Histórias de nuestra América (8)

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Por Eduardo Galeano

CARLOS V (Frankfurt – 1519) – Faz meio século que morreu Gutenberg e as tipografias se multiplicaram em toda a Europa: editam a Bíblia em letras góticas e em números góticos as cotizações do ouro e da prata. O monarca devora homens e os homens cagam moedas de ouro no jardim das Delícias de Hieronymus Bosch. E Michelangelo, enquanto pinta e esculpe seus atléticos santos e profetas, escreve: O sangue de Cristo é vendido em colheradas. Tudo tem preço: o trono do papa e a coroa dos reis, o capelo dos cardeais e a mitra dos bispos. Compram-se indulgências, excomunhões e títulos de nobreza. A Igreja considera pecado emprestar a juros, mas o santo Padre hipoteca aos banqueiros as terras do Vaticano, e nas margens do Reno se oferece ao melhor pagador a coroa do santo Império.

Três candidatos disputam a herança de Carlos Magno. Os príncipes eleitores juram pela pureza de seus votos e a limpeza de suas mãos e se pronunciam ao meio-dia, hora do Angelus: vendem a coroa da Europa ao rei da Espanha, Carlos I, filho do sedutor e da louca, e neto dos Reis Católicos, a troco de oitocentos e cinquenta mil florins que põem sobre a mesa dos banqueiros alemães Fugger e Wesler.

Carlos I se transforma em Carlos V, imperador da Espanha, Alemanha, Áustria, Nápoles, Sicília, os Países baixos e o imenso Novo Mundo, defensor da fé católica e vigário guerreiro de Deus na terra.

Enquanto isso, os muçulmanos ameaçam as fronteiras e Martinho Lutero prega a marteladas, na porta de uma igreja de Wittemberg, suas desafiantes heresias. Um príncipe deve ter a guerra como único objetivo e pensamento, escreve Maquiavel. Aos dezenove anos, o novo monarca é o homem mais poderoso da história. De joelhos, beija a espada.

PEDRÁRIAS (Acla – 1519) – Ruído de mar e de tambores. Caiu a noite, mas há uma lua que ilumina tudo. Ao redor da praça, pendem espigas e peixes secos dos tetos de palha.

Chega Balboa, acorrentado, atadas as mãos nas costas. O desamarram. Balboa fuma o último charuto. Sem dizer palavra, coloca o pescoço no tronco. O verdugo ergue o machado.

De sua casa, Pedro Árias de Ávila olha, furtivo, através das taquaras da parede. Está sentado no ataúde que trouxe da Espanha. Usa o ataúde como poltrona ou mesa e uma vez por ano o cobre de velas, durante o réquiem que ano a ano celebra sua ressurreição.

Chamaram-no de Pedrárias, o Enterrado, desde que se ergueu deste ataúde, envolto em um sudário, enquanto as monjas cantavam o ofício de defuntos e choravam sem parar as suas parentas.

Antes tinha sido chamado de Pedrárias, o Galã, por ser invencível nos torneios, nas batalhas e nos amores, e agora, embora já perto dos oitenta anos, merece o nome de Furor Domine. Quando Pedrárias acorda sacudindo a melena branca, porque na noite anterior perdeu cem índios nos dados, mais vale fugir do seu olhar.

Desde que pisou estas praias, Pedrárias desconfiou de Balboa. Por ser Balboa seu genro, não o mata sem julgamento prévio. Por aqui não sobram os letrados, de maneira que o juiz serviu também de advogado e promotor. Foi longo o processo.

A cabeça de Balboa rola na areia.

Foi Balboa quem fundou este povoado de Acla, entre as árvores torcidas pelos ventos, e no dia em que Acla nasceu, um pássaro negro lançou-se em rasante, lá de além das nuvens, e arrancou o capacete de aço de Balboa e afastou-se grasnindo.

Aqui estava construindo Balboa, peça por peça, os bergantins que o levariam a explorar o novo mar que tinha descoberto.

O verdugo o fará. Fundará uma empresa de conquistas e Pedrárias será seu sócio. O verdugo, que veio com Colombo na última viagem, será marquês com vinte mil vassalos nos misteriosos reinos do sul. Se chama Francisco Pizarro.

CORTÊS (Cempoala – 1519) – Crepúsculo das altas chamas na costa de Veracruz. Onde naus estão ardendo e ardem os soldados rebeldes pendurados das traves de madeira da nau capitã. Enquanto abre sua bocarra o mar devorando as fogueiras, Hernán Cortês, de pé sobre a areia, aperta o pomo de sal espada e descobre a cabeça.

Não só as naves e os enforcados foram a pique. Já não haverá regresso, nem mais vida do que a que nascida a partir de agora traga consigo o ouro e a glória ou o abutre da derrota. Na praia de Veracruz afundaram os sonhos dos que bem gostariam de voltar à Cuba para dormir a sesta colonial em redes tecidas, envolvidos em cabeleiras de mulheres e fumaça de charuto. O mar conduz ao passado e a terra ao perigo. Em lombo de cavalo irão os que puderem pagá-lo. Os demais irão a pé: setecentos homens México adentro, até as serras e os vulcões e os mistérios de Montezuma.

Cortês ajusta seu chapéu de plumas e dá as costas às chamas. De um galope chega ao casario indígena de Cempoala, enquanto cai a noite. Não diz nada à tropa. Logo ficarão sabendo.

Bebe vinho, sozinho em sua tenda. Talvez pense nos homens que matou sem confissão ou nas mulheres que penetrou sem boda, desde seus dias de estudante em Salamanca, que tão remotos parecem ou em seus perdidos anos de burocrata nas Antilhas, durante o tempo de espera.

Talvez pense no governador Diego Velázquez, que estará tremendo de fúria em Santiago de Cuba. Com certeza sorri, ao pensar nesse dorminhoco boboca, cujas ordens nunca mais obedecerá, ou na surpresa que espera os soldados que está escutando amaldiçoar nas rodas de dados e baralho do acampamento.

Algo disso anda em sua cabeça, ou talvez a fascinação e o pânico dos dias que estão por vir. E então ergue o olhar, a vê na porta e à contraluz e a reconhece. Se chamava Malinali ou Malinche quando o cacique de Tabasco deu-a de presente a ele. Faz uma semana que se chama Marina.

Cortês lhe diz umas quantas palavras enquanto ela, imóvel, espera. Depois, sem um gesto, a moça desata os cabelos e a roupa. Um redemoinho de tecidos coloridos cai entre seus pés despidos e ele cala quando o corpo dela aprece e resplandece.

A poucos passos dali, o soldado Bernal Diaz del Castillo escreve, à luz da lua, a crônica da jornada. Usa como mesa um tambor.

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