Lembranças da minha cidade natal (9)

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Estátua de Capistrano de Abreu em Maranguape (CE)

Por Agripino Grieco

Morava o José Geraldo num chalé situado a cem metros da casa de meu pai. E às vezes, para chamar-me, debruçava-se à janela, soltava um grito estridente e lá ia eu ver o que desejava de mim o meu padrinho de crisma.

Uma tarde foi para substituir, numa bobagem que eu garatujara com destino ao jornaleco da terra, o vocábulo “berceuse” pelo termo “acalanto”, que me fez aplicar em mais de um escrito e vi depois em poluição do Mário de Andrade.

Nutras ocasiões, era para dar-me a ler alguns poetas provincianos pouco conhecidos na capital.

Constituía uma das suas especialidades esse entusiasmado pelos versejadores “méconnus” e pretendia ele organizar comigo um florilégio em que entrassem Paulino de Brito, amazonense que fora tipógrafo e aprendiz de maquinista; Pedro de Calasans, sergipano, homem erradio, morto em viagem para a ilha da Madeira, depois de haver celebrado a musa Ofenísia, disfarce verbal de uma das mulheres mais formosas mais requisitadas do Império; Narciso de Araújo que se isolaria durante decênios num casarão de Cachoeiro  do Itapemirim, superando o romântico de Passos que apenas passou quatro anos sem sair do seu quarto do Porto; o mestre de direito penal Gerivásio Pioravanti (belo nome!), que, deputado em duas legislaturas, só discursou numa sessão, e isso mesmo para tecer compungido necrológio, sendo autor deste verso que fez época em Recife: “Dá meia-noite o pêndulo do Nada… ”

Mas uma tarde o Bezerra, em lugar de debruçar-se à janela, mandou chamar-me por uma criadinha preta.

Estava resfriado e, muito ossudo debaixo dos lençóis, começou lamentando a podridão da nossa carcaça. “Isto, o corpo – disse-me ele – é o pântano. A alma é que é a vitória-régia.”

Depois, encarregou-me de ir à estação da Central do Brasil esperar o Capistrano de Abreu, que deveria chegar no trem das nove da noite, e conduzi-lo ao chalé dele, Bezerra.

Eu de Capistrano não conhecia coisa alguma. Nem mesmo ouvira falar ainda da localidade de Capistrano, dos Abruzzos, pátria de um pregador santificado por haver combatido os turcos em sermões.

A minha perplexidade era a daquele cura de Manzoni que, encontrando num livro o nome de Carnéades, fica a indagar de si próprio: “Chi era costui?”

Esclareceu-me o padrinho, entre dois acessos de tosse, que se tratava de um grande historiador do Brasil, de um homem que sabia tudo, quase lhe respondendo eu, à maneira do matuto da anedota, que nesse caso devia saber também onde ficava a morada do Bezerra.

De qualquer modo, fui à estação. Não a de hoje, com a sua arquitetura besta, se aquilo chega a ser arquitetura, e a sua passagem subterrânea, mas o casarão simpaticíssimo, de jardim ao lado, e em que o velho agente Bibiano, “pater-familias” dos mais prolíficos, contava coisas nada edificantes, divertindo o amolecado telegrafista Aníbal, capenga, e escandalizado o telegrafista Cordeiro, sisudo espírita de cabelos anelados.

Vendo-me na plataforma, um grupo de noctâmbulos que ia sempre esperar o trem das nove para pedir aos viajantes os jornais vespertinos do Rio, entrou a indagar o que me afastava assim, àquela hora, da casa do negociante Pascoal.

Figuravam no bando o Sinfrônio, que se relacionara com o poeta Melo Morais Filho numa farmácia de São Cristóvão, e vivia a comentar-lhe os versos, o Arnaldo, filho de um rábula da zona, vermelho e sardento, de pés miúdos, antigo caixeiro da Casa Colombo, da rua do Ouvidor; o Romeu, madraço insubmisso à canga de qualquer gênero de emprego, roendo sempre o bigodinho, quando não roía as unhas; o Nerval, de uma estirpe de hoteleiros, gaguejando muito ao declamar as “Virgens mortas” e dando a cada alexandrino de Bilac, no mínimo, trinta sílabas; o Caetano Camelo, cidadão realmente gibudo, bicheiro dos mais afreguesados e que, quando um dos eruditos da roda lhe falava em Camões, pensava tratar-se do Camões vendedor de bilhetes de loteria aqui no beco das Cancelas; o Albuquerque, criatura fregolesca, seduzida por todas as artes e ciências, metendo-se em tudo sem persistir em nada, delirando apenas uma semana em cada mania, pintando retratos caluniosos, musicando versos antigos, selecionando borboletas, fazendo-se ciclista, numismata, o diabo…

Afinal, chega o noturno. Alongo os olhos pelo carro de primeira classe e não avisto ninguém que se me afigure Capistrano.

