Histórias de nuestra América

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Por Eduardo Galeano

A ROTA DO SOL ATÉ AS ÍNDIAS (1492 – O mar oceano) – Estão os ares doces e suaves, como na primavera de Sevilha, e parece o mar um rio Guadalquivir, mas nem bem sobre a maré e se mareiam e vomitam, apinhados nos castelos de proa, os homens que sulcam, em três barquinhos remendados, o mar incógnito. Mar sem moldura. Homens, gotinhas ao vento. E se o mar não os amasse? Cai a noite sobre as caravelas. Onde os arrojará o vento? Salta a bordo um dourado, que vinha perseguindo um peixe-voador, e se multiplica o pânico. Não sente a marujada o saboroso aroma do mar um pouco picado, nem escuta a algazarra das gaivotas e dos alcatrazes que vêm do poente. No horizonte, começa o abismo? No horizonte, acaba o mar?

Olhos febris de marinheiros curtidos em mil viagens, ardentes olhos de presos arrancados dos cárceres da Andaluzia e embarcados à força: não veem os olhos esses reflexos anunciadores de ouro e prata na espuma das ondas, nem os pássaros de campo e rio que voam sem cessar sobre as naus, nem os juncos verdes e as ramagens forradas de caracóis que derivam atravessando o mangue. No fundo do abismo, arde o inferno? A que feras arrojarão os ventos alísios esses homenzinhos? Eles olham as estrelas, buscando Deus, mas o céu é tão inescrutável como este mar jamais navegado. Escutam que ruge o mar, la mare, mãe-mar, rouca voz que responde ao vento frases de condenação eterna, tambores do mistério soando lá das profundidades: se persignam e querem rezar e balbuciam: “Esta noite caímos do mundo, esta noite caímos do mundo”.

COLOMBO (1492 – Guanahaní) – Cai de joelhos, chora, beija o solo. Avança, tremendo, porque leva mais de um mês dormindo pouco ou nada, e a golpes de espada derruba uns arbustos.

Depois, ergue o estandarte. De joelhos, os olhos no chão, pronuncia três vezes os nomes de Isabel e Fernando. Ao seu lado, o escrivão Rodrigo de Escobedo, homem de letra lenta, levanta a ata.

Tudo pertence, desde hoje, a esses reis distantes: o mar de corais, as areias, os rochedos verdíssimos de musgo, os bosques, os papagaios e esses homens de barro que não conhecem ainda a roupa, a culpa nem o dinheiro e que contemplam, atordoados, a cena.

Luis de Torres traduz para hebraico as perguntas de Cristovão Colombo:

– Conheceis o Reino de Gran Kahn? De onde vem o ouro que levais pendurados nos narizes e orelhas?

Os homens nus olham para ele, boquiabertos, e o intérprete resolve tentar com o idioma caldeu, que conhece um pouco:

– Ouro? Templos? Palácios? Rei dos reis? Ouro?

E depois tenta em árabe, o pouco que sabe:

– Japão? China? Ouro?

O intérprete se desculpa frente a Colombo na língua de Castilha. Colombo amaldiçoa em genovês, e joga no chão as cartas-credenciais escritas em latim e dirigidas ao Gran Kahn. Os homens nus assistem à cólera do forasteiro de cabelo vermelho e pele crua, que veste capa de veludo e roupas de muita aparência.

Em seguida, correrá a voz pelas ilhas:

– Venham ver os homens que chegaram do céu! Tragam-lhes para comer e beber!

DIAS DE GLÓRIA (1493 – Barcelona) – Anunciam as trombetas dos heraldos. Soam os sinos e os tambores rufam alegrias.

O Almirante, recém-retornado das Índias, sobe a escadaria de pedra e avança sobre o tapete carmesim, entre os brilhos de seda da Corte que o aplaude. O homem que realizou as profecias dos santos e dos sábios chega ao estrado, se ajoelha e beija as mãos da rainha e do rei.

Lá de trás, irrompem os troféus. Cintilam sobre as bandejas as peças de ouro que Colombo trocou por espelhinhos e bonés vermelhos nos remotos jardins que brotaram do mar.

Sobre ramagens e folhagens, desfilam as peles de lagartos e serpentes, e atrás entram, tremendo, chorando, seres jamais vistos. São os poucos que ainda sobrevivem ao resfriado, ao sarampo e ao asco pela comida e pelo mau cheiro dos cristãos. Não chegam nus, como estavam quando se aproximaram das três caravelas e foram presos. Acabam de ser cobertos por calças, camisas e uns quantos papagaios que puseram em suas mãos e sobre suas cabeças e ombros. Os papagaios, depenados pelos maus ventos da viagem, parecem tão moribundos como os homens. Das mulheres e crianças capturadas, não sobrou nenhuma.

Escutam-se murmúrios no salão. O ouro é pouco e em nenhum lado se vê pimenta-negra, ou noz-moscada, ou cravo, ou gengibre; e Colombo não trouxe sereias barbudas ou homens com rabo, desses que têm um olho só e um único pé, tão grande o pé que erguendo-o se protegem dos sóis violentos.

 

NOTA DA REDAÇÃO: O livro Os Nascimentos, dos quais esses textos foram pinçados, inicia a trilogia Memória de Fogo, um inventário apaixonante da saga americana feito pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano. Através de três volumes, o autor se propõe a narrar a história da América e, sobretudo, a história da América Latina, em um vasto mosaico que chega até nossos dias.

No início de cada texto indica-se o ano e o lugar em que ocorreu o episódio que se narra.

Para que a história respire e o leitor a sinta viva, o autor recriou, à sua maneira, os dados disponíveis de cada episódio, mas todos eles foram elaborados sobre uma base rigorosa de documentos oficiais.

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