Lembranças de minha cidade natal (25)

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Por Agripino Grieco

Há quanto tempo os violões dos seresteiros do Rio, deixando as modinhas sentimentais, trocaram as Mauras e as Arabelas pelo fluminense que dobrara o preço das passagens de subúrbios, creio que para duzentos réis. “Foi um Passos lá na Estrada de Ferro,/ Não sei se erro por idéias minhas,/ Que inventou esses tais soberbos planos/ Dos suburbanos comerem dobradinhas…”

O inspirador desse desabafo era da zona do coronel Joaquim José de Sousa Breves, possuidor de dezenas de fazendas e milhares de escravos, e que se indignou quando um genealogista mercenário, fabricante de estemas e brasões de contrabando, o quis converter em descendente de Pepino, o Breve, rei de França e suscitador da dinastia carolíngia.

Breves, inimigo de inovações, recusava-se a seguir de trem pela serra do Mar: preferia a magnífica estrada de rodagem que abrira ele próprio nos seus feudos, declarando não ser minhoca para roçar-se pelos túneis.

Também, chegando ao Rio, esperava que Pedro II, sabedor do seu nenhum aulicismo, o mandasse insistentemente convidar para uma visita e uma longa palestra afetuosa na Quinta da Boa Vista.

De igual ânimo independente era Pereira Passos, inimigo de curvaturas e madrigais palacianos. Embora filho de barão, detestou sempre, em seus vários postos administrativos, discursos louvaminheiros de subordinados e nem sequer se interessava muito quando lhe chegavam às mãos artigos em que Olavo Bilac e Medeiros e Albuquerque o defendiam de quantos o acusassem de burlador das leis, de megalômano, de cabeçudo ou truculento.

Se a cidade do Rio de Janeiro aí está sem febre amarela e peste bubônica, a ele o deve, a ele que completou eficientemente o trabalho de Osvaldo Cruz e Paulo de Frontin e em certos instantes, para favorecer o povo, parecia voltar-se contra o povo.

Foi um grande inimigo dos quiosques, acentuou-o o Lobato, que, de resto, falava com saudosa ternura desses pequeninos pavilhões semeados pela modesta Sebastianópolis e onde nos serviam, por dois tostões, uma canequinha de café odorante e um pão quentinho com manteiga.

Proprietário dos quiosques era o barão de Ibirocaí, a quem acabaram apelidando de barão de Ibiroquiosque.

Não foi esquecido por Lobato o ótimo Herculano Pena. Era da principal família dos Penas de Minas. Não prescindia das longas barbas que tão bem se ajustavam aos retratos oficiais do tempo. Mais austero talvez que Pereira Passos, nem sequer patenteou a simpatia deste em relação ao teatro e às belas atrizes, como no caso da radiosa Tina di Lorenzo.

E – declarei-o ao Lobato – a figura desse Herculano achara de pronto o caminho do meu afeto porque fora ele, junto a um dos seus sucessores na União Valenciana, o protetor de meu pai, que chegara havia pouco da Itália, tartamudeava ao exprimir-se em português e era não raro ridicularizado pelos companheiros de turma, pelos que, com ele, mourejavam nas montanhas e nos grotões da estrada que de Desengano a Valença galgou penosas altitudes.

O pobre Pascoal deixara a mulher e o filho Donuto em Rionero, numa região vulcânica onde as águas saltam fervendo das rochas e onde as noites dos que labutam nos vinhedos se dulcificam nos cânticos dos peregrinos que passam nas cercanias, rumo dos templos de Roma.

Sem ninguém na terra moça em que pelejaria trinta anos, até que o sepultassem numa colina junto no rio Paraíba, o estrangeiro, ironizado pelos de sua classe, encontrou o amparo do ouro-pretano que nascera em solar suntuoso.

Mas forte estrondo em Lobato foi ao vir à baila o nome de Paulo de Frontin.

Esse varão tonteava-o, deixando-o meio frio para dois administradores que não mereceriam ser assim quase escamoteados: Osório de Almeida e Aarão Reis.

Osório, admirável em si mesmo, avulta ainda mais incorporando-se postumamente à glória dos filhos, e Aarão inventou uma cidade brasileira, fazendo no real aquilo que Vítor Hugo fizera apenas no papel ao inventar a cidade bíblica de Jérimadeth.

Miraculosa – assinalava o meu guia – a memória de Frontin. Retinha o nome de todos os seus auxiliares e, onde quer que se achasse, era como se tivesse diante de si todos os livros e todos os mapas que se lhe prendessem à tarefa do momento.

