Lembranças de minha cidade natal (22)

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Por Agripino Grieco

Não sei como veio ter à Paraíba um primo de meu pai, de nome Antônio. Mas lembro que ele logo se revoltou com a preferência que seu parente demonstrava por mim. Na realidade, sempre fui o filho predileto do Pascoal, por ser – dizia ele – parecido com meu avô. Quando me apresentava e apresentava meus irmãos a qualquer cidadão influente de Paraíba, passava rápido pelo Donato e pelo Belmiro e demorava-se com ênfase no meu nome: “Este é o Agripino Grieco!”

Adquiria aqui no Rio de Janeiro quantos livros eu lhe pedisse, e ainda me recordo de um volume de poesias de Paul Fort que tresandou muitos meses a fumo, pela razão de que ele o levara envolta num embrulho de cigarros e charutos destinados ao seu comércio.

Gostando de escutar meus discursos, organizava sempre uma comemoração em homenagem a 20 de setembro, data da tomada de Roma pelas forças que complementaram a unificação italiana, sendo que nesse feito especialmente o encantava o golpe contra o poder temporal do papado.

De manhã, lá ia o bom Pascoal pelas ruas paraibanas empunhando a bandeira de sua terra, acompanhado de um filho que empunhava a bandeira do Brasil, e tudo ao som dos hinos das duas nações, executados pela banda do maestro Guerra da Costa.

E, como eu, numa sessão especial no teatrinho de Paraíba, omitisse uma alusão a Mazzini (Garibaldi, Cavour e Mazzini constituíam a trindade obrigatória em tais alocuções), ele protestou da platéia, exigindo reparação num adendo.

Até em dada ocasião, porque me esquivei a participar daquelas festas, assegurou-me que acabaria quebrando a cabeça de alguém, para ir ao júri e ter eu de defendê-lo. Era bem o pendor teatral dos latinos, e o Pascoal estava a ouvir de antemão os comentários do público, interessado nisso de ver um filho defendendo o pai no tribunal com muitos gestos e muita retórica…

Quando o recém-vindo Antônio se achava comigo, falava-me – era justo – da Itália. Não esquecia que vira fuzilar, numa praça da sua Rionero, o último chefe de bandidos da região.

Por sinal que o povo de lá era sempre a favor dos bandidos e contra a polícia, que execrava. Havia um serviço de informações para orientar os meliantes e despistar os soldados do rei de Nápoles.

Mesmo verificado o advento da casa de Sabóia, mais benigna, ainda os campônios se sentiam muito vigiados pelos carabineiros e, se se divertiam numa cantina, deviam levantar-se à entrada dos policiais e provar-lhes que o canivete de que se utilizavam não excedia das dimensões permitidas pela lei.

O tio Antônio trabalhara em rapaz na vinha paterna e não ia até lá sem ser acompanhado por um canzarrão fidelíssimo.

Gabava os panos de linho e seda que sua avó conservava em arcas de madeira, legado imemorial da família, religiosamente transmitido de geração em geração, ao lado de alguns anéis, colares e brincos manufaturados por um ourives de aldeia.

Reproduzia-me as lendas de tesouros enterrados em conventos, lendas que ouvira em criança, acreditava nas pragas dos mendigos, no mau olhado das velhas invejosas, respeitava as teias de aranha, os ninhos do beirais do telhado, os grilos do fogão.

Gostara sempre dos leitos altos, vistosos, com muitos panos coloridos.

Apesar de supersticioso, julgava-se incréu, detestava os padres, não ia à igreja nunca, mas observei que os toques de sinos na matriz fronteira à nossa casa o punham em êxtase, também se descobrindo ele à passagem de todos os defuntos.

Ignorante, as cores de um belo quadro, a carne de mármore de uma formosa estátua, o enlevavam, eram golpes na sua sensibilidade, percebendo-se-lhe a vibração da raça amiga dos aumentativos sonoros e que tamanho consumo faz da expressão: “Che bellezza!”

Jamais ouviu sem lágrimas, num gramofone qualquer, as canções napolitanas que lhe falavam em Sorrento ou no funicular que leva ao Vesúvio, e recitou-me – desconheço como e quando os decorou – uns versos que eu verifiquei depois serem de um grande poeta dialetal: Salvatore Di Giacomo.

Ainda se ria dos habitantes de um lugarejo vizinho a Rionero, e aos quais todos os seus conterrâneos atribuíam mil tolices, dentro daquele espírito de separação que suscitou tantas muralhas e tantos dialetos na Itália.

Lembrando-se talvez do arado dos campônios e dos teares das campônias, manteve-se inimigo das máquinas complicadas, fugindo dos automóveis, como receoso de ser logo esmigalhado.

Recompunha historietas locais, uma delas alusiva ao madraço que ia sempre pedir a Cristo, num templo, o fizesse achar uma bolsa cheia de dinheiro, até que o sacristão, caceteado de tão insistente pedido, se colocasse atrás da imagem e respondesse: “Vá trabalhar, meu filho, vá pegar numa enxada!”, ao que o madraço revidou: “Pelo teu mau modo de falar é que te pregaram na cruz!”

Conservou-se sóbrio: duas azeitonas, um pedaço de pão e um gole de vinho às vezes lhe bastavam, mas sentia prazer em banquetear a quantos o procurassem na vendola em que se estabelecera, tendo sempre várias garrafas a se refrigerarem numa talha para deliciar os visitantes.

Metendo-se entre os mações, foi vítima dos irmãos triplicimente pontuados, que o calotearam à farta.

Educou filhos e netos, e educaria os bisnetos, se lhe chegassem a tempo.

Aos rebentos nunca pediu coisa alguma, com um orgulho indomável, e, chegando à falência, passou a morar em casa mais humilde, até que pudesse satisfazer na íntegra os credores.

Timbrava em frisar que viera da Itália por conta própria, e não em manada de imigrantes, e exibia-me jubiloso o seu passaporte, já um tanto comprometido pelas traças.

Detalhe curioso é que, negociando, jamais recusou vender a crédito aos que elogiassem a Itália: era um truque conhecido dos maus pagadores da cidade.

Outro pormenor digno de nota é que, no seu patriotismo regional, ele pedia sempre nos restaurantes do Rio, queijo e vinho de Rionero e ficava indignado porque os garções, perplexos, confessavam não ter ouvido falar nesses produtos, oferecendo- lhe vinho Chianti e queijo Moliterno.

Era o Antônio freguês de seu patrício Zágari, estabelecido à rua da Assembléia e especialista em bebidas, e, vendo lá uma enorme caixa d’água assinalou, num sorriso malicioso, que ali estava a cooperadora dos vinhedos europeus.

Quase não ia com portugueses, lembrando que na Itália chamam “portoghesi” aos sujeitos que entram de graça nos teatros.

Nem tinha vergonha de confessar-se descendente de um lavrador que, havendo assassinado um inimigo em plena procissão, fora condenado a longa pena de prisão com silêncio e, ao deixar o cárcere, teve de reaprender a falar.

Muito moleque na juventude, Antônio divertia-se a pregar peças aos bobos em 1° de abril, comprava a fiado os doces fabricados por minha mãe, a boníssima dona Rosa, como ele dizia, propondo-se pagá-los no dia de São Nunca, como também dizia.

Porque não sei de um italiano que assimilasse tão depressa e tão bem os modismos, as expressões típicas dos brasileiros.

Assistindo a numerosos enterros em Paraíba, na época da febre amarela, da varíola ou da bubônica, repetia sempre metáforas pitorescas para aludir aos conhecidos que haviam esticado as canelas, batido a bota ou ido para o país dos pés juntos.

Como centenas de caipiras, chamava a locomotiva da Central de “Maria Fumaça”.

Referência a um cabo eleitoral fanático: “Sua cachaça é a política”.

Divertindo-se com a sua própria gente, teve isto a propósito de alguém que andava sempre a pé: “Viaja em automóvel de italiano”.

Acentuou galantemente que uma rapariga das vizinhanças possuía “cabelos cacheados e olhos de gata”.

Seu doce predileto era “baba de moça”.

E a um fiscal arrogante que lhe perguntou: “Sabe com quem está falando?” opôs esta resposta zombeteira: “Vou correr um dicionário de homens célebres para ver se você figura lá…”

Mas não esqueço a sua tristeza quando encontrava o sobrenome “Grieco” em tantas vítimas dos terremotos da Basilicata, relatados pelo telégrafo, tristeza ainda maior quando pensava no último abraço que recebera do pai à hora da partida para o Brasil, abraço em que parecia haver esta exclamação muda: “Nunca mais te tornarei a ver, meu filho!”

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