Lembranças da minha cidade natal (13)

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Por Agripino Grieco

Nos meus entusiasmos de rapazola pelos artistas, pensei em ver o túmulo do ator Montedônio, sogro do Bezerra, mas este não quis indicar-me ao certo o trecho do Brasil onde esse túmulo ficava. Isto não significa que o genro detestasse o comediante luso. Até o elogiava às vezes.

Fora ele, na íntegra, João Batista Montedônio e já morrera, com quarenta e seis anos de idade, quando o Zezé lhe desposou a filha Lucinda. A viúva do artista, dona Ana, abrira em Paraíba do Sul, em prédio de ampla varanda para a rua, um colégio, de que a noiva de Zezé, primorosamente educada em Lisboa, era a mestra principal.

Numerosa a prole de dona Ana, figurando nela a formosa Ema, que inspirou uma paixão desvairada ao padre Teófilo Bento, capelão de importante irmandade, e se casou a seguir com um gravador do Rio, extinguindo-se setuagenária; a pouco risonha Palmira, que viria a fazer-se religiosa de São Vicente de Paulo, exprimindo-se sempre baixinho, com um inapagável sotaque lisboeta; e João, destinado a ser agente da Leopoldina em Petrópolis, onde os comerciantes lhe mandavam presentes de vinhos e frutas.

Lutou arduamente dona Ana para encaminhá-los todos. O marido nada lhe deixara, ainda que, nas suas horas de orgulho ou megalomania, se declarasse descendente de um doge veneziano cujo nome não revelava.

Nômade eterno, saltitara por diversas profissões, desejando tornar-se encadernador, marceneiro e carpinteiro de máquinas. Só estava bem onde não estava e só lhe pareciam rendosos os misteres exercidos por outros.

Metendo-se no teatro, quando a cena lusitana regurgitava de grandes atores, destacou-se logo, ao que se afere das informações de Sousa Bastos.

Belo homem, de testa escampa, enroupando-se elegantissimamente, não lhe faltavam finura e graça nos papéis de centro cômico, e lembro haver lido num jornal carioca, entre gabos ao talento de Montedônio, a notícia de um seu benefício, que aliás lhe rendeu bem pouco, afirmando ele que com mais dois ou três “malefícios” desses acabaria totalmente arruinado.

O certo é que não se consagrava ao palco de modo constante. Reaparecia-lhe sempre a mania de aventurar-se em novos meios de fortuna e fazia-se, com uma rapidez de transformista, dourador ou dono de casa de ferragens, abrindo até uma taverna. E, chegando a taverneiro, seria ele próprio um dos seus melhores consumidores, porque, a acreditar-se no autor da “Carteira do artista”, bebia bastante, para afogar desgostos que no caso pareciam trazer salva- vidas e resistiam longamente.

Acresce que, nos últimos tempos, descobri, em volume também de Sousa Bastos, um lance algo burlesco atribuído a Montedônio.

Este, ainda em Lisboa, foi pedir a mão de uma rapariga pobre que morava com a tia rica, mas a tia dissuadiu-o de submeter-se à pobreza da linda jovem e ofereceu-se a si mesma ao ator, que, sabendo-a possuidora de uns trinta contos de réis, passou a achá-la “menos velha e menos feia”, e não tardou o casório.

Que existirá de verdadeiro nisto? Concordaria o Bezerra em elucidar-me, ele que, conhecendo tudo das estirpes alheias e incluindo mais de um adversário entre os descendentes do traidor Silvério dos Reis, não podia ignorar o que acontecera no tocante a seu sogro?…

Não me avizinhei da sepultura do ator Montedônio e nem tive ensejo de participar de qualquer romaria de paraibanos.

Organizavam-se em meu recanto frequentes passeios a santuários famosos. Muitos crentes se dirigiam, em carro especial da Central do Brasil, à igreja de Aparecida, onde iam pagar promessas e rezar aos pés da imagem encontrada nas águas do rio Paraíba por um grupo de pescadores.

Outros preferiam tomar o rumo de Congonhas do Campo, levando o seu “ex-voto” e as suas preces a Cristo, e dois ou três, mais interessados pelas coisas de arte, retornavam impressionados com as estátuas dos Profetas, trabalho de Antônio Francisco Lisboa.

Eu, mais modesto, sonhava apenas com uma visita, que nunca pude realizar: ali mesmo, ao santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em nosso município e não distante do de Petrópolis.

Ao que me informara alguém, o sítio era lindíssimo e ininterrupta a afluência de romeiros. Da minha cidade vi eu saírem, em carros de bois, grupos de católicos que, munidos de matalotagem farta, faziam o percurso cantarolando hinos sacros e, de volta, contavam maravilhas da excursão.

Disse-me um padre haver sido a capela erigida em 1773, talvez por algum portuense que se recordasse da igreja do Senhor de Matosinhos, edificada perto do rio Leça que inspirou vários poetas bucólicos.

E grande devoto da capela era um lavrador do Sardoal que não passava semana sem permanecer lá dentro duas horas, para espanto do sacristão, que nisso enxergava demasia de zelo.

Mais tarde, esse crente confessou que ia pedir às forças celestes o ajudassem em transações escusas, pedindo-lhes também uma vez, quando de regresso do Rio, que sua esposa não viesse saber das frascarices por ele praticadas no bairro da Lapa…

Faltou-me igualmente oportunidade de ir a Sant’Ana de Tiradentes, um dos feudos espirituais do Bezerra, mas este narrou-me as suas caminhadas por ali. E na antiga Cebolas procurara vestígios da figura de dona Mariana Barbosa.

Zezé como que delirava, caindo em excessos líricos e inocentemente fantasiando muita coisa, ao tocar nesse assunto, uma das suas obsessões.

Julgava ele aquela senhora um misto de santa e heroína. Embora procedesse de vetusta família brasonada de Portugal, patenteava dona Mariana o seu horror aos títulos.

Cedo baixaram à fazendeira de Cebolas (povoado que John Mawe chamaria de Zabolla e Saint-Hilaire de Cebola) os rumores da Inconfidência Mineira e ela, tendo parentes nas montanhas, abriu em Sant’ Ana uma espécie de filial da conspiração de Vila Rica.

Tiradentes, que transitava por lá ao dirigir-se ao Rio através da serra da Estrela, foi sempre bem acolhido nesses redutos.

Reportava-se ele ao período em que passara pelo comércio, fracassando logo por não ser dado à rapinagem, descrevia as suas tarefas de dentista, em que não cobrava vintém aos pobres, e sorria ao assinalar os seus insucessos nas aventuras de minerador, lavrador e militar. Mas isso – explicava – devia-o à má vontade dos lusos, que absorviam tudo em favor dos reinóis, num favoritismo horrível, sobrando apenas para os daqui trabalheiras árduas, impostos, cadeia, desterro ou morte.

Desinteressado, Silva Xavier indignou-se quando um escravo de dona Mariana, a quem ele arrancara dois dentes, lhe trouxe um cabaz de frutas.

Exaltava-se ao falar, parecendo não raro um louco, dizendo tudo em voz alta e grossa, como quem proclamava a verdade e nada tinha a temer.

Aos mais incultos transmitia, ainda que confusamente, as teorias igualitárias que lhe expusera um Maciel formado pela Universidade de Coimbra. E assim discursava nas vendolas à beira da estrada, nas hospedarias, na porta das igrejas, nos ranchos dos tropeiros e até nos barcos em que atravessava os rios.

Homem sem mordaça, se bem que imprudente em função de conspirador, ia acendendo os ânimos, ainda que um ou outro ouvinte, receoso de delação, se fosse afastando devagarinho.

Quem sempre o escutava com um fervor com que nunca escutara orador sacro algum era dona Mariana.

Ah! o pobre Joaquim José! Poderia permanecer numa varanda tranquila saboreando o seu cafezinho e o seu cigarro de palha, seguindo o passo ondulante das mucamas ou talvez lendo o “Peregrino da América”, de Nuno Marques Pereira.

Mas seu destino era morrer por este Brasil onde o historiador Capistrano o omitiria numa resenha do nosso passado, quase o supondo ridícula invenção de mineiros bairristas.

E aconteceu que, espostejado o Mártir, um dos quatro pedaços do corpo foi levado a Sant’Ana de Cebolas, sabidamente um dos lugares em que, segundo a sentença dos mastins de dona Maria I, desenvolvera ele “as suas práticas infames”.

Por sinal que, ao surgirem os abjetos emissários, celebravam ali a festa do Divino Espírito Santo. Uma daquelas festinhas típicas da roça, dentro de um catolicismo cordial: a missa e um pequeno sermão, o coreto, o leilão de prendas com os indispensáveis pregões jocosos, um tocador de harmônica e, no fim, um bailarico e farta refeição em casa da fazendeira.

Chegando, porém, a tropa sinistra, morreu em todos a alegria.

E, após a leitura da sentença, foi aproveitada uma árvore da região, um pé de braúna (os eruditos dizem “baraúna”), para fornecer o poste onde penduraram o braço direito de Silva Xavier.

Engolindo os rancores, recolheu-se dona Mariana ao seu palacete, recolheram-se os escravos à senzala, recolheram-se os lavradores a seus casebres, e os beleguins de dona Maria continuaram a galopar, a fim de prosseguir na semeadura macabra do corpo esquartejado.

Umas setenta horas depois, noite alta, a admiradora dos inconfidentes dirigiu-se até o poste, em companhia do padre Amorim, capelão da fazenda e bom poeta (muito se encantara ele ao ler uns poemetos líricos de Gonzaga, de que Joaquim José lhe fornecera cópia, e não menos se divertira com a sátira a um Fanfarrão Minésio, de que o conspirador em trânsito lhe recitara alguns versos, talvez não com absoluta fidelidade), e lá acharam o braço, não estraçalhado pelos urubus, e sim envolto numa nuvem de abelhas.

Retiraram-no e foram sepultá-lo debaixo do altar de humilde capelinha. E o altar aparecia, daí em diante, coberto de rosas todas as manhãs.

Nenhuma lápide, nenhuma inscrição, mas que poderia haver de mais expressivo que esse epitáfio floral?

As rosas vinham de mãos desconhecidas e logo viram nisso prova de milagre, acontecendo que, numa zona apenas de santos de importação, o brasileiro Silva Xavier passou a ser invocado como um santo.

Eis, mais ou menos, o que me narrava o Bezerra, citando-me o longo nome de monsenhor José de Sousa Azevedo Pizarro e Araújo, a propósito do cetro e coroa que Tiradentes oferecera para as festas do Divino em Cebolas, cetro e coroa depois surrupiados por um administrador luso que retornava de Minas para o palácio do vice-rei…

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