Ainda que com uma voz afeminada em que persistia a dição nasal dos antepassados franceses, improvisava com exuberância, e palavras suas já eram atos decisivos. Nenhuma impropriedade oratória nesse repentista de gênio.

Mas, gostando de aplausos, rejubilava também quando o discutiam, quando ventos contrários lhe avivavam a flama criadora.

“Homem terrível!” frisava o Lobato. “Parecia trazer dez dínamos no corpo.”

Enumerando os feitos do maior dos nossos engenheiros, o apologista aplicava ao fim um sonoro “et coetera”.

Detalhe curioso: havia na Central do Brasil um agente de estação extremamente parecido com Paulo de Frontin. Era o seu sósia, o seu menecma, até no timbre de voz. Semelhança perfeita na barbicha, no passo cadenciado.

Frontin quis conhecê-lo e, diante do outro, sentiu a impressão de estar a narcisar-se em espelho fidelíssimo.

Chegaram a contar que um baiano, especialista em efígies de administradores, retratou o agente de estação quando lhe encomendaram o retrato do diretor, que não dispunha de folga a fim de atender, em poses paulificantes, a esses Rafaéis de paleta pobre.

Mas, tombando do alto de seus ídolos, não tardava Lobato em despenhar-se no escárnio.

A queimar o seu mineiríssimo cigarro de palha, ria-se ele do Rodrigo Barradas, um colega de esgares e gritos simiescos, um gorila que degenerara em homem ou falso homem, e pulava raivoso quando o mandavam trabalhar na estação de Macacos, ali nas proximidades de Belém.

A um companheiro, forte calculista e no bilhar mestre invencível, prognosticou que acabaria com cálculos biliares.

A outro, dado a virgular os ofícios em excesso, que acabaria com o bacilo-vírgula. E entrou logo a chamá-lo de Virgulino.

“Fardo violado”: cognome imposto a um condutor de trem que andava sempre de camisa a saltar-lhe do cós das calças.

Pior do que fora o maligno pintor Cabrion para o porteiro Pipelet foi Lobato para o Tito Lívio, guarda-chaves macérrimo e descorado, que ele tratava de Tito Lívido. Garantia ouvir-lhe estalidos na ossada quase à mostra e trouxe-lhe, de uma feita, um frasco de óleo para Tito Lívio azeitar a carcaça.

Tudo isso era ingênuo, primário?

Concordo. Mas poderia eu exigir mais de alguém que percebia ordenado minguadíssimo, devia a comerciantes e agiotas e tinha sempre a cainçalha dos credores a formar-lhe inquietante cortejo?

As festas em homenagem ao agente da estação, com oferta de licoreiro ou cigarreira, divertiam-no mais que uma função do circo Albano, onde aliás haviam representado duas pantomimas de um primo seu, com versos do filho de um notável poeta.

“Filho legítimo?” indaguei. E Lobato, ambiguamente: “Natural…”

Diante de um colega que se formara em medicina e exibia o mais possível a pedra simbólica: “Pobre Fernão Dias Pais! Foi morrer lá pelo sertão no sonho de arranjar esmeraldas que acabariam enfeitando a vaidade desses…”

Parou. E eu, que percorrera o romance de Léon Daudet, sugeri-lhe: “Desses mortícolas…”

“Sim, desses mortícolas”, concluiu ele, embora se recusasse subsequentemente a ler a narração satírica do mau ficcionista incapaz de repetir o êxito dos bons romances paternos.

Ainda bem mais tarde, trabalhando eu no Rio de Janeiro, reencontrei o Lobato, bastante envelhecido, e queixou-se-me ele de que, sendo diretor da Central o barbudo Arrojado Lisboa e seu chefe de gabinete o dispeptico e triste Vieira Cortês, começara ele assim um requerimento ao primeiro: “O meu pedido parecerá arrojado, mas na realidade é muito cortês”.

Foram seis dias de suspensão ao calemburista. E Lobato, quase choroso, comentava: “Que diabo! Pagam tão bem os trocadilhos do Raul Pederneiras, e a mim punem por ter feito esses dois…”

Mas, a seguir, aludiu a outro diretor, cuja administração foi das menos duradouras. Tal como em velha historieta, aqueles que demorassem em ir cumprimentá-lo pela posse no cargo, já encontrariam outro no lugar…

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