Lembranças de minha cidade natal (26)

0

Por Agripino Grieco

Quando eu me avizinhava da adolescência na sede de nosso município, devia ser garoto em Cebolas o Pedro Gomes da Silva, talvez a figura mais típica da Paraíba nestes últimos tempos. Pedro, bem franco e às vezes um tanto cínico de expressão, viveu numa espécie de represália sarcástica aos que lhe amarguraram a infância. Começou rindo de si mesmo para poder rir melhor de todos os outros.

Apelidaram-no Pedro Cabrita, porque sempre nos pulos em seu recanto. Isto numa época em que era delito ser pobre nas zonas rurais, onde os homens, apesar do paradoxo de Rousseau em louvor aos que estão próximos da natureza, não se mostravam mais probos e mais cristãos que os citadinos.

Ah! os rancores do Pedro em relação aos tais fidalgotes do campo, com seus brasões adquiridos às pressas, com um baronato ou um viscondado sem raízes fundas num passado glorioso! Eram simples exploradores da gleba trabalhada primeiro pelos escravos roubados à paz da África e depois pelos escravos brancos vindos ingenuamente de zonas civilizadas da Europa. Nenhuma gratidão aos que lhes asseguravam luxuoso conforto no seu solar e na sua quinta, muita bandalheira em relação às meninas indefesas de um belo trecho do Brasil.

Politiquice sórdida, total desapego à cultura literária ou artística. Selvagens metidos em palacetes e não raro ostentando anel de grau. Pois essa gente martirizou o pequeno, o menino sem pai conhecido. Apenas um ou outro se apiedava do Pedro, já meio Gavroche nesses dias campestres.

Depois, viu-se ele nos domínios urbanos do dr. Bernardo, que, Nemrod à sua maneira, se dava às caçadas amorosas com fúria infatigável, deixando a domicílio as enxúndias da amante austríaca, que não imitava, de modo algum, a doçura e o langor das valsas vienenses de Strauss.

Veio a seguir a fase hoteleira de Pedro, às voltas com um ex-jardineiro luso, que se lhe fez padrasto. Dias turvos sob as ordens do português, cujo esporte predileto parecia ser o de levar a biqueira do sapato ao posterior do enteado.

Há, porém, em tudo a chamada justiça imanente. O pobre diabo da fazenda, da casa do Bernardo e do hotel encontraria, no decorrer do tempo, a sua desforra.

Começou a embrenhar-se em pesquisas sobre a história do município, atraiu a atenção de homens eruditos e prestantes como José Geraldo Bezerra de Meneses, mereceu esclarecimentos de Afonso de E. Taunay, leu os viajantes estrangeiros que à Paraíba do Sul se referissem, organizou, em suma, o seu pecúlio de memorialista regional.

Assim, e interessando-se pelos que são prejudicados por uma ruim aritmética na partilha dos bens terrestres, acabou tornando-se figura popular em seu rincão.

Comunicativo, um tanto chalaceiro, coincidiu que se aproximasse do presidente Getúlio. E, em passes de mágica, foi duas vezes prefeito e deputado estadual, e participou de um Conselho de Contribuintes do Estado, mamando mensalidade grossa.

Ele próprio se confessava malabarista como nem o Circo Spinelli exibiu igual. Conservou um arquivo de documentos locais que excitaria o João Condé. E na assembléia de Niterói agitava a sonolência dos legisladores com discursos irreverentes que os seus inimigos (ou os meus…) me atribuíam, apesar de eu haver passado meses e meses sem ver de perto o Licurgo paraibano.

Não sei o que valeriam os tais discursos. Sei, sim, que em dado momento se pôs ele a escrever com leveza e graça as suas memórias autobiográficas, e isto sem nenhum ultraje às nobres tradições do idioma, assessorado, ao que ele mesmo lealmente proclamava, por um professor oriundo de Braga, a terra do poeta monoculado João Penha, que fora companheiro de quarto de Eça de Queirós e misturava ternuras de galanteio a pormenores culinários em suas rimas…

Se houvesse fosfato de Horsford para esquecer, eu o tomaria a fim de afastar muita recordação pungente. Mas não o tomaria nunca para esquecer as expressões com que conterrâneos meus, ali por 1900, me deliciavam.