No de segunda enxergo um varão de barbas híspidas, mergulhado num livro e abstrato, só saltando à última hora, ao apito de partida.

Barbas, livro… Devia ser o grande historiador, o homem que sabia tudo.

Os do grupo de noctâmbulos (Sinfrônio conhecera Capistrano no Rio) desandaram a rir do leitor barbado, adaptando-lhe o epigrama de Bocage a um Crispiniano qualquer que, à meia-noite, sai sujíssimo de um cano.

Mas eu, já agora posto em contato com o recém-vindo, apressei-me em conduzi-lo ao Bezerra. Talvez me envaidecesse a honra de ser, no caso, cicerone de um sujeito ilustre.

Devia ele vestir-se na Barra do Rio, da rua Sete de Setembro, ou em alfaiataria pior. Seu chapéu, amarrotadíssimo, dava a impressão de que várias matronas obesas se lhe haviam sentado em cima durante semanas. A gravata era um cordel, o colete conservava, nas manchas gordurosas, vestígios de uns pratos que Capistrano devorara antes do embarque. As joelheiras das calças escuras igualavam-lhe o passo a um passo de elefante.

Novos apenas, nele, os sapatos, que haveriam sido adquiridos na véspera e acentuavam ainda mais, pelo contraste, a velhice do resto.

O historiador era bem o anti-Brummell e eu, que percorrera vários romances portugueses da biblioteca da Câmara, repassei mentalmente diversas expressões com que os ironistas lusos se reportam aos senhores assim negligentes na parte do vestuário: mal-apanhado, mal-entrouxado, lambuzão, besuntão…

Em caminho, não recordo se Capistrano disse qualquer coisa de real importância histórica. Recordo, sim, que o deixei no chalé do Bezerra e voltei às pressas à casa de negócio, onde meu pai me veio abrir a porta um tanto amuado com uma demora que fugia aos meus hábitos.

No dia seguinte, novo chamado do padrinho Zezé, por intermédio da criadinha preta. Continuava ele às voltas com o resfriado e queria que eu mostrasse a cidade ao visitante.

Mostrar, porém, o quê? Onde o museu, o laboratório, a usina, o monumento notável? Nenhuma igreja de séculos, nenhuma tribo de guaranis, nenhum manuscrito raro em condições de interessar a mestre Capistrano.

Percorremos trechos à beira do Paraíba, que ele achou sujo e sem graça, e acabamos, não sei como, galgando a colina da Casa de Caridade.

Aí, apontando para uns galhos bem folhudos, perguntou-me o visitante, para pôr-me à prova, que árvore era aquela. Eu, comprometendo as minhas funções de cicerone, confessei-lhe, balbuciante, que ignorava o nome exato do vegetal.

Pois não calculam a indignação do sábio nesse momento. “É assim mesmo. Rapaz brasileiro não consegue particularizar coisa alguma, ao contrário do que ocorre na Alemanha. Aqui só conhecem o nome da árvore pelo nome do fruto. Sabem que o cajueiro é cajueiro porque dá cajus, que laranjeira é laranjeira porque dá laranjas. De árvore sem fruto desconhecem sempre o nome. É uma árvore e pronto. Como uma flor é uma flor e um peixe é um peixe, sem maiores particularidades. Preguiça mental de gente do trópico. Enquanto isto, num parque de Berlim, todo rapazola distingue com precisão uma espécie botânica de outra…”

Para interromper a descompostura dada, tentei levar Capistrano a ver o asilo de órfãos, mas ele, tirando do bolso do colete um belo relógio de ouro (a riqueza oculta desse maltrapilho!), objetou que era hora de almoçar com o Bezerra e, esquecido de qualquer impulso de ternura cristã em relação à orfandade, desceu rapidamente a colina.

Não o avistei mais em Paraíba do Sul e só vim a reencontrá-lo dez anos depois, na livraria Briguiet, onde ele consultava um dicionário, com os olhos de míope, sem óculos, a arrastarem-se pelas amplas páginas do volume…

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