Histórias de nuestra América (5)

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O DEUS UNIVERSAL (Tenochtitlán – 1506) – Montezuma venceu em Teuctepec. Nos adoratórios, ardem fogo. Ressoam os tambores. Um atrás do outro, os prisioneiros sobem as arquibancadas até a pedra redonda do sacrifício. O sacerdote crava-lhes no peito o punhal de pedra, ergue o coração em uma das mãos e mostra-o ao sol que brota dos vulcões azuis.

A que deus oferece o sangue? O sol o exige, para nascer cada dia e viajar de um horizonte ao outro. Mas as ostentosas cerimônias da morte também servem a outro deus, que não aparece nos códices nem nas canções.

Se esse deus não reinasse sobre o mundo, não haveria escravos nem amos, nem vassalos, nem colônias. Os mercadores astecas não poderiam arrancar dos povos submetidos um diamante a troco de um feijão, nem trocar uma esmeralda por um grão de milho, nem ouro por guloseimas, nem cacau por pedras. Os carregadores não atravessariam a imensidão do império em longas filas, levando nas costas toneladas de tributos. O povo ousaria vestir túnicas de algodão e beber chocolate e teria a audácia de mostrar proibidas plumas de queztal e pulseiras de ouro e magnólias e orquídeas reservadas aos nobres. Cairiam, então, as máscaras que ocultam os rostos dos chefes guerreiros, o bico da águia, os dentes do tigre, os penachos de plumas que ondulam e brilham no ar.

Estão manchadas de sangue as escadarias do templo maior e os crânios se acumulam no centro da praça. Não somente para que se mova o sol, não: também para que este deus secreto decida no lugar dos homens. Em homenagem ao mesmo deus, do outro lado do mar os inquisidores fritam os hereges nas fogueiras ou os retorcem nas câmaras de tormento. É o Deus do Medo. O Deus do Medo, que tem dentes de rato e asas de urubu.

AGUEYNABA (Rio Guauravo – 1511) – Há três anos, o capitão Ponce de Leon chegou a esta ilha de Porto Rico em uma caravela. O chefe Agueynaba abriu-lhe sua casa, ofereceu-lhe de comer e de beber, deu-lhe para escolher entre suas filhas e mostrou-lhe os rios de onde tiravam ouro. Outro presente foi seu nome: Juan Ponce de Leon passou-se a chamar-se Agueynaba e Agueynaba recebeu, em troca, o nome do conquistador.

Há três dias, o soldado Salcedo chegou, sozinho, na beira do rio Guauravo. Os índios ofereceram-lhe os ombros pra passa-lo. Ao chegar na metade do rio, deixaram-no cair e o esmagaram contra o fundo até que deixou de agitar as pernas. Depois, estenderam-no na erva.

Salcedo é agora uma bolota de carne avermelhada e crispada. Rapidamente apodrece ao sol, apertado pela armadura e acossado pelos bichos. Os índios olham para ele, tapando o nariz. Dia e noite pediram-lhe perdão, por via das dúvidas. Já não vale a pena. Os tambores transmitem a boa nova: Os invasores não são imortais.

Amanha, estalará a sublevação. Agueynaba a encabeçará. O chefe dos rebeldes tornará a chamar-se como antes. Recuperará seu nome, que foi usado para humilhar a sua gente.

Co-qui, co-qui – chamam as rãs. Os tambores, que convocam para a luta, impedem que se escute seu cantado contraponto de cristais.

BECERRILLO (Aymaco – 1511) – A insurreição dos caciques Agueynaba e Mabodamaca foi esmagada e todos os prisioneiros marcharam para a morte.

O capitão Diego de Salazar descobre uma velha, escondida entre os arbustos, mas não a atravessa com a espada.

– Vamos – diz. – Leva esta carta ao governador, que está em Caparra.

A velha abre os olhos aos poucos. Tremendo, estende os dedos.

E se põe a caminhar. Caminha como menino pequeno, com o balançar de um ursinho, e leva o envelope como estandarte ou bandeira.

Quando a velha está à distância de um tiro de balestra, o capitão solta Becerrillo.

O governador Ponce de Leon ordenou que Becerrillo receba o dobro de salário que um soldado balestrero, por ser descobridor de emboscadas e caçador de índios. Não têm pior inimigo os índios de Porto Rico.

A rajada derruba a velha. Becerrillo, duras as orelhas, arregalados os olhos, a devorará de uma só vez.

– Senhor cachorro – suplica –, eu vou levar esta carta ao senhor governador.

Becerrillo não entende a língua do lugar, mas a velha mostra-lhe o envelope vazio.

– Não me faça mal, senhor cachorro.

Becerrillo cheira o envelope. Dá umas voltas em torno deste saco de ossinhos trêmulos que geme palavras, levanta uma pata e mija.

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