Histórias de nuestra América (3)

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Por Eduardo Galeano

CAONABÓ (A Isabela – 1495) – Absorto, ausente, está o prisioneiro sentado na entrada da casa de Cristovão Colombo. Tem grilhões de ferro nos tornozelos e as algemas agarram seus pulsos.

Caonabó foi quem reduziu a cinzas o forte de Navidad, que o Almirante tinha levantado quando descobriu a ilha de Haiti. Incendiou o forte e matou seus ocupantes. E não só eles: nestes dois longos anos, castigou a flechadas todo espanhol que encontrou na sua comarca da serra de Cibao, por andar caçando ouro e gente.

Afonso de Ojeda, veterano das guerras contra os mouros, foi visita-lo em plano de paz. Convidou-o a subir em seu cavalo e colocou-lhe essas algemas de metal polido que lhe atam as mãos, dizendo que essas eram joias que usavam os reis de Castilha em seus bailes e festas.

Agora o cacique Caonabó passa os dias sentado junto à porta, com o olhar fixo na língua de luz que ao amanhecer invade o chão de terra e ao entardecer, pouco a pouco, se retira. Não move uma pestana quando Colombo passa por ali. Em compensação, quando aparece Ojeda, dá um jeito de levantar-se e cumprimenta com uma reverência o único homem que o venceu.

O SACRILÉGIO (A concepção – 1496) – Bartolomeu Colombo, irmão e lugar-tenente de Cristovão, assiste ao incêndio de carne humana.

Seis homens estreiam o queimadouro do Haiti. A fumaça faz tossir. Os seis estão ardendo por castigo e vingança: afundaram na terra as imagens de Cristo e da Virgem que o frei Ramón Pané tinha deixado para sua proteção e consolo. Frei Ramón tinha ensinado a orar de joelhos, a dizer Ave-Maria e Paternoster e a invocar o nome de Jesus ante a tentação, as feridas e a morte.

Ninguém perguntou aos seis por que enterraram as imagens. Eles esperavam que os novos deuses fecundassem os plantios de milho, mandioca, batatas e feijão.

O fogo junta calor ao calor úmido, pegajoso, anunciador de chuva forte.

O PARAÍSO TERRESTRE (São Domingos – 1498) – Ao entardecer, nas margens do rio Ozama, Cristovão Colombo escreve uma carta. Seu corpo range, atormentado pelo reumatismo, mas seu coração pula de alegria. O descobridor explica aos Reis Católicos o que se mostra evidentíssimo: o Paraíso Terrestre está no mamilo de uma teta de mulher.

Ele descobriu isso há um par de meses, quando suas caravelas entraram no golfo de Pária. Já vão os navios erguendo-se rumo ao céu suavemente… Navegando água acima, rumo aonde o ar não pesa, Colombo chegou ao limite último do Oriente. Nestas terras, as mais formosas do mundo, os homens mostram astúcia, engenho e valentia, e as mulheres, belíssimas, usam por vestido seus longos cabelos e colares de muitas pérolas enroscadas no corpo. A água, doce e clara, desperta a sede. Não castiga o inverno nem queima o verão, e a brisa acaricia o que toca. As árvores brindam fresca sombra e, ao alcance da mão, frutas de grande deleite, que chamam a fome.

Mas além desta verdura e desta formosura, não há navio que possa subir. Esta é a fronteira do Oriente. Ali se acabam as águas, as terras e as ilhas. Muito acima, muito longe, a Árvore da Vida abre sua vasta copa e brota a fonte dos quatro rios sagrados. Um deles é o Orinoco, que não creio que se saiba no mundo de rio tão grande e tão fundo.

O mundo não é redondo. O mundo é uma teta de mulher. O bico nasce no golfo de Pária e ascende até muito perto do céu. Na ponta, onde fluem os sucos do paraíso, nenhum homem chegará jamais.

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