Lembranças da minha cidade natal (18)

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Por Agripino Grieco

Foi no ano de 1903 que incorporaram a Melhoramentos à Central do Brasil, com a denominação de Linha Auxiliar, e não esqueço o entusiasmo dos que assistiram a uma das cerimônias da transferência em Paraíba do Sul, onde a Melhoramentos terminava.

Meu pai, amigo de dois empreiteiros de ferrovias do tempo, como que acompanhara de perto os últimos arrancos da estrada com que a energia do glorioso Frontin vencera altitudes árduas, no seu desejo de não recorrer aos túneis que tantos colegas lhe sugeriam.

E, ao chegar a Paraíba, foi necessário romper ameaçadora montanha de pedra, numa tarefa em que se encarniçaram centenas de obreiros, e também necessário transpor, no arrojo e na perfeição técnica de uma das mais vistosas pontes metálicas do país, o rio que, no sonoro alexandrino de Alberto de Oliveira, se desdobra “da serra da Bocaina até São João da Barra”.

Muito depois, o italiano Pascoal, já então definitivamente abrasileirado, me falava da vibração de alguns moradores da cidade e do resto do município ao ser dado ao nosso recanto mais um elemento de vida próspera.

Várias vezes o advogado Leandro Bezerra, dono da fazenda de Santa Rosa, produtora de mangas e jabuticabas gostosíssimas, viera ao Rio de Janeiro, a fim de estimular os projetos de Paulo de Frontin e Amarílio de Vasconcelos, propondo-se recrutar acionistas, se preciso fosse, para a empresa.

Frontin, que o prezava bastante (confraternizavam os dois nos sentimentos de irrestrita catolicidade), sempre o ouviu com atenção, a remexer, conforme seu costume, na cadeia do relógio. E, quando o primeiro comboio da nova estrada ladeou o formoso outeiro em que se levanta a Casa de Caridade paraibana, Leandro fez o que fazia em horas de forte emoção: rezou a seguir dez Padre-Nossos e dez Ave-Marias.

Ainda agora, na minha invencível saudade dos dias de vagabundagem provinciana, penso nos que assistiram como eu às manifestações da terra ao ser incorporada a Melhoramentos à Central do Brasil.

Eu acompanharia a solenidade de modo vago, em retalhos de impressões. Mas outros, bem mais avançados em idade, lá estariam a sentir melhor a presença de engenheiros ilustres, talvez de jornalistas notórios e certamente de burocratas encarregados de receber e conferir papéis da administração expirante.

Não pode ter faltado à festança, especialmente se houve croquetes e refrescos, o velho Tota, camarada nostálgico de Fagundes Varela, que lhe aparecera em Paraíba descalço e de cabelos ao vento, bebendo com os pescadores e não tendo nenhuma necessidade de trem de ferro para varejar todos os caminhos.

Assim, com mais de meio século de permeio, não consigo lembrar se assistiu à cerimônia o dr. Benedito Cordeiro dos Campos Valadares (doutor completo: defesa de tese eruditíssima), conversador sempre a coriscar em anedotas e ditos espirituosos.

E figuraria no grupo dos manifestantes um primo de Casimiro de Abreu que negociou por aquelas plagas, o português Luís Ferreira Marques de Abreu?

Quanto a meu pai, seria dos primeiros a exaltar o acontecimento. Nos pendores teatrais de sua raça, soltaria até alguns foguetes e, se a oratória explodiu deve ter ouvido os discursadores com júbilo, ele que,no período da nossa propaganda republicana, aplaudira as tiradas incendiárias de Silva Jardim no largo das Palmeiras e chegara a engalfinhar-se (coisas de garibaldino!) com um monarquista que incitava os moleques a apedrejarem o orador vulcânico destinado a extinguir-se num vulcão da Itália.

Os frêmitos de admiração desse comerciante quase sem letras diante dos portadores de veemente retórica!

Ia eu esquecendo – e seria injusto – que vi ao lado de meu pai um cidadão com quem eu viajara semanas antes na ainda então Melhoramentos.

Era um sujeito magríssimo, com longas barbas tolstoianas. No seu banco, em nosso carro de segunda, atirara ele para o lado um livro em francês e, depois de engolir três empadas que trazia num embrulho, desandou a falar-me durante todo o percurso.

Não me disse quem era, para onde ia, mas falava sempre. As estações a sucederem-se e ele a dizer-me, numa agitação de lunático, dezenas de coisas entre eruditas e pueris.

Naquele cérebro as leituras estariam desarrumadas como brochuras em armário de encadernador.

Deixando-o e chegando à casa do velho Pascoal, ainda tomei nota de algumas frases ouvidas a esse tipo:

“A estrela Vésper não é estrela, galo-de-campina não é galo, peixe-boto não é peixe…

O lindo nome do miosótis quer dizer apenas orelha de rato, camélia vem prosaicamente do padre Camel e dália do botânico Dahl…

O logro recíproco de Marília e Dirceu: separados, ele casou-se e fez fortuna na África e ela chegou tranquilamente aos oitenta anos em Minas…

O aventureiro italiano do romance de Alencar passou a espanhol na ópera de Carlos Gomes cantada na Itália…

Nada ocorreu nos reinados de Luís XVII e Napoleão II…

O filósofo Enfantin, com aquelas imensas barbas, não nos parece infantil…

Neste país enorme pensam em aterrar a baía da Guanabara…

Na Melhoramentos há uma estação chamada Tomás Coelho e outra chamada Tomasinho: Tomasinho deve ser Tomás Coelho na intimidade, em mangas de camisa…

Almorreimas quer dizer hemorróidas: pois houve no interior uma localidade com esse nome e os moradores ficaram indignados quando passaram a denominá-la de maneira diferente…

Um dos maiores patriotas do Brasil, Hipólito da Costa, nasceu e morreu fora do Brasil, além de pouco viver nele: talvez isso lhe aguçasse o patriotismo…

Conheci em Minas um ateu que decorara o nome de Deus em vinte línguas…

Nas marmeladas em França o que menos entra, se chega a entrar, é o marmelo…

O escritor Inglês de Sousa nasceu no Pará e o médico Freire Alemão no Rio de Janeiro…

Sou do tempo em que ainda se empregavam as expressões “semicúpio” e “pedilúvio”…

Fácil compor a biografia da marquesa de Santos, difícil compor a do marquês…

Anquises Peri é um artista de circo de cavalinhos, pródigo em saltos mortais, e eu me recreio com essa mistura de Virgílio e Alencar, de Tróia e Brasil…”

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