Histórias de nuestra América (6)

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HATUEY (Yara – 1511) – Nestas ilhas, nestes humilhadeiros, são muitos os que escolhem sua morte, enforcando-se ou bebendo veneno junto aos seus filhos. Os invasores não podem evitar essa vingança, mas sabem explica-la: os índios, tão selvagens que pensam que tudo é comum, dirá Oviedo, são gente de natural ociosa e viciosa, e de pouco trabalho… Muito deles por ser passatempo, se mataram com peçonha para não trabalhar, e outros se enforcaram com suas próprias mãos.

Hatuey, chefe índio da região da Guahaba, não se suicidou. Em canoa fugiu do Haiti, junto aos seus, e se refugiou nas covas e montes do oriente de Cuba.

Ali apontou uma cesta cheia de ouro e disse:

– Este é o deus dos cristãos. Por causa dele nos perseguem. Por ele morreram nossos pais e nossos irmãos. Bailemos para ele. Se nossa dança o agradar, este deus mandará que não nos maltratem.

É agarrado três meses depois.

É amarrado em um pau.

Antes de acender o fogo que o reduzirá a carvão e cinza, um sacerdote promete-lhe glória e eterno descanso se aceitar batizar-se. Hatuey pergunta:

– Nesse céu estão os cristãos?

– Sim.

Hatuey escolhe o inferno e a lenha começa a crepitar.

O PRIMEIRO PROTESTO (São Domingos – 1511) – Na igreja de tronco e teto de palmeira, Antonio de Montesinos, frei dominicano, está jorrando trovões pela boca. Do púlpito, denuncia o extermínio:

Com que direito e com que justiça tens os índios em tão cruel e horrível servidão? Acaso não morrem, ou para dizer melhor, os matam, para tirar ouro cada dia? Não estais obrigados a amá-los como a vós mesmos? Isto não entendeis, isto não sentis?

Depois Montesinos abre caminho, a cabeça alta, entre a multidão atônita.

Cresce um murmúrio de fúria.

Não esperavam isso os lavradores da Extremadura e os pastores da Andaluzia que mentiram seus nomes e suas histórias e com um arcabuz enferrujado a tiracolo partiram, à sorte, em busca das montanhas de ouro e das princesas nuas deste lado do mar. Necessitavam uma missa de perdão e consolo os aventureiros comprados com promessas nas escadarias da catedral de Sevilha, os capitães comidos pelas pulgas, veteranos de nenhuma batalha, e os condenados que tiveram de escolher entre a América e o cárcere ou a forca.

Será denunciado ante o rei Fernando! Será expulso!

Um homem, atordoado, cala. Chegou a estas terras há nove anos. Dono de índios, de veios de ouro e de sementeiras, fez boa fortuna. Se chama Bartolomeu de las Casas e em breve será o primeiro sacerdote ordenado no Novo Mundo.

LEONCICO (Cuareca – 1513) – Lutam os músculos para romper a pele. Jamais se apagam os olhos amarelos. Bufam. Mordem o ar. Não há corrente que os aguente quando recebem a ordem de ataque.

Esta noite, por ordem do capitão Balboa, os cães cravarão seus dentes na carne nua de cinquenta índios do Panamá. Destriparão e devorarão cinquenta rebeldes do nefando pecado da sodomia, que para ser mulheres só lhes faltam tetas e parir. O espetáculo terá lugar nesta clareira do monte, entre as árvores que o vendaval de dias atrás arrancou pela raiz. Os soldados disputam os melhores lugares à luz das tochas.

Vasco Nunez de Balboa preside a cerimônia. Seu cão, Leoncico, encabeça os vingadores de Deus. Leoncico, filho de Bacerrillo, tem o corpo cruzado de cicatrizes. É mestre em capturas e esquartejamento. Recebe soldo de alferes e ganha sua parte de ouro e escravos em cada presa de guerra, ouro e escravos.

Faltam dois dias para que Balboa descubra o oceano Pacífico.

BALBOA (Golfo de San Miguel – 1513) – Com a água pela cintura, ergue a espada e grita aos quatro ventos. Atrás, seus homens cravam uma imensa cruz na areia. O escrivão Valderrábano estampa em uma ata os nomes dos que acabam de descobrir o novo mar e o padre Andrés entoa o Te Deam Laudamus.

Balboa se despoja de seus quinze quilos de armadura, lança longe a espada e mergulha.

Brinca na água e se deixa arrastar pelas ondas, bêbado de uma alegria que não sentirá outra vez. O mar se abre para ele e o abraça e o acalanta e Balboa gostaria de bebê-lo até deixa-lo seco.

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