Diante de um sujeito fátuo: “Fale com os pobres!” Maneira modesta (modéstia talvez algo irônica) de anunciar um nascimento: “Gente nova lá por casa…” Ou: “Mais um criadinho às suas ordens…” O “remember” dos credores: “Não se esqueça de mim…”

Um pouco de praga nesta frase que quer desiludir: “Vá esperando!” Maldição mal encoberta, partida de um cidadão rancoroso: “O mundo dá muitas voltas…” Pudicícia na alusão a um parto: “boa hora, bonsucesso.” Para não tocar claramente em amigação, em mancebia: “juntaram-se.”

Bebida em que entra álcool: “Água que passarinho não bebe.” Em presença de um bolo mais quantitativo que qualitativo: “mata-fome.” Referência a si mesmo, aparentemente humilde, mas ainda com um pouco de altivez: “O filho de meu pai…” Fuga de menina amorosa ou de caloteiro obrigado a mudar de pouso: “Bateu a linda plumagem…”

Acepipe de refeição imaginária: “pirão de areia.” Em refeição igualmente abstrata: “pastel de brisa.” À passagem de um barbaçudo ou cabeludo: “Brigou com o barbeiro…” Recorrendo ao jogo do bicho para burrificar um vaidoso: “É águia com zero nove…” Para um burocrata hirto em sua cerimoniosa peça de vestuário: “casaca de ferro.”

Coçar-se: “tocar viola.” Ameaça sem eufemismo, sem rodeios: “Parto-lhe as fuças!” Aplicado a uma cantora da terra: “voz de cana rachada.” Sobre um freguês insolvável, terror dos negociantes: “Deve a Deus e ao mundo…” De um que relutava em repisar seus temas: “Não sou relógio de repetição…” Desdém quase sempre feminino: “Não se enxerga?” A mais bela talvez das metáforas, a sugerir alegria alada, qualquer coisa de entrevisão mileumanoitesca num pouco de maluquice: “Viu passarinho verde…”

A propósito de um mineiro, padrasto de linda jovem e que sorria da lei contrária às acumulações: “cabide de empregos.” Expressiva designação condenada a desaparecer com a atual exibição de pernas: “rabo de saia”. Ferroada num sujeito que se julgava onisciente: “pau pra toda obra.”

Rebanho panúrgico de eleitores: “carneirada.” Dito levado do Rio de Janeiro por um frequentador de teatros: “Talvez te escreva!” Remendo no fundo das calças: “par de óculos.” Recusando o último cigarro a um filante: “Este é filho único de mãe viúva…”

Gravata convertia-se em “coleira”. Quando uma mulher pobre passava com lata d’água à cabeça: “Está usando chapéu…” Cartola de potentado: “chaminé.” Ante um operário vestido com luxo em dia comum: “Vai tirar retrato… ” Ao encontrar um tipo esquelético na rua: “Deixaram o cemitério aberto…”

Frase de alguém que saía de uma refeição mais copiosa que delicada: “Entrei nos feijões…” Classificação de um trecho solitário da cidade: “rua do lá vem um.” Vendo um suposto domador de cavalos tombar da montaria: “peão do chão.”

Sátira ao advogado ignorante que parecia provir, não de academia, mas de uma cocheira carioca: “Formou-se na Moreau…” Referência a um mau orador: “Deitou falação…” Aludindo a um comerciante demasiadamente magro e comprido: “Vendeu o esqueleto ao Museu…” Castigo ao tolo que supunha haver brilhado em seu repente humorístico: “Quanto quer pela gracinha?”

O que um ruim patrão dava aos empregados: “trinta dias por mês e água franca.” De um preto, a comentar balelas da imprensa: “Papel branco aceita tudo…”

Sujeito desleixado nas roupas e no físico: “filósofo.” Adaptado a um macrocéfalo: “sete cabeças.” Conselho dado a um cacete, como querendo poupá-lo a perigoso ataque de insolação: “Vá pela sombra…” Cidadão mexeriqueiro, intrigante: “É um leva-e-traz…” Ao desfrutar-se uma boa sinecura: “Que canja!” Classificação inexplicável: “cor de burro quando foge.”

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here