Histórias de nuestra América (4)

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QUEM SÃO ESPANHÓIS? (Granada – 1499) – As mesquitas continuam abertas em Granada, sete anos depois da rendição deste último reduto dos mouros na Espanha. É lento o avanço da cruz depois da vitória da espada. O arcebispo Cisneros decide que Cristo não pode esperar.

Mouros chamam os espanhóis cristãos aos espanhóis de cultura islâmica, que levam aqui oito séculos. Milhares e milhares de espanhóis de origem judia já foram condenados ao desterro. Aos mouros também será dado escolher entre o batismo e o exílio, e para os falsos convertidos ardem as fogueiras da Inquisição. A unidade da Espanha, desta Espanha que descobriu a América, não será o resultado da soma de suas partes.

Por ordem do arcebispo Cisneros, marcham para a prisão os sábios muçulmanos da Granada. Altas chamas devoram os livros islâmicos, religião e poesia, filosofia e ciência, exemplares únicos que guardavam a palavra de uma cultura que regou estas terras e nelas floresceu.

Do alto, os lavrados palácios da Alhambra são testemunhas mudas do avassalamento, enquanto as fontes não param de dar água aos jardins.

LEONARDO (Florença – 1500) – Acaba de voltar do mercado com várias gaiolas nas costas. Coloca-as na varanda, abre as portinhas e fogem os pássaros. Olha os pássaros perdendo-se no céu, bater de asas, alegrias, e depois senta-se para trabalhar.

O sol do meio-dia esquenta sua mão. Sobre o amplo papelão, Leonardo da Vinci desenha o mundo. E no mundo que Leonardo desenha, aparecem as terras que Colombo encontrou nos rumos do acaso. O artista as inventa, como antes tinha inventado o avião, o tanque, o para-quedas e o submarino, e lhes dá forma como antes tinha encarnado o mistério das virgens e a paixão dos santos: imagina o corpo da América, que ainda não se chama assim e a desenha como terra nova e não como parte da Ásia.

Colombo, buscando o Levante, encontrou o Poente. Leonardo adivinha que o mundo cresceu.

A QUINTA VIAGEM (Valladolid – 1506) – Ontem á noite, ditou seu último testamento. Esta manhã perguntou se tinha chegado o mensageiro do rei. Depois, dormiu. Ouviram-no proferir disparates e murmúrios de queixa. Ainda respira, mas respira bronco, como se lutasse contra o ar.

Na Corte, ninguém escutou suas súplicas. Da terceira viagem tinha regressado preso, amarrado com correntes, e na quarta viagem não houvera quem fizesse caso de seus títulos e dignidades.

Cristovão Colombo vai embora sabendo que não há paixão ou glória que não conduza a pena. Não sabe, em compensação, que poucos anos faltam para que o estandarte que ele cravou, pela primeira vez, nas areias do caribe, ondule sobre o império dos astecas, em terras ainda desconhecidas, e sobre o reino dos incas, sob os desconhecidos céus do Cruzeiro do Sul. Não9 sabe que ficou curto em suas mentiras, promessas e delírios. O Almirante Mor do Mar Oceano continua achando que chegou à Ásia pelas costas.

Não se chamará o oceano mar de Colombo. Tampouco levará seu nome o novo mundo, e sim o nome de seu amigo, o florentino Américo Vespúcio, navegante e mestre de pilotos. Mas foi Colombo quem encontrou essa deslumbrante cor que não existia no arco-íris europeu. Ele, cego, morre sem vê-la.

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