Histórias de nuestra América (7)

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Por Eduardo Galeano

O REQUERIMENTO (Rio Sinú – 1514) – Navegaram muito mar e tempo e estão fartos de calores, selvas e mosquitos. Cumprem, mesmo assim, as instruções do rei: não se pode atacar os índios sem requerer, antes, sua submissão. Santo Agostinho autoriza a guerra contra os que abusam de sua liberdade, porque em sua liberdade perigariam não sendo domados, mas bem diz São Isidoro que nenhuma guerra é justa sem prévia declaração.

Antes de lançar-se sobre o ouro, os grãos de ouro talvez grandes como ovos, o advogado Martin Fernández de Enciso lê com pontos e vírgulas o ultimato que o intérprete, aos tropeços, demorando-se na entrega, vai traduzindo.

Enciso fala em nome do rei don Fernando e da rainha dona Juana, sua filha, domadores das gentes bárbaras. Faz saber aos índios do Sinú que Deus veio ao mundo e deixou em seu lugar São Pedro, que São Pedro tem por sucessor o Santo Padre e que o Santo Padre, Senhor do Universo, fez mercê ao rei de Castilha de toda a terra das Índias e desta península.

Os soldados se assam nas armaduras. Enciso, letra miúda e sílaba lenta, requer dos índios que deixem estas terras, pois não lhes pertencem, e adverte que se quiserem ficar para viver aqui, que paguem a Suas Altezas tributo de ouro em sinal de obediência. O intérprete faz o que pode.

Os dois caciques escutam em silêncio, sem pestanejar, o estranho personagem que lhes anuncia que em caso de negativa ou demora lhes fará a guerra, e que os converterá em escravos e também suas mulheres e seus filhos e como tais os venderá e disporá deles, e que as mortes e danos desta guerra justa não serão culpa dos espanhóis.

Respondem os caciques, sem olhar para Enciso, que muito generoso com o alheio foi o Santo Padre, que bêbado devia estar quando dispôs do que não era seu, e que o rei de Castilha é um atrevido, porque vem ameaçar a quem não conhece.

Então, corre o sangue.

De agora em diante, o longo discurso será lido em plena noite, sem intérprete e a meia légua das aldeias que serão arrasadas de surpresa. Os indígenas, adormecidos, não escutarão as palavras que os declaram culpados pelos crimes cometidos contra eles.

POR AMOR ÀS FRUTAS – Gonzalo Fernández de Oviedo, recém-chegado, prova as frutas do Novo Mundo.

A goiaba lhe parece muito superior á maçã.

A fruta-de-conde é formosa e oferece uma polpa branca, aguada, de muito temperado sabor, que por muito que se coma não causa dano nem empanturra.

O mamey, fruta alongada da família do sapoti, tem um sabor de lamber os lábios e cheira muito bem. Não existe nada melhor, opina.

Mas morde uma nêspera e lhe invade a cabeça um aroma que nem o almíscar iguala. A nêspera é a melhor fruta, corrige, e não se acha coisa que se lhe possa comparar.

Descasca, então, um abacaxi. O dourado abacaxi cheira como gostariam de cheirar os pêssegos e é capaz de abrir o apetite de quem já nem lembra a vontade de comer. Oviedo não conhece palavras que mereçam dizer suas virtudes. Se alegram seus olhos, seu nariz, seus dedos, sua língua. Esta supera todas, sentencia, como as plumas do pavão real resplandecem sobre as de qualquer ave.

UTOPIA (Amberes – 1515) – As aventuras do Novo Mundo fazem ferver as tabernas deste porto flamengo. Uma noite de verão, frente ao cais, Thomas Morus conhece ou inventa Rafael Hithloday, marinheiro das naves de Américo Vespúcio, que diz que descobriu a ilha da Utopia em alguma costa da América.

Conta o navegante que em Utopia não existe o dinheiro nem a propriedade privada. Ali se fomenta o desprezo pelo ouro e pelo consumo supérfluo e ninguém se veste com ostentação. Cada um entrega aos armazéns públicos o fruto do seu trabalho e livremente apanha o que necessita. Se planeja a economia. Não existe egoísmo, que é filho do temor, nem se conhece a fome. O povo escolhe o príncipe e pelo povo ele pode ser deposto. Também elegem os sacerdotes.

Os habitantes de Utopia abominam as guerras e suas honras, embora defendam ferozmente suas fronteiras. Professam uma religião que não ofende a razão e que rejeita as mortificações inúteis e as conversões forçadas. As leis permitem o divórcio mas castigam severamente as traições conjugais, e obrigam a trabalhar seis horas por dia. Divide-se o trabalho e o descanso, divide-se a mesa. A comunidade se encarrega das crianças enquanto seus pais estão ocupados. Os doentes recebem tratamento privilegiado, a eutanásia evita as longas agonias doloridas. Os jardins e as hortas ocupam o maior espaço e em todas as partes soa a música.

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