Lembranças da minha cidade natal (8)

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Por Agripino Grieco

Cliente do José Geraldo era o sobrinho de uma baronesa excêntrica do município. A solidão concorria para modelar bizarras figuras como as populosas capitais não conhecem às dezenas. Amando meter-se em trajes de homem e até na farda agaloada que herdara do marido, voluntário do Paraguai, essa fazendeira opulentíssima ufanava-se dos seus cafeeiros simétricos, correndo as suas terras a cavalo, e a galope sempre que possível.

Era atiradora que não perdia tiro e ficou muito contente quando um poetóide da região a comparou, em soneto pernibambo, às amazonas das margens do Mar Negro. Ignoro o que havia de exato na informação de que a fidalga adivinhava, com precisão infalseável, a aproximação dos temporais.

Embora fulgisse o sol em céu azulíssimo, ordenava ela que recolhessem do terreiro o café, e a chuva não tardava. Mas por quê? Quais os seus conhecimentos meteorológicos? É que – assegurava – sentia nesses instantes uma parte oculta do corpo bem mais úmida que de ordinário. Ao que um professor de primeiras letras, sabedor do caso, comentava tratar-se de um barômetro dos mais esquisitos…

Ainda que menos rico, o Dr. Inácio Campos, que visitava sempre o Zezé, também se impunha pelas singularidades.

Com cara de inglês, parecia, nos hábitos e nas sortidas de “humour”, um evadido das ilhas de John Bull a que não se desse muito bem lá para os lados de Cebolas.

Isso de Cebolas é nome de um execrável prosaísmo, que logo nos arrasta às cozinhas, embora os pintores de natureza-morta não desdenhem de todo essa planta, que afinal é da mesma família botânica dos lírios.

Mas os habitantes do distrito, louvando-se em não sei que historiador ou memorialista, afirmam que o lugar se denomina assim em homenagem a Cipolas, um sítio encantado desde a Idade Média, suscitador de inúmeras lendas, um trecho de mundo em que se fundiam Canaã e Eldorado.

Passara por ali ainda no período do Brasil colonial um filho da tal Cipolas, vagabundo misterioso, meio escultor e meio curandeiro, que talhara em madeira um pequeno Cristo para a capelinha do povoado e fizera andar um paralítico há muitos anos endurecido no catre.

Nesse recanto, atravessado por John Luccock, que nele encontrou águas mais belas que as de um lago da sua Inglaterra nativa, havia morado o capitão Tira-Morros, que se antecipou às rodovias de hoje, investindo contra as elevações de terreno, na ânsia de abrir caminhos retos e largos.

Inácio, parente do conselheiro Martinho Campos, sorria das ambições territoriais deste, citando, com boas letras latinas, o “latifundia perdidere Italiam” do naturalista famoso.

Clínico, atendia de preferência aos pobres e só ia aos ricos quando não houvesse perto outro médico em condições de curá-los ou… liquidá-los. E aos pobres deixava a receita, enrolando nela o dinheiro destinado ao farmacêutico e ao caldo de galinha e às frutas.

Embora avesso a bravuras, foi um dia encontrado a discutir com um valentão da zona, que dava calafrios de medo à polícia, e, como estranhassem esse ato de intrepidez, explicou: “É que eu tinha a mão no bolso, e cheia de areia, e, se ele arremetesse contra mim, eu lhe atiraria logo aos olhos o que trazia na mão…”

Contaram-me que bebia a valer, mas acertando ainda mais no diagnóstico quando meio tocado, e, auscultador admirável, gabava-se, gracejando, de ouviu um passo de formiga no capim a vinte metros de distância. Avistei-o uma tarde num trem da Linha Auxiliar (era eu rapazola e ele bem idoso), oscilando mais de que exigia o balanço do trem…

A propósito do Vaticano, antiga morada do pai de José Geraldo, apresentei a melhor versão, a mais divulgada em Paraíba do Sul. Mas devo recordar que também outra circulava entre maldizentes de botica e botequim: a de que o advogado Leandro Bezerra arrecadara dinheiro para enviá-lo ao Papa, num período de penúria deste, e ficara com os cobres, sendo ele, consequentemente, o Papa e a sua residência o Vaticano.

Rumor insidioso, incapaz de poluir a reputação daquele que, descendendo de uma irmã de frei Vicente do Salvador, defendeu na Câmara Federal os bispos dom Vital e dom Antônio de Macedo Costa e recebeu louvores dos padres Sena Freitas e Júlio Maria, embora Ângelo Agostini o maltratasse em notável caricatura; daquele, enfim, que, para promover dádivas em favor da Casa de Caridade local, inflava, com títulos obtidos por ele junto ao Imperador, a vaidade nobiliárquica dos potentados de Paraíba, ao mesmo tempo que recusava para si, terminantemente, medalhas e fitinhas de qualquer espécie.

Nem faltavam – lembremo-lo – picuinhas a outras notabilidades da região. Contavam, por exemplo, que a condessa do Rio Novo, mulher abnegada, morrera na Inglaterra, após uma operação cirúrgica, e ao chegar seu caixão a Paraíba encontraram, não o corpo da fidalga e sim um tronco de árvore, segundo alguns, ou o cadáver de um preto, segundo outros.

Riam-se do Honorato Cela, a quem chamavam Honorato Cangalha, porque, organizando o programa de importante festa religiosa, classificou de “culto externo” a parte do leilão de prendas, jaburu, roleta e demais atrações.

Um escrivão que convivera com Aristides e Demóstenes Lobo, quando estes advogaram lá, duvidava da eloquência e da sabedoria jurídica dos dois, achando Demóstenes pouco demostênico e espantando-se com o fato de Aristides haver chegado a ministro.

Assinante da “Revue des Deux Mondes”, um cearense, despaisado pelas leituras, parecia estar mais à beira do rio Sena que do rio Paraíba.

Ouvi alusões à existência, nas proximidades das fontes Salutaris, de ninhos de cobras sem iguais no Brasil, mas hoje sinto que nenhum desses ninhos excederia o escritório do Zezé ao aglomerarem-se ali as más-línguas da cidade.

Por sinal que um deles me contou haver o adorável Macário, no dia em que lhe borraram a frontaria da casa com esterco de boi, dito e redito aos passantes: “Vejam só. Que patifes! Cuspiram-me na parede…”

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