Lembranças da minha cidade natal (20)

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Por Agripino Grieco.

Não deve ter havido originalidade na atração que o teatro exerceu em mim nos tempos de menino. Creio que isso acontece com todas as crianças. Mas o certo é que eu ficava desvairado à simples idéia de assistir à representação de uma peça qualquer no casarão informe a que chamavam Ginásio Paraibano.

Lá trabalhou, ainda muito novo, o Leopoldo Fróis. Filho de um advogado maneiroso, viria a formar-se também em Direito, mas antes disso já percorrera diversas cidades fluminenses, com um bando de artistas improvisados que não conseguiram triunfar como ele.

À Paraíba do Sul chegou num período de quase indigência e nem teve coragem de afrontar as despesas do hotel, indo abrigar-se, com seu bando, num barracão onde realizavam os leilões de prendas dos festejos de Nossa Senhora do Rosário. Recordo que esses patrícios, mais desinteressantes que os franceses da carreta de Téspis, interpretaram no Ginásio Paraibano uma comédia de Camilo Castelo Branco.

Nada conservo de preciso sobre o conjunto da noitada. Lembro-me apenas do Fróis, esguio e muito lépido, a agitar-se no palco, dizendo coisas com um leve sotaque à lisboeta.

Nem posso informar se já trazia ele então a face vitriolada pela varíola, desventura que nos últimos tempos o forçava a grandes cuidados de caracterização, para que não lhe percebessem, ao fazer papéis de adolescentes, os vestígios do mal desfigurador.

Vaidosíssimo era nosso comediante. Procurava vestir-se tão bem quanto o seu êmulo Le Bargy, gostava de atravessar a Avenida em luxuoso automóvel, gravou a sua canção “Mimosa” em disco, respondia às críticas desfavoráveis.

Figurando numa opereta em que devia ser pai de três raparigas, preferiu tornar-se irmão, para que o parentesco não o envelhecesse muito.

Evitava participar de peças em que não fosse protagonista.

Para obter mais requintados efeitos, enriquecia os autores, e assim é que num texto de Bernstein intercalava o famoso verso de Baudelaire que fala em “divãs profundos como túmulos”.

O maior encanto de Leopoldo era a voz, segundo me explicou Eduardo Vitorino, perfeito sabedor das coisas de teatro.

Conheci um português belíssimo que sempre falhou nos negócios por ter a dição áspera. E, inversamente, o Eduardo descreveu-me uma corista velha, feia e mal vestida, que a todos enleava em seu mavioso sussurro.

Mais tarde vi e ouvi outros atores.

Impaciente na colheita de louros, Renato Viana, também dramaturgo, dizia-se perseguido, sem que ninguém o perseguisse. Algo de mártir profissional.

Em moço, escrevera um romance onde me atribuía a função de “raisonneur” irônico.

Às vezes, dadas as suas atitudes, era ele mais dramático que os seus dramas.

Tinha talento, mas não chegou a desenovelá-lo das intenções sociais que o impeliam a peças de tese, sempre com rebeldias diante do Estado, embora não dispensasse subsídios e vencimentos do governo.

Quanto aos intérpretes do admirável Nelson Rodrigues, estiveram longe de sepultar-lhe a Musa teatral com “Vestido de noiva”.

Depois de ver a atriz Alda Garrido trabalhar num palco de cinema do Méier, às voltas com uma farsa repleta de subentendidos obscenos, fiquei surpreso quando críticos jovens, que não poderiam ter visto a Réjane representar, a deram como superior à Réjane no papel de madame Sans-Gêne.

Guilhermina Rocha sempre se me afigurou esplêndida atriz para fazer a Arlesiana e madame Benoîton, que, como se sabe, não entram nunca em cena nas peças de Daudet e Sardou.

Afônico, o ator Marzulo falava apenas para as cadeiras mais próximas.

A grosseira fisionomia do popularíssimo Brandão parecia trabalhada a espátula.

Sempre lamentei que o bacharel Odilon Azevedo não houvesse seguido a carreira do foro.

Na figura de Cleópatra, da peça de Bernard Shaw, Dulcina de Morais repetiu os trejeitos de mulatinha arreliada do “Amor” de Oduvaldo Viana.

Desempenhando o papel de Pilatos no “Mártir do Calvário”, o ator Marcílio não dispensava uma bacia dourada para lavar as mãos.

Nem esqueçamos uma Carmen que, não valendo coisa alguma, foi convertida em ídolo nacional exatamente pelos idiotas que ela tratava familiarmente de “macacada”.

