Lembranças de minha cidade natal (27)

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Por Agripino Grieco

Fico muitas vezes pensando no período em que conheci na Paraíba o pintor petropolitano Guttmann Bicho, de quem eu viria a ser cunhado. Ali fora ele executar alguns retratos de encomenda. Andara pelas ruas carregando ostensivamente a caixa de tintas e, logo que me falou, entrou a atacar os velhos mestres, mostrando especial indignação contra o retratista Augusto Petit, que o explorava, e lamentando não poder deixar de trabalhar com ele.

Confessou-se-me, ao contrário, doido pelos romances de Máximo Górki, tanto assim que daria mais tarde a um filho o nome de Pável, ou seja, de um herói do escritor russo. E declarou-me que naquilo que ele mais se recreava era no gosto dos barcos e das pescarias.

Fora criado às soltas em praias do Nordeste e nunca perdera a nostalgia daqueles coqueiros, daquelas jangadas de velas abertas ao vento.

Meses depois, no Rio, avistei-o no café Belas-Artes. Desde então as nossas adolescências se misturaram, e esquecê-lo seria esquecer o melhor encontro que através dele fiz em minha vida.

Com o Guttmann fui a exposições de pintura, li livros e revistas de arte, colecionei telas, muitas pintadas por ele e que ele me deu quase de graça.

Ao Belas-Artes acompanhava-o constantemente o poeta Carlos Maul, seu conterrâneo e então cultor dos literatos portugueses, recebendo cartas de José Agostinho, do Veiga Simões, do Orlando Marçal.

Havia no café uma caixeirinha loura, um gerente positivista de longas melenas, e muitos quadros nas paredes, cedidos pelo dono da Galeria Jorge, também sócio do café.

Entre os frequentadores da casa destacava se o Lopes Trovão, de colarinho côncavo, cabelo eriçado e monóculo, fazendo sempre questão de pagar todas as despesas, num mecenismo que deslumbrava os boêmio.

Ernani Rosas, ainda que brasileiro, dizia seus versos de assunto lusitano com um forte sotaque adequado ao tema.

Valfredo Martins, que acabaria secretário das finanças no Estado do Rio, mostrava sonetos parnasianos e simulava fumar um cigarro de porcelana numa piteira igualmente de porcelana.

Seu tio Ulisses, tipógrafo e megalômano, dava- se como anarquista, mas fingia ser representante do ministro da Guerra nas festas patrióticas.

Serafim França, paranaense, repetia as pilhérias do Emílio de Meneses.

E Múcio Teixeira chegava, dentro da sobrecasaca roçagante, a anunciar que iria morrer breve um dos grandes do Brasil e que ele via um cadafalso com as letras R. B., o que nos consternava, porque pensávamos logo em Rui Barbosa e Rio Branco, embora quem viesse a morrer realmente fosse um modesto Rodolfo Brasil, Rodolfo Pau-Brasil na íntegra, coronel do Exército.

Soube eu ter o Bicho duas discípulas, uma costureira gaúcha e a mulher de um relojoeiro europeu, para as quais pintava quase tudo.

Longo tempo não nos separamos nunca. Se ele ia a Petrópolis visitar os seus, eu o acompanhava, e, se eu ia a Paraíba visitar os meus, ele me acompanhava.

Viajou depois para a França e, à volta, quantas parolagens ainda na livraria Quaresma, no Círculo Católico, além das correrias pela ilha do Governador a apanhar cajus e pitangas!

Mais tarde veio um desentendimento de adultos ranzinzas, devido a alguns patifes que se interpuseram entre nós, e era bem raro que nos falássemos, e assim mesmo fugitivamente, à porta da casa Cavalier.

De qualquer modo, o inapagável do afeto perdurava em mim. E quando ele se foi para uma França ainda mais longínqua, não consignada nos mapas, ninguém o substituiu, porque me era impossível voltar a ter vinte anos. Estética e quebradeira marcavam os nossos dias moços…

Bicho fora em Alagoas amigo do poeta e grande bebedor Sabino Romariz, estudara pintura com o Eliseu Visconti e tivera como condiscípulos o Henrique Cavaleiro e o Marques Júnior.

Trabalhara depois ao lado do Augusto Petit, numa sala cheia de trompas e despojos de caça e de velhos móveis de cinco ou seis estilos diferentes.

O pintor francês se ufanava de haver caçado com o conde d’Eu e efigiava deputados, capitalistas, provedores de sociedades religiosas e veneráveis de lojas maçônicas.

Ao meio-dia, vinha uma escassa merenda para os auxiliares do “atelier”: bolachas e bananas.

E houve quem enxergasse no Petit um seguidor da animalista Rosa Bonheur, dada a sua especialidade de retratar burgueses ricos e estúpidos.

Funcionava ele num sobrado do largo do Capim, por cima de um restaurante, e à sua sala de teto estucado vendedores espertos levavam frequentemente ovos de avestruz, fotografias de atores e atrizes com assinaturas apócrifas, livros em frangalhos, que impingiam por bom preço a um colecionador nem sempre esclarecido.

Na poeira das mesas e do piano era possível escrever a dedo o que se quisesse.

Alinhavam-se no corredor retratos de políticos decadentes, retratos que o Petit pintara às pressas na hora do fastígio, mas que, afastados aqueles cidadãos do poder, ninguém mais adquiria, sentindo-se uma grande tristeza nos olhos do Petit ao considerar tantos encalhes.

