixou no instituto de Música.

Também insinuavam os seus desafetos que Antônio Parreiras, querendo embelezar uma das praças de Niterói, ofereceu à prefeitura de lá um busto, que afinal não era o de Rafael ou Rembrandt, mas o busto… dele próprio Antônio Parreiras.

Marques Júnior vê muitos quadros seus, provavelmente os melhores, queimados num incêndio em Paris; Dias Júnior extingue-se aos vinte e quatro anos; Raul Deveza vai morrer atropelado em região nortista.

Isto sem esquecer o suicídio de Puga Garcia e a morte, em Madri, desse gentil Bordon, que tanto lutou pelo prêmio de viagem, paisagista que, ao encontrar um concorrente trabalhando diante do seu modelo vegetal no Campo de Sant’Ana, exclamou entristecido: “Roubou a minha árvore!”

Mais feliz, Pedro Bruno, embora incerto entre o canto e a pintura, teve o refúgio da sua ilha e o conforto da companhia dos seus pássaros. Era delicadíssimo e apenas sorriu de leve ao mostrarem-lhe um retrato a óleo de Pedro II, feito por artista brasileiro, e onde o soberano, morto em 1891, aparece tendo na mesa de trabalho uma redução do “Penseur” de Rodin, famosa estátua exposta em 1895.

Conhecemos, eu e o Bicho, um ancião que se ufanava de ter inspirado o Saturno e o profeta Elias do Gaspar Magalhães, que uma vez, visitado por nós, nos serviu, com ares obsequiosos, um vinho horrível, garantindo que era velho, muito velho, e concluindo eu que devia ser contemporâneo da cicuta de Sócrates.

Dado pelos amigos como celebridade mundial, Cândido Portinari seria apenas celebridade ministerial, graças ao ministro Capanema.

Dos antigos, restava-nos uma figura bem interessante: a do caricaturista Calisto Cordeiro, invariável nos seus rudimentos e muito saudável sempre, apesar das caveirinhas de metal que trazia na gravata e nos punhos. Mas, do alto do seu imenso colarinho, nunca faltaram a Calisto Cordeiro frases de espírito, como quando, à hora da chamada numa assembléia da Associação Brasileira de Imprensa, em lugar de responder: “Presente!”, à semelhança dos outros, respondeu: “Passado!”

O nome do pintor Orózio afigurava-se aos colegas um erro de revisão.

Zombavam do paisagista Paula Fonseca porque obtivera um prêmio de viagem em navio do Lóide Brasileiro. Parecia-lhes já bastante “faisandée” a caça pintada do Osvaldo Teixeira.

À moda de uma personagem de Flaubert, o artesão que viria a reproduzir os profetas do Aleijadinho a fim de serem expostos nesta cidade, raspava a testa a navalha, desejoso de fazer cabeça de pensador.

No tocante ao Cícero Dias, davam razão ao francês que classificava determinada tela de “superfície estragada”.

Cícero será uma das invenções pilhéricas do Gilberto Freyre, uma espécie de “douanier” Rousseau pernambucano.

E, por falar no “douanier” amigo de Guillaume Apollinaire: sabe-se que, sendo ele levado ao tribunal, devido a uma complicação bancária, o advogado exibiu uma das suas alegorias, como a atestar-lhe a ingenuidade, e Rousseau foi imediatamente absolvido.

Mas Cícero não é propriamente um caluniador da natureza.

Inúmeras telas de confrades seus é que estão a reclamar, aí sim com justiça, a ordem de Luís XIV diante de uns quadros holandeses: “Ôtez de là ces magots!”

Quanto ao Santa Rosa, que ensinava desenho sem nunca o haver aprendido, era um encanto de criatura.

Eu e o Gastão Cruls fomos dos primeiros a ser procurados por ele quando chegou do Nordeste.

Havia nele galanteria de alma, brandura de sociabilidade sem cálculo. Não invejava ninguém e a ambição, se a teve, não o levava a atropelar os demais.

Sentia-se em Santa Rosa o que os teólogos classificam de carisma, a graça do Céu. Mas faltava-lhe vocação intensa, persistente, para qualquer arte, além de movê-lo bem mais o instinto do que a técnica.

Ilustrador de livros e cenógrafo, mostrou-se de um impressionismo versátil, fugitivo. A simpatia do homem é que lhe valorizava o talento. Aquele sorriso, aquele cigarrinho, aquelas palavras em surdina cariciosa…

Não vi nunca de perto o J. Carlos: escondia-se ele, enquanto os seus admiráveis bonecos iam saltando por aí a fora.

Mas vi centenas de vezes o Raul Pederneiras, e uma delas em Paraíba, aonde ele fôra visitar um primo, escrevente de cartório.

Seu chapéu tornou-se quase tão célebre quanto o de Gessner e foi até imitado por um funcionário dos Correios.

Imutáveis eram ele e seus processos: sempre a mesma rapariga e o mesmo efeito nos trocadilhos. Mostrou-se talvez melhor humorista dando aulas de Direito…

Quanto dedo admirativo de mineiro ou paulista apontou para ele na Avenida Central! Resistiu cinquenta anos, sem se cansar, sem cansar os apreciadores. Sua silhueta esguia, seu sombreiro, seus bigodes, sua assinatura, seu cachorro, popularizaram-se por todo o Brasil.

Pôs anúncio nas folhas, propondo-se dar lições de desenho por correspondência. Indo ao Rio Grande do Sul, encontrei vestígios da sua passagem por lá como conferencista.

Fez cartazes para o presidente Venceslau, aconselhando cautela contra a espionagem, e neles o caipira e o espião germânico se assemelhavam extremamente, sendo impossível distinguir braquicéfalo e dolicocéfalo.

No centenário de Pedro II, efigiou o imperador e, na barca de Niterói, um míope julgava tratar-se do barão Homem de Meio e um italiano, em êxtase, dizia: “Garibaldi!”

Muitos me perguntaram em Minas: “Conhece o Raul?”, antes de perguntar-me se conhecia o Coelho Neto.

Mas depois de 50 vi-o arrastar-se em direção ao guichê do Tesouro, onde recebia no mesmo dia que eu, o sexto dia útil, os vencimentos de aposentado. E esse homem, em quem a picareta do prefeito Passos nada influíra e que permaneceu sempre no Rio dos becos e dos quiosques, continuava cordial, inocente.

Pena é que diminuísse o tamanho da aba do chapéu, numa concessão que era meia abdicação de popularidade.

Morreu. E agora percebo que esse setuagenário era a única criança boa do Rio. A inocência daquelas figuras, daqueles jogos de palavras!

Ainda recordo que, após o levante de 30, pretensamente destinado a salvar o nosso povo, eu e o Bicho o encontramos em frente ao edifício do “País”, jornal governista, que os revolucionários haviam incendiado e destelhado. E o Raul saiu-se com esta: “Depois da revolução, o país é um céu aberto.”

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