Lembranças de minha cidade natal (21)

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Por Agripino Grieco

Amarelo e ossudo, nariz em ponta e um pouco de prognatismo, o promotor Jarbas Loretti mostrava-se ferocíssimo nas acusações, investindo contra pobres diabos da terra com furores de um Fouquier-Tinville retardatário.

Indignava-se quando os jurados absolviam, apelando quase sempre. Só se tornava caridoso no que dos mendigos e dos doentes dizia em sonetos, aliás produções descaridosas para com os leitores, porque mal escritas.

Casara-se com uma irmã do ator Leopoldo Fróis e filha do advogado Fróis da Cruz, portador dos maiores bigodes que já vi na minha vida e discursador ouvido por mim numa arenga em que, falando a jornalistas, reincidia no gasto chavão de classificar a imprensa de quarto poder do Estado.

Loretti comprava os romances de Zola em tradução portuguesa, mas não os lia, preferindo ir pescar no rio próximo.

Uma sua criada é que se repastava sofregamente neles, e assinalando a lápis vermelho os trechos mais escabrosos, especialmente as aventuras das cortesãs. Isto a derrear as carnes flácidas numa cadeira de balanço colocada na varanda do lindo chalezinho da rua das Flores, propriedade de um espanhol e de cujo aluguel Jarbas era pagador dos mais recalcitrantes.

Em dado momento, o cunhado de Leopoldo Fróis começou a publicar no jornal de Paraíba uma série de crônicas com o pseudônimo de Ignotus, como se naquela cidadezinha de escassos habitantes alguém ignorasse ser ele o garatujador de tantas bobices.

Igualmente o Jarbas nunca procurou ouvir o Alfredo Clarimundo, flautista meio envergonhado da medalha de ouro que lhe conferira o Conservatório do Rio, porque isso poderia comprometê-lo nas graves funções de contador e partidor local, se bem que o Capistrano de Abreu, ouvindo-o em companhia do José Geraldo, desfranzisse a carranca e não quisesse mais deixá-lo.

Por indulgência cristã, a única que louvava as estrofes de Loretti era a irmã de caridade Filomena, minha professora e delicadíssima ao abrir diante de mim uma cartilha com que me iniciou pacientemente nos sinais cabalísticos do alfabeto.

Deixando a roça e vindo para a então capital do Brasil, Loretti relacionou-se com o cronista mundano Figueiredo Pimentel, fértil em escândalos nos livros e na vida, mas depois, rota a amizade, quis matá-lo na livraria Garnier, ainda que só o golpeasse muito à flor da pele.

A seguir, arranjaram-lhe um posto na diplomacia lá pelos Andes. Nilo Peçanha concorrera para isso e Jarbas, mais tarde, redigiria maus poemetos, em que o político campista seria exaltado não menos que o Aconcágua e o Chimborazo.

Em Bogotá multiplicou-se ele em façanhas esportivas.

Já atravessara a baía da Guanabara a nado, para repelir a arrancada de Byron no Helesponto, embora se fizesse acompanhar, o que o outro não poderia fazer, de uma lancha a gasolina.

Por sinal que nos Andes, exibindo-se numa piscina de clube em manhã friíssima, sentiu terrível câimbra e quase morreu afogado, porque a assistência supunha serem suas braçadas aflitivas uma proeza a mais e se eximia a socorrê-lo…

Na confecção dos versos, piorava sempre. Chegava a enternecer essa sua desesperada caça à beleza poética que mais e mais lhe fugia.

Aliás foi de todo indiferente à pinacoteca do bacharel Leopoldo Teixeira Leite, onde vi quadros dos italianos Michetti e Morelli, e à biblioteca do dr. Benedito Valadares, que me transmitiu incuravelmente o bacilo da bibliofilia, tais as suas edições ilustradas por Gustavo Doré que me puseram tonto.

Nem lembrava ele, para bem poetar, que Bilac ali escrevera, numa encantadora vivenda, os versos em que transforma as águas de um rio brasileiro em águas de rio grego: “Há pelo Paraíba um sussurro de vozes, / Tremor de seios nus, corpos brancos luzindo… / E, alvas, a cavalgar broncos monstros ferozes,/ Passam, como num sonho, as náiades fugindo.”

