Lembranças da minha cidade natal (12)

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O pernóstico Catulo da Paixão Cearense

Por Agripino Grieco

Apareceu igualmente em Paraíba descendo do expresso da manhã, o professor Joaquim Abílio Borges, filho do barão de Macaúbas, do admirável educador injustamente satirizado no romance de Raul Pompéia.

Joaquim foi sempre homem agitado, trepidante, movendo-se pelos sebos da capital do país, falando e bracejando muito.

Com aquele volumoso nariz e aqueles bigodes volumosíssimos que quase lhe ocultavam a boca, jogava tremendamente no bicho e a hora da extração da loteria era para ele a grande hora nacional.

Bondoso a valer, vendo nas cédulas do Tesouro papeluchos desprezíveis e dando aos alunos pobres casa e comida gratuitas, não pôde conservar próspero o colégio paterno, dos mais famosos do Rio.

Inimigo de todos os governas, se se referia ao presidente Venceslau era para repetir dez vezes o célebre palavrão malcheiroso, e ao ministro Carlos Maximiliano não chamava senão de Carlos Maximiliasno.

À cidadezinha de Paraíba levou-o o desejo de fundar lá uma estação de férias para o colégio Abílio, ainda então em seu poder, embora já em decadência.

Vagou pelas ruas, conversando com todo mundo, bebeu duas ou três gasosas no botequim do Assunção, examinou um pardieiro do centro e uma chácara dos arredores e, sem decidir coisa alguma, sem nenhuma combinação de caráter prático, regressou no trem da tarde ao Rio.

Durante vários meses ainda esperaram em Paraíba a inauguração do tal curso de férias, mas, quando eu estava para sair de lá, a alusão ao visitante vinha sempre num sorriso irônico e com o dedo indicador batendo no meio da testa do autor do comentário, assim como quem sugere: “Maluquinho da silva…”

Do geógrafo Alfredo Moreira Pinto conservo lembrança de menor nitidez. Recordo-lhe, e mal, o chapéu duro, o guarda-chuva e um embrulhinho em que levava papel e lápis para apontamentos.

O Bezerra é que me explicou direito o homem.

Moreira Pinto, colhendo dados para a edição melhorada do seu dicionário de geografia, visitara Paraíba do Sul em 1901 e publicara um artigo sobre a cidade no Jornal do Comércio.

E é esquisito como o Zezé, católico irredutível, dos que comungam todos os dias, e monarquista talvez saudoso do beija-mão palaciano, gostasse tanto desse Alfredo, republicano histórico que um dia dissera coisas desamáveis, rosto a rosto, ao conde d’Eu, enumerando em aula os erros da casa de Orléans, e exaltava sempre os “mártires da liberdade”, especialmente o brasileiro Antônio José, torrado pela Inquisição lusa.

Zezé era antiflorianista e Alfredo, na revolução de 1893, pusera-se ao lado de Floriano, merecendo as honras, bem platônicas, de tenente-coronel do Exército.

Segundo me informou o Bezerra, Moreira Pinto usara o pseudônimo de Esquiros (tratava-se de outro rebelde), pseudônimo que os desafetos converteram grosseiramente em Isqueiros.

Em Paraíba, deu ele atenção a tudo quanto pudesse fornecer matéria ao seu artigo e, posteriormente, ao seu dicionário ampliado. Nada lhe escapou do que fosse geograficamente descritível.

Sei que se indignou diante da cadeia à beira-rio, realmente um antro dos mais sujos e fétidos, tresandando a bolor, a urina e a coisas piores. Até as lágrimas de seus versos não passavam de um efeito de retórica. E quem ouvisse um tal cabotino do púlpito relutaria longo tempo em converter-se.

Lá por 1900, ouvi a um dos bebedores de cachaçada da venda de meu pai que se achava na cidade o Catulo da Paixão Cearense, o grande Catulo, como diziam seus admiradores.

Estes eram numerosos por ali, naquele tempo. A livraria Quaresma espalhava-lhe os livros de modinhas pelo interior, atendendo aos pedidos que viessem acompanhados de dinheiro, e o Frederico Figner, se não estou equivocado, espalhava-o em discos para gramofone.

Mal ouvida a notícia alvoroçadora, saí à cata do bardo, eu que tantas vezes recolhera de um seresteiro local fragmentos de poesias suas: “Vê que amenidade…” ou “Tu passaste por este jardim…”

Mas onde estaria o homem prodigioso?

Informaram-me que era hóspede do escrivão José Cláudio da Silveira, no outro lado do rio.

Atravesso a ponte, embarafusto pela deliciosa vivenda do Zé Cláudio, esgueirando-me entre cajueiros floridos, e diviso o Catulo num grupo que lhe sorvia em êxtase as cantigas ao violão.

Ao lado do dono da casa, um dos maiores assimiladores de coisas musicais que já conheci, fosse embora um autodidata nesses assuntos, via-se, debaixo da juba que a calvície começava a desflorestar, o maestro Guerra da Costa, outro que decifrava partituras logogríficas, vencendo a rebeldia de qualquer instrumento e improvisando ao piano melodias estonteantes. Um terceiro fanático de Catulo: o alfaiate Artur Alves, amador teatral que gaguejava na rua, mas não no palco.

Escusado assinalar que o meu maior enlevo, no momento, seria a figura de Catulo.

Ainda em pleno candor da meninice, era eu simples demais para sentir quanto aquela cabeça, depois dos belos jovens melenudos do Romantismo, se mostrava inexpressiva, com aqueles bigodes retorcidos de merceeiro e os cabelos cortados rentes.

Entretanto, o fluxo melódico, na corrida de imagens talvez sem nexo, envolveu-me e já não me era possível resistir a esse menestrel de punhos de celulóide.

Voz, nunca a teve Catulo muito forte. A rigor, não cantava e sim cantarolava.

Seus versos, num teatro, mal deviam atingir as primeiras filas. E, não podendo impor-se pela postência vocal, insistia ele em que lhe atentassem na prosódia, na dição claríssima.

Bem examinado, o cantor não ia além da declamação.

A certa altura, surgiu um ouvinte novo. Era um sujeito magro e alto, pálido, alourado, de monóculo, e que me declarou acompanhar o aedo em quase todas as suas excursões pela província.

Nenhum de nós aplaudia Catulo com mais entusiasmo. Valia ele por dez “claqueurs” do Lírico de outrora.

Mas algo me segredava haver nesse frenesi de admiração muito de simulado, de postiço.

E horas depois, tendo sugado alguns copos de vinho na mesa do Zé Cláudio, o falso idólatra se desmascarou. Levou-me para a beira do rio, sentamo-nos na areia e, “inimigo íntimo”, desandou a estraçalhar o seu fetiche, pondo pelo avesso os adjetivos de há pouco.

Que esse sr. Paixão Cearense (nada de confundi-lo com o Catulo de Verona, o elegíaco de Lésbia!) era um jogral tilintando modinhas como outros tilintavam guizos.

Metera-se em moço com a criadinha branca da casa do conselheiro Silveira Martins, e daí lhe advieram tais complicações que nunca mais quis saber senão de pretas, sendo tão negreiro quanto aquele ator português Guilherme de Aguiar que objetava às atrizes brancas que o tentassem: “Pinte-se primeiro de piche e reapareça!”

O seu cânon de artista concentrava-se todo na Vênus Hotentote. E era incrível como, pensando em modelos desses, pudesse ele comparar um pé feminino a um “missal aromal”.

Ninguém mais vaidoso. Seu fraque burocrático parecia abrir-se em cauda de pavão quando indagava do primeiro transeunte: “Já ouviu falar em Catulo da Paixão Cearense?”

Indo exibir-se em casa do delegado Cunha de Vasconcelos, o temível Surucucu, queria retirar-se, com o respectivo violão, porque não o escutavam em religioso silêncio, o que obrigou o delegado a repô-lo na cadeira, ameaçando-o de quebrar-lhe o violão nas costas se ele não voltasse a cantar.

Grosseiríssimo, deixou o salão de um seu amigo de subúrbio, um pobre condutor de trem, declarando que preferia ir dizer versos para os sapos do brejo próximo, a dizê-los para os debiloides da família do condutor.

A um entusiasta, que o recitava com a unção de quem rezasse num templo, interrompeu, berrando que aquilo era mutilar-lhe as estrofes, que o outro ignorava as leis da califasia (empregou mesmo este vocábulo pedante).

Quando compôs o “Talento e formosura”, versalhada das mais ineptas, foi apenas para sugerir que o seu talento valia mais que a formosura de todas as mulheres.

Julgava-se superior a Castro Alves e indagava arrogante: “Que tem ele senão o Navio Negreiro e as Vozes d’África?” Ao que seria fácil responder-lhe: “Sim, é um pobretão aquele que possui os dois mais belos diamantes da poesia do Brasil…”

Sempre respeitoso diante dos títulos, sentia-se a curvatura interior com que ele carregava no “general” ao referir-se a Pinheiro Machado, ou no “ministro” ao aludir a Lúcio de Mendonça.

Aliás, em casa deste, discursou uma noite e saiu assegurando que deslumbrara o auditório. Alberto de Oliveira pediu pormenores a Lúcio sobre a alocução e Lúcio a definiu: “Uma torrente de asneiras”.

Contam que, ouvindo Catulo tratá-lo de colega, Alberto, formado que era em farmácia, observou: “Mas como? Não te sabia farmacêutico…”

A anedota lembra várias outras, européias. Mas o certo é que Medeiros e Albuquerque, comentando alguns livros de versos na “Notícia”, aplicou valente sova em Catulo e, antes de passar ao segundo criticado, marcou assim a transição: “Falemos agora de um verdadeiro poeta…”

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