Lembranças da minha cidade natal (14)

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O francês Joseph Charles Ribeyrolles

Por Agripino Grieco

Não era só o José Bezerra a contar-nos coisas. Também aparecia na venda do Pascoal Grieco, e derramando-se em perpétuas evocações regionais, um tipo dos mais sugestivos: o octogenário Zeferino Antunes.

Fora ele carteiro e atravessara muitas vezes, de diligência, a poética ponte das Garças, na estrada União e Indústria. Empunhava um grosso cajado cheio de sinais indecifráveis, que dizia haver recebido do Luís Macota, curandeiro que abrigara em seu sobradinho, nas vizinhanças de Santo Antônio da Encruzilhada, o naturalista francês Augusto de Sain-Hilaire, achando bizarra a figura daquele europeu de cabelos compridos, a recolher folhagens e bichinhos pelos matagais próximos e sempre às voltas com grandes malas que lhe davam algo de mascate.

A um outro viajante célebre conhecera o Zeferino em pessoa: o igualmente francês Carlos Ribeyrolles, que por lá peregrinara.

Sei, através de leituras, que o futuro autor do “Brasil pitoresco”, forçado a deixar a França em consequência do golpe de Estado urdido por Luís Napoleão e Morny, acabou, após ligeira estada com Vítor Hugo em Jersey, emigrando para o Brasil, onde permaneceu até à morte.

Gustavo Aymard, seu patrício e sujeito lunático, destinado a urrar num manicômio, dentro de camisa de força, asseverou ser Ribeyrolles entusiasta das crioulas, morando em verdadeiro gineceu africano, antes de ir descansar no cemitério de Maruí, não longe de Fagundes Varela, em sepultura exornada por um epitáfio redigido pelo próprio Vítor Hugo (desta feita não houve arranjo mistificador).

Foi em 1858 que Ribeyrolles se moveu pelo município de Paraíba. E a vila de então afigurou-se-lhe apavorante e não merecedora do rio que passa por lá, rio que mais tarde o campista Azevedo Cruz diria nada poder invejar ao Nilo e ao Ganges.

Uma casa ostentava o chamariz de “Hotel Universal”, junto a prédios estragados pelas enchentes. Mas ninguém se arriscasse a bater-lhe à porta. Qualquer outro sítio seria preferível.

Tinha razão e a coisa só melhorou com a inauguração do hotel do preto-mina conhecido por Anjo da Meia-Noite.

E é curioso como a Ribeyrolles ocorreu a previsão do progresso das terras de Entre Rios, por melhor localizadas.

Viera o antigo revolucionário, em lombo de burro, do povoado de Ubá, onde habitaria o pai do engenheiro Ismael de Sousa. Margeara as águas do Paraíba, roteiro infalseável, encontrando em caminho um casal de mulatos que o receberam com uma cordialidade e uma polidez de brancos.

Creio que, para penetrar na vila, atravessou Ribeyrolles a ponte construída pelo engenheiro Koeler e havia pouco tempo inaugurada, ponte em que serviu como carpinteiro um antepassado do aviador Newton Braga e do jornalista Irineu Marinho, e trabalhou, em função de pedreiro, o pai do rábula Bernardino Pacheco.

Nem vejam intuito de menosprezar ninguém na minha alusão a esses prestantes operários. Carpinteiro foi São José e está no agiológio e, quando Cristo trocadilhou a propósito do nome de São Pedro, recorreu a uma deliciosa metáfora em que a profissão de pedreiro se acha implícita.

A certa altura do “Brasil pitoresco”, apresentamos Ribeyrolles um trecho, intitulado “Mata Virgem”, e aí evidencia o seu enlevo diante das nossas árvores.

Como o panteísta faunesco se sentiu bem nesse regresso à natureza! Adivinhamo-lo de narinas dilatadas para todos aqueles aromas. Que delícia naturalizar-se cidadão da Terra Verde!

E com que júbilo enumera ele as plantas da região: araribá, gandaru, jacarandá, vinhático, tatajiba, copaíba, brasilete, pau-ferro…

Deve ter tomado atentamente nota de todos esses vocábulos sonoros, receoso de estropiá-los, para irritação dos brasileiros.

E concluiu, não sem expandir um tanto os seus sentimentos anticlericais: “A floresta não é unicamente um poema, um grande poema dos olhos: é uma filosofia profunda, é uma revelação. O que poderiam as catedrais dizer de melhor?”

Referi-me aos sentimentos anticlericais de Ribeyrolles.

Até parece ter sido mestre de meu pai. Porque também este (deixem-me retratá-lo ainda uma vez) permaneceu sempre avesso às práticas católicas, embora permanecesse irredutivelmente cristão.

Fora todo da camisa vermelha dos garibaldinos e execrava batinas e buréis, mas nunca deixou um mendigo sem esmola, especialmente se fosse italiano.

Quando praguejava ou amaldiçoava os filhos, logo se arrependia e tinha lá por dentro um pedido de desculpa aos santos ou atraía os rebentos a si, envolvendo-os em longo abraço caricioso.