Aliás, diziam ter ele prontas, na época das homenagens numerosas, figuras acéfalas de desembargadores, generais ou bispos, com a toga, a farda ou a batina, de modo a sobrepor-lhes, logo que procurado pelos fregueses, a cabeça do homem ilustre. Forneceu milhares de retratos, mostrando-se em tudo eclético, sem sectarismos de qualquer gênero.

Não gostava de modelo vivo, preferindo-lhe as Vênus e os Apolos em gesso, porque menos dispendiosos.

Indignou-se com a aparição aqui de um concorrente seu o espanhol de nome Cañizares, que se fez sogro do advogado Nicanor do Nascimento e se tornou sócio de confrarias católicas e até mação, a fim de superá-lo nas encomendas.

Bem francês no culto do pé de meia, chegou a ter muitas propriedades em França.

Suas paisagens eram cenográficas, parecendo mais trabalho de brocha gorda que de pincéis finíssimos.

Aplicava aos retratados, por muitos calombos e rugas que tivessem, um soro rejuvenescedor, deixando-os com uma doçura de pele que, segundo os maldizentes, fazia pensar em nádega de anjo.

Mas seus pêssegos eram magistrais, com uma penugem veludosa em condições de seduzir os menos vegetarianos. E havia, no caso, a vantagem de, sem mais despesas, comer ele em seguida os modelos.

Era amigo do seu patrício Adriano Delpech, que compunha baladas à moda de Rostand, invectivando os tedescos nesta banda do Atlântico, a lecionar num ginásio e a cantarolar em italiano pelas estradas de Petrópolis, debaixo de um chapéu de explorador inglês.

Gonzaga Duque, no romance “Mocidade morta”, conferiu ironicamente ao Petit o antônimo de Le Grand, mas Laudelino Freire, desejoso de quadros gratuitos para ornar a sua vivenda de Copacabana, tratou-o com relativa deferência.

Aliás, o Augusto afirmava não ser rancoroso quanto ao Duque, tanto assim que lhe acompanhou o enterro.

Lembro que eu e o Guttmann Bicho jantamos inúmeras vezes numa horrível casa de pasto da rua da Quitanda, com uma palmeirinha raquítica à porta e pratos cantados pelo garção.

Aproveitávamos aniversários suburbanos para uma refeição melhor, caindo eu no descaso das saudações de sobremesa, a louvar anfitriões que mal conhecia.

Aos domingos, íamos saborear o almoço ajantarado das irmãs do meu padrinho José Bezerra, num casarão do Fonseca, em Niterói, casarão onde habitara o jurisconsulto Teixeira de Freitas.

E, para entrar de graça no Lírico ou no Municipal, figurávamos na claque chefiada pelo motorista Arlindo.

Nesses tempos, usava o Guttmann gravata de laço o trazia vistoso anelão no polegar da mão direita, além de ter inventado esta coisa desconcertante: um bolso para lenço na manga esquerda do paletó.

Mas sempre foi artista de verdade e não apenas figurino de artista. Pintou admiráveis retratos de Farias Brito, João Ribeiro, Rocha Pombo e Fábio Luiz, indiscutíveis obras-primas em que punha a irradiação do espírito na vulgaridade das faces.

A certa altura, anexou-se-nos o José de Sabbatini filho de um conde italiano com uma índia do Amazonas e que estudara música em Roma.

Tocava bastante a “Rêverie” de Schumann e era acompanhado ao piano pela Alzira Mariath, de cabeleira que parecia empoada como a das fidalgas antigas, havendo quem a dissesse prestes a ir receber na Inglaterra a herança de um seu parente Marryat, grande milionário londrino.

Acompanhando o instrumento do Sabbatini, era ela, por sua vez, seguida sempre pelo tenente Clito, oficial não sei de que milícia e que acabou fotógrafo profissional dos visitantes da Quinta da Boa Vista.

Nossa existência então era a caça eterna a um bom prato e amedrontava-nos a constante perspectiva de um despejo sumário, dada a impossibilidade de nos entendermos direito com os senhorios.

Fomos uma tarde, a pé, à morada, bem distante, de um escultor que nos prometera um lanche, mas só encontramos lá maçãs e peras de louça, infamemente decorativas, porque as peras e maçãs reais eram reservadas para um parente enfermo, que, aliás, ingrato com as frutas do parente, legou todos os seus haveres à Beneficência Portuguesa.

Guttmann Bicho, germanófilo na primeira grande guerra (quantas vezes a minha francofilia se irritou com ele e estouraram discussões tremendas!), obteve o prêmio de viagem e, em lugar de ir a Berlim ou a Hamburgo, dirigiu-se a Paris, de onde voltaria como se o escorraçassem do Paraíso.

Não obstante o horror que proclamara diante da vida burocrática, acabou também em repartição pública, pintando rins e estômagos cancerados para o Ministério da Educação e Saúde, sem esquecer a carcaça de alguns chefes.

Mas não deixou nunca de ser sincero, chegando à rudeza e detestando caminhos oblíquos na palestra.

Embora não livresco, possuía um gosto instintivo em letras, e, nada bairrista, detestava Petrópolis, sua cidade natal, que julgava tão inexpressiva quanto as suas camélias e as suas hortênsias.

Entusiasta do mar até o fim, construiu mais de um barquinho em que aos domingos corria toda a baía de Guanabara da manhã à noite.

E, muito descuidado, limpava dezenas de pincéis em sua blusa, tornando-a assim uma tela rutilante…

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