Histórias do saudoso Jamelão

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Réveillon de 2002, no Rio de Janeiro. A cena arrancou gargalhadas da multidão que superlotava as areias do Piscinão, a praia artificial construída pelo governo fluminense entre as margens da Baía da Guanabara e a Favela de Ramos, uma das mais miseráveis da cidade.

No palco montado para o show da passagem de ano, estava o cantor Jamelão. De repente, veio o coro:

– Lindo e gostosão, bonito é o Jamelão! Lindo e gostosão, bonito é o Jamelão!

Em vez de ficar agradecido, o homenageado crispou o semblante, pegou o microfone e ordenou, ranzinza, com seu vozeirão:

– Menos, gente! Menos! Eu disse menos!

O insólito passa-fora ilustra o jeitão de um artista que, ao contrário dos demais, abominava elogios verbais.

– Não tinha nada a ver aquilo ali – justificava-se, algumas semanas depois, em entrevista que só aceitou conceder à revista Época depois de muita insistência. – Tudo bem, eu falo, mas sem essa de homenagem. Homenagem é dinheiro no bolso, e isso, infelizmente, eu não tenho.

Jamelão podia até resmungar, mas a temporada de homenagens estava aberta. Maior intérprete de sambas-enredo em atividade – ou, mais ainda, “o intérprete do século”, como foi apresentado no material de propaganda da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio –, Jamelão completou 90 anos no dia 12 de maio de 2003.

A primeira grande homenagem que recebeu, ainda em 2002, tinha o pedigree de sua querida Estação Primeira de Mangueira, que ele defende na avenida desde 1949. Em janeiro daquele ano, a diretoria da escola reuniu seu Conselho Superior, composto de 23 mangueirenses veteranos – entre os quais dona Zica, viúva de Cartola –, e apresentou a proposta: eleger Jamelão presidente de honra. Nem foi preciso votação. Seu nome foi aclamado.

O posto estava vago desde a morte do compositor Carlos Cachaça, em 1999. Fundador da Mangueira e parceiro de Cartola em sambas memoráveis, como “Não Quero Mais” ou “Quem Me Vê Sorrindo”, Carlos Cachaça ainda hoje é uma lenda da escola e do samba carioca. Ocupar seu lugar, portanto, seria uma honra para qualquer mangueirense. Menos um – Jamelão.

– Isso não me diz nada, porque não paga meu aluguel – resmungou ele. – É só conversa, e quem vive de conversa é advogado.

As desfeitas e os impropérios do cantor já viraram folclore. Ninguém se ofende mais com eles.

– Jamelão tem fama de mal-humorado, mas é um coração enorme – relevou o presidente da escola, Álvaro Luiz Caetano. – Ele doa a vida à Mangueira. Não recebe um tostão pelo que faz. Está sempre disposto a ajudar sem pedir nada em troca.

Num tempo em que puxadores de samba-enredo trocam de escola como jogadores de clubes de futebol trocam de clube, Jamelão era uma bonita exceção. Nunca vestiu as cores de outra agremiação. Além dele, só Neguinho da Beija-Flor, há quase 40 anos na mesma escola que lhe empresta o nome, pode exibir esse orgulho. Só que, para variar, Jamelão não vê nenhum mérito nisso:

– E daí? O que tem de mais? – questionava, sacudindo os ombros.

O desdém, que muitos no mundo do samba consideravam só charme, era embalado na mesma franqueza que ele usava para enumerar seus cantores favoritos:

– Não gosto de julgar ninguém, mas Neguinho e Emílio Santiago são meus preferidos.

O elogio era mútuo.

– Jamelão é o melhor cantor do mundo. Comecei com 10 anos de idade, imitando seu estilo. Acho a maior covardia o que o Brasil faz com ele, que não tem o repertório executado pelas rádios. Se fosse americano, seria mais reconhecido que um Louis Armstrong, um Nat King Cole – derramava-se o puxador da Beija-Flor de Nilópolis.

Puxador, não. Intérprete, como preferia Jamelão:

– Puxador é quem fuma maconha ou rouba carro, meu filho. Somos cantores – corrigia, aborrecido.

O pesquisador de música popular Sérgio Cabral achava que ele era até mais que um simples cantor:

– Baden Powell dizia que, se Jamelão tivesse estudado música, teria se tornado o maior tenor que o mundo conheceu – recordou Cabral, citando o violonista e compositor que morreu em 2000.

Cabral coleciona histórias impagáveis de Jamelão. Uma delas tem como coadjuvantes ele próprio e os compositores Nei Lopes e Djavan. Era fim dos anos 70. Os quatro faziam parte de um grupo que viajava em ônibus fretado de Canelas, no interior gaúcho, para Porto Alegre. Voltavam de um encontro sobre música popular. Na poltrona ao lado da de Djavan, então em início de carreira, estava Cabral. O jornalista ficou tão feliz com a companhia que, na chegada, contou ao amigo Nei Lopes:

– Nei, dei sorte. Esse Djavan é um grande papo.

Nei respondeu:

– Pois é… Não dei a mesma sorte. Viajei ao lado de Jamelão e, assim que o ônibus arrancou, comentei: ‘Jamelão, sabia que estou morando perto de sua casa?’ E ele: ‘Sei’. E nada mais disse de lá até aqui.

Perto de uma gafe que Jamelão teria cometido com Cauby Peixoto, na década de 80, o episódio com Nei Lopes é só aperitivo. Os dois dividiam o estúdio na gravação de um disco de coletâneas. Um músico que participava da produção conta que, enquanto aguardava a vez de cantar, Jamelão cochilou no sofá da ante-sala do estúdio. Cauby terminou sua parte e, ao sair, acordou o mangueirense com uma brincadeira:

– Dorminhoco, hein, professor?

Jamelão arregalou os olhos e, sem piscar, teria respondido:

– Posso até ser dorminhoco, mas pelo menos sou homem e mijo em pé…

O jeito às vezes desabrido não embaçava seu talento. Jamelão tinha muitas virtudes, uma delas a de ter imortalizado os mais refinados sambas-canções de Lupicínio Rodrigues – entre eles, “Esses Moços” e “Nunca”. Lupicínio, aliás, o considerava seu melhor intérprete. Mas o sambista não escondia a mágoa de ser ignorado pelas rádios:

– Só tocam Roberto Carlos. É de manhã, de tarde e de noite. Nada contra o Roberto, mas assim enjoa – queixava-se, com a sinceridade de quem sabia que, se o samba tinha um rei, seu nome era Jamelão.

O cantor, compositor e intérprete José Clementino Bispo dos Santos, o Jamelão, morreu por volta das 4 horas da madrugada de um sábado, no dia 14 de junho de 2008, aos 95 anos.

Segundo a assessoria de imprensa da Estação Primeira da Mangueira, o intérprete faleceu na Casa de Saúde Pinheiro Machado, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, onde estava internado. Deixou esposa, filha e dois netos. Foi velado na quadra da escola.

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