Lembranças da minha cidade natal (10)

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Por Agripino Grieco

Em toda parte existe um “souffre-douleur”, um cidadão que se torna o centro de convergência das mil burrices locais. Se o padre, o tenente ou o tabelião diz um disparate, esse disparate é logo transferido ao tal sujeito. Paga ele pela população inteira.

Em Paraíba, ao findar o século XIX, havia uma criatura assim. E não era um tipo da ralé. Era o juiz de direito. Pois a gente do foro e a gente da rua o transmudaram em verdadeiro floricultor de sandices.

Mais tarde, correndo os volumes do memorialista Almeida Nogueira sobre a Academia de São Paulo, calculei que esse magistrado, “de cuyo nombre no quiero acordarme”, não devia ser tão besta quanto pretendiam os paraibanos malignos.

Bom aluno “sob as arcadas”, colocara-se ele entre os “estudantões” do tempo. Mestres e condiscípulos reconheciam-lhe a inteligência culta. E, formado, fora deputado provincial.

Mas por que diabo deu o homem aos meus conterrâneos uma forte sensação de ininteligência e incultura? É que, a avaliar pelos que o descreviam com mais benignidade, falava ele pausadamente, como quem leciona, e timbrava em gastar bons ternos de roupa num modesto ambiente de roça, formalizando-se ao ouvir qualquer historieta salgada e gabando-se da sua amizade com o visconde de Niterói e das referências elogiosas que lhe fizera “o imortal visconde do Rio Branco”.

Insistia nas suas lutas pela Abolição diante dos últimos escravocratas da zona. E diante de incréus aludia sempre ao naufrágio de vapor em que escapara de morrer, salvando-se, enquanto colegas seus pereciam, por se ter agarrado a um “caixão que levava imagens sagradas”.

Ora, tudo isso: a dicção vagarosa, a elegância, a sisudez, a ostentação de boas amizades, o fervor abolicionista e a beatice do quinquagenário, tudo isso irritava os filhos do meu recanto. E o magistrado, ex-estudante perfeito, ex-legislador, convertia-se num asneirário perpétuo.

Fez-se ele uma espécie de abcesso de fixação em que todas as bobices paraibanas iam supurar.

Os dislates com que o enriqueceram…

Diante de um palacete indagava: “Quem foi o escultor que levantou este edifício?” Devendo pedir alfazema, para fumigações, pedia maisena. Dava o Licor de Taiuiá, fabricado ali em São João da Barra, como remédio estrangeiro.

Disse de Quebec ser capital de Mato Grosso e, vendo que um dos ouvintes parecia em dúvida, esclareceu: “Antiga capital…”

Cheguei a ler uns versos satíricos que o Felizardo escrevera contra o juiz.

Este Felizardo procedia de Minas, onde organizara a lista dos maridos infelizes do seu vilarejo e escapara de formidável surra só por se haver incluído ele próprio, e em primeiro lugar, na lista fatídica, encabeçando-a à maneira de porta-estandarte.

Mas o pitoresco é que, integrado em região fluminense, caiu o mineiro no que classificavam aí de conto das pedras amarelas.

Um conde de Ia Hure andara, lá por 1860, fazendo observações sobre dioritos e anfibolitos no vale do Paraíba, a exaltar-lhe a opulência mineral, o que levou um jornalista amalucado a visionar no município novas Golcondas, assegurando espojar-se o nosso rio num leito de topázios.

Quem foi aquele conde? O Larousse que tenho aqui à mão em nada me esclarece. Fala apenas de dois Lahure (assim ligados e sem partícula), sendo um deles barão e general e o outro impressor e editor. Quanto ao possível mineralogista, não me diz coisa alguma.

Mas seria ele sábio a rigor, para uso do Colégio de França, ou apenas sábio para uso da América do Sul? Ignoro-o. O que aprendi é que suas indagações entre montanhas da minha província levaram muitas pessoas a tentar a caça às preciosidades.

Dezenas de cidadãos, arregaçando as calças e de peneira em punho, interromperam tarefas mais proveitosas e se meteram pelas águas, a pescar topázios quiméricos, só apanhando seixos vulgaríssimos e não raro bronquites das mais renitentes.

Pois, várias décadas após a passagem do conde, Felizardo, um dos sobreviventes dessa garimpagem infrutuosa, persistia em aludir aos tais dioritos e anfibolitos, coisas que, de resto, ele não sabia direito o que fossem e eu sei agora por haver consultado um dicionário que, superior ao Larousse, me esclarece a respeito.

Nunca o Felizardo satirizou o Mário Cabral. Mas este quem foi? Balzac contou as proezas de treze homens que viviam em perfeita consonância de sentimentos, enérgicos, incapazes de traição recíproca, aptos a manterem secreto o que realizassem, agindo por vezes fora e acima das leis, insuscetíveis de medo, generosos diante dos fracos e rancorosos à hora de justiçar almas iníquas.

Paraíba do Sul não é Paris e eu não chego a valer a décima milionésima parte do narrador prodigioso, mas desejo assinalar que ali existiram sete rapazes afeitos a por a cidade em constante barafunda. Constituíam o chamado Grupo Sete.

Meu pai, não tendo guardado bem o nome de todos eles, recordava que o chefe do bando era exatamente o Mário, filho do advogado Vicente Cabral, a que Almeida Nogueira também se reporta. Vicente, paulista e, ainda mais, paulistano, formara-se, em 1874, na academia instalada no antigo convento de São Francisco, pertencendo à mesma turma de Peçanha Póvoa, que, atacando os senhores dados a explorar a prostituição das escravas, mereceu louvores de Machado de Assis; de Manuel Martins Torres, que viria a ser pai do sociólogo Alberto Torres, e do boêmio Sizenando Nabuco, sincero entusiasta de teatro, especialmente quando estivessem em cena atrizes portuguesas.

Era Vicente austero, ainda que bonacheirão. Fora advogar na Paraíba, onde lhe vi o retrato a óleo em casa da sua viúva na rua das Palhas, podendo observar quanto o filho, magro, bastante moreno, cabelos um tanto duros e barba pobre, se lhe assemelhava. Isto no físico. Porque, no temperamento, ao menos em certa época, a diferença ressaltava, das gritantes.

Mário Cabral, na juventude, mostrara-se turbulento pra valer e estava naturalmente indicado a capitanear o tal Grupo Sete, arrastando após si seis malandrins que bebiam sem pagar nas tascas, abusavam das frutas de quintais burgueses, recusavam descobrir-se à passagem das procissões ou quando a banda do Guerra da Costa executava o Hino Nacional, e entretanto, quando o conheci, pareceu-me educadíssimo, falando-me com ternura da Itália, onde estivera em companhia da amante italiana, uma antiga corista do Teatro Lírico.

Mas não lhe faltavam, quando entre cidadãos maduros, anedotas fortemente condimentadas, em que ele passava, sem esforço, do mel à malagueta.

De Veneza trouxera a receita de uns gelados gostosíssimos e não esqueço que mais de uma vez, no seu chalezinho entronizado em outeiro lá para a Cruz das Almas, me deliciou com sorvetes que eram espumas de doçura a se desfazerem ao mínimo toque da língua.

Uma tarde, depois do sorvete, pedi-lhe pormenores sobre o grupo de que fora capitão, recebendo esta resposta: “Não mexa nisto. Um dos sete é hoje pastor protestante e outro engorda porcos em Minas, levando tundas diárias da esposa…”

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