A portuguesa que passou a baiana e depois a estadunidense, com uma voz que era simples vagido, com dengues e remelexos de mucama, desmoralizou-nos mundo a fora com falsas notas exóticas de cestas e balangandãs.

Da sua glorificação póstuma de rádios e jornais resultou aquele carnaval macabro no rumo do São João Batista, só faltando discurso de vereador.

Forte hilaridade produziu entre nós o idílio de um professor sexagenário com uma fadista oriunda do bairro da Alfama, um dos mais deselegantes de Lisboa. Andaram os dois a exibir-se pelos lugares públicos, quase em ternuras de Paulo e Virgínia.

Ria-se o povo, mas, devido à situação de relevo do mestre fardado, não faltaram à estrangeira as zumbaias de um positivista, mentor de festas carnavalescas, que transmudou a lusitana dos fados, incapaz de ser corista na mais reles opereta, em rival da Severa ou da Amália Rodrigues.

O canto de nossos tenores é um misto de cacarejo e gargarejo.

Laringite à parte, o Roberto Miranda vai bem nas suas árias.

Um pormenor anedótico: saindo eu do Teatro Municipal, onde assistira à representação do “Doente imaginário” de Molière, prometi a um servidor de lá, que acreditava em meu prestígio na Prefeitura, conseguir a sua promoção, ao que o meu filho Donatello observou tratar-se de “promovido imaginário”.

Na parte de fitas de cinema, recordo uma em que o ator era o francês Charles Boyer, a atriz a escandinava Ingrid Bergman, o assunto inglês e o resto norte-americano.

“Ufa”: eis, em geral, o comentário aos filmes da fábrica alemã desse nome.

E, mais recentemente, um cidadão nordestino falou em processar o realizador de uma película sobre cangaceiros, afirmando que este lhe roubara um trecho de música qualquer. Mas aí apareceu outro cultor de letras e artes a dizer-se vitima do suposto roubado. E foi uma gargalhada ante essa bela sequência de larápios…

Dos artistas da minha intimidade, o mais culto foi Carlos Abreu.

Alto e meio torto, com vários lanhos na face, e olhar vago e a boca murcha, dava a impressão de parvo e era inteligentíssimo.

Abstêmio, ia bem nos papéis de bêbados e, interiormente roído por veleidades de rebelde, preferia encarnar figuras de aristocratas, como quando fez, de modo notável, o barão de “A Bela Madame Vargas” de Paulo Barreto.

Em moço, tentou a ficção, compondo alguns contos horríveis pelo tema: um bígamo que era serrado ao meio pelos sogros, para que coubesse cada metade de seu corpo a uma das esposas; um coveiro que forçava a amante a entregar-se-lhe perto das tumbas; um sujeito que liquidava a faca diversas marafonas, só para verificar se a história de Jack o Estripador era verossímil.

Furiosamente wagneriano, pareceria ele furiosamente antiwagneriano ao trautear a música de “Lohengrin”, numa desafinação das piores.

Carlos Abreu viajou bastante pelo mundo todo.

No Haiti observara o gosto dos pretos pelos nomes célebres e pelos títulos pomposos que eles se outorgavam a si mesmos, sem necessidade de nenhum cartório de nobreza. Mais de um Vítor Hugo, de um Lamartine, de um Rostand. Havia o conde do Limoeiro, o marquês da Casa Branca. Nem faltavam os romanos: Salústio, Catulo, Marco Aurélio. Tudo numa relativa semelhança com outro país conhecido nosso.

Voltando de São Paulo, foi ele quem me contou que lá apelidaram de “Mil e Um” o futuro chanceler Macedo Soares, porque, ao casar-se, a noiva possuía mil contos e ele um.

Como os jornais insistissem muito na operação de catarata de um capitalista: “Essa catarata faz mais rumor que as do Niágara…”

Falou de um cachorro que talvez fosse o melhor crítico teatral do Rio, pois entrava na platéia e, se saísse antes do fim do espetáculo, a peça não iria além da primeira representação.

Mandando-me uma carta da Ásia e, tendo de escrever o nome de Nabucodonosor, escreveu apenas Nabuco, explicando que o resto viria na carta seguinte.

Sem acreditar na eficiência da nossa Escola Dramática, perguntava se os nossos doutores em teatro usariam também anel de grau e qual seria a pedra simbólica.

E sempre deplorou que um amigo seu fosse o “negro”, o “fa presto”, de diretores de jornais da Paulicéia, em troca de uns magros cobres que o mantinham magríssimo…

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