Mação, assegurando sob palavra que até o papa Pio IX pertencera à Maçonaria, não deixou de emoldurar, e colocar em parte vistosa da nossa casa, o seu diploma de sócio remido da irmandade de Sant’Ana.

O homem era bem nisso (e que sou eu?) um tecido de contradições.

Não frequentava as igrejas paraibanas e, entanto, rememorava com ternura os beatos madrugadores da Basilicata que iam ouvir missa, cruzando-se com ele em caminho, quando ele, pobre campônio que era, se dirigia para o trabalho num vinhedo das proximidades de Rionero-in-Vulture, onde as uvas brotavam com um sabor de enxofre, porque nascidas numa região vulcânica e constantemente sacudida por terremotos.

Ainda encontrei, no espólio paterno, a faixa maçônica do ótimo Pascoal, com uma caveira, um punhal e três letras sibilinas, mas sei que, inimigo dos padres, muito se consternou ele à morte do cônego Inácio Félix, seu amigo e seu confidente em horas críticas, mesmo distante do confessionário.

Quanto a minha mãe, não teve jamais um fugitivo minuto de dúvida. Era a beatice total e quase um estado de bem-aventurança na terra.

Diante das imagens mais grosseiras de santos e santas, caía de joelhos, em êxtase.

Todas as manhãs descia ao quintal para trazer umas flores rústicas com que enfeitava o seu pequeno oratório. Papai clamava: “Estas flores empestam a casa!”, mas sempre deixando-as ficar lá.

Até na noite de Natal não se opunha ele a que eu fosse ver o presepe na Matriz. Primeiro tentava reter-me em sua casa de negócio, onde venderia bebidas aos matutos vindos dos arredores, e depois, sentindo-me a rebeldia a esse encargo de deusa Hebe de tais bebedores, alforriava-me entre dois palavrões.

Corria eu ao templo, ainda hoje tão simples, com uma frontaria que evidentemente não pôs insone, em projeto difícil, nenhum arquiteto de gênio.

Mas no interior, junto a belos altares doados por aristocratas rurais no tempo da opulência cafeeira, destacava-se o presepe, que, talvez medíocre, possuía então o encanto dos meus olhos encantados, da minha encantada meninice.

Ressoavam sinos lá fora, e crescia o número de crentes, homens e mulheres vindos do Mingu, do Brocotó, do Rio Abaixo. Era como se uma nova Estrela dos Reis Magos os arrastasse e orientasse em direção ao estábulo de Belém.

Belém? Haveria, naquele modesto trabalho de qualquer obscuro santeiro (ou “imaginário”, como dizem os entendidos em história da arte), uma verdadeira cor local?

Seria aquilo um recanto da Palestina ou um recanto humílimo aqui do nosso Brasil?

Isso não me importaria nada, mesmo que eu me pudesse preocupar com isso no tempo das maravilhosas despreocupações.

E acaso existe cor local nos painéis bíblicos de um Veroneso, de um Tintoreto?

Aliás, se Cristo é de todas as terras, ficava bem melhor aquele presepe paraibano com os milharais e os tatus com que o artesão da zona pretendera enriquecer a flora e a fauna do Oriente.

Já agora, vinham cantigas do coro da Matriz, talvez desentoadas, mas que me enterneciam e era como se me transmitissem o êxtase materno.

Muitas vezes chorei, chorando, sem que o soubesse em lugar da criatura que não podia vir à Igreja, presa que estava ao lado do marido na vendola em frente. E ainda hoje, apesar de tanto Voltaire lido em sessenta anos de intoxicação literária, não consigo rir desse meu pranto.

Seria o latim desrespeitado nas litanias daquelas mocinhas sem educação clássica? Educação clássica também não a possuí nunca, nunca fui latinista, e os doces cantos das minhas conterrâneas me pareciam realmente língua de Deus, idioma das almas.

Interessante é que, tendo eu visto e ouvido tudo aquilo no ano anterior, era como se naquele ano estivesse vendo e ouvindo tudo pela primeira vez, devido a uma bendita amnésia.

Caíam níqueis numa bandeja de prata colocada junto ao presepe. Poderia um luterano besta, extraviado por ali, irritar-se: eu achava emocionante que tantos pobres se cotizassem para beneficiar o maior dos ricos como se fosse ele o maior dos pobres.

Dos carolas lá reunidos zombaria eu se os encontrasse na farmácia do Mafra ou na barbearia do Amador, mas não ali.

E eram bem risíveis o português Antônio Correia, que se assinava Antônio Burro em tudo quanto escrevia, para assim melhor engodar os inteligentíssimos brasileiros que o tratavam de burro; o Simas, com duas vozes, uma de barítono e outra de soprano, a grossa quando atacava alguém e a fina quando elogiava; o Juliano, escrivão espertíssimo, mestre de tramóias, e sempre cheio de pontos falsos, dizendo um seu desafeto ser ele tão forense que trazia estampilhas até na cara; o escrivão Américo, que instituira na Paraíba do Sul a literatura da carta anônima, gastando mais papel que madame de Sévigné e Fradique Mendes reunidos…

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