Também esquecia, ou ignorava, os latinistas que dantes ali haviam aportado: Pergentino, sempre cuidadoso com as roupas, longos cabelos prateados, passinho miúdo de quem vai entrar num minueto, mas intrépido à hora de medir-se com os irmãos Lobo, Aristides e Demóstenes, quando estes abriram escritório na Paraíba; Rufino, eterno discutidor em casa, nos autos, nos jornais, julgando dessaborido um país sem polêmica; Macário, atacado de um espécie de bulimia cerebral, sabendo de cor os artigos que Renan e Taine estampavam na parisiense “Revue des Deux Mondes”; Viriato, que, embora de uma invulnerável honradez, se comprazia em excitar demandas, algumas ruinosas, como no caso da matrona Ramira, quase inquilina do foro e esquecida do amante, abandonado por ela numa cadeira de inválido; e Ratisbona, amigo de um pintor que procurava por alma na face dos seus modelos, e se recusou a retratá-lo, alegando que os advogados não têm alma.

Quando o prosador Adelino Magalhães organizou aqui no Rio uma série de vesperais consagradas aos poetas mortos, pediu-me que falasse de Azevedo Cruz. E eu recordei então que o conhecera em pessoa na minha Paraíba, vendo-o aliás uma vez apenas.

Estava a pequena cidade agitadíssima. Ia ao júri o advogado Caio Cordeiro dos Campos Valadares, acusado de haver mandado matar, na ladeira junto ao antigo cemitério, o juiz Cornélio de Magalhães Morais, que ele increpava de ser sistematicamente hostil aos seus constituintes.

O assassino, um mulato de ares plácidos, confessara o crime e acusara seu patrão Caio, o que não obstou fosse o bacharel absolvido, com um grande êxito de público e oratória no tribunal.

Lá estava, na defesa de Caio, o velho conselheiro Cândido de Oliveira, que fora ministro no Império e era catedrático de Direito.

Legou ele aos filhos uma vasta biblioteca, torrada na rua São José pelos herdeiros, com o busto do conselheiro ao centro. Foi como se o queimassem em efígie. E nem faltavam, entre sisudas obras de jurisprudência, volumes pavorosamente pornográficos, com ilustrações que fariam corar de pejo os símios do Jardim Zoológico.

Mestre Cândido era expositor erudito, mas cacete a valer. Nutrindo o auditório de bons ensinamentos, flagelava-o sempre, como que a justificar o provérbio de que quem dá o pão dá o castigo.

Outros defensores: o pai e o irmão do réu, que feriram bem as cordas da harpa do patético familiar.

Pois, à hora de começar o julgamento, desembarcou em Paraíba, à frente de uns vinte soldados, o poeta Azevedo Cruz, que era chefe de polícia do Estado do Rio.

Já percorrera eu versos desse campista e admirava-o, embora o sentisse indeciso entre o parnasianismo e o simbolismo e sentisse o que ele devia a Antônio Nobre, Raimundo Correia e Cruz e Sousa.

De qualquer modo, empolgavam-me os seus versos sobre uma espada de Toledo, sobre o rio Paraíba (“Rio que rolas dentro do meu peito!”), sobre um carro de bois que passava a gemer “sob o azul matinal”.

Sabia-o mestiço e enxergava certa velhacaria nisso de falar ele dos reis de Granada, a sugerir uma ascendência moura, quando os seus antepassados eram outros.

Mas, avistando-o, pensei haver engano por parte daquele que me dizia estar ali o Azevedo Cruz. Como? O galanteador de tantos sonetos que valiam os de Bilac era esse senhor que antes se me afigurava um antigo inspetor de quarteirão ou um antigo cabete eleitoral do Rio?

Magro, o peito côncavo, afagando uma barbicha bifurcada de Mefistófeles de opereta, não correspondia ele ao tipo delineado pelo meu entusiasmo de leitor.

Não sei que providências tomou ele em Paraíba. Mas daí em diante (bobagem!) relutei em relê-lo. O chefe de polícia estragara para mim o poeta.

Não esqueço, entanto, que muitos anos depois o Bezerra, encontrando numa revista de Campos um poemeto de Azevedo Cruz, falou-me dele com carinho, aludindo à sua demorada agonia de tuberculoso e à ternura com que ele indagou da esposa, numa das suas últimas noites, ao olhar a lua que lhe entrava pelas janelas: “Não parece o luar de Verona?”

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