Histórias de nuestra América (2)

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Por Eduardo Galeano

O TESTAMENTO DE ADÃO (Roma – 1493) – Na penumbra do Vaticano, cheirando a perfume do Oriente, o papa dita uma nova bula. Faz pouco tempo que Rodrigo Borgia, valenciano da aldeia de Xátiva, se chama Alexandre VI. Não passou ainda um ano desde que comprou, à vista, os sete votos que faltavam no sagrado Colégio e pôde mudar a púrpura de cardeal pelo manto de arminho de Sumo Pontífice.

Mais horas dedica Alexandre VI a calcular o preço das indulgências que a meditar o mistério da Santíssima Trindade. Ninguém ignora que prefere as missas breves, salvo as que em sua alcova privada celebra, mascarado, o bufão Gabriellino, e todo mundo sabe que o novo papa é capaz de desviar a procissão de Corpus para que passe debaixo da varanda de uma mulher bonita.

Também é capaz de cortar o mundo como se fosse um frango: ergue a mão e traça uma fronteira, de cabo a rabo no planeta, através do mar incógnito. O procurador de Deus concede à perpetuidade tudo o que tenha sido descoberto ou se descubra, a oeste dessa linha, a Isabel de Castilha e a Fernando de Aragão e a seus herdeiros no trono espanhol. Encomenda-lhes que às ilhas e terras firmes encontradas ou por encontrar enviem homens bons, temerosos de Deus, doutos, sábios e experientes, para que instruam os naturais na fé católica e lhes ensinem bons modos. À coroa portuguesa pertencerá o que se descubra ao leste.

Angústia e euforia das velas abertas: Colombo já está preparando, na Andaluzia, sua segunda viagem para os rincões onde o ouro cresce em cachos nas parreiras e as pedras preciosas aguardam no crânio dos dragões.

ONDE ESTÁ O VERDADEIRO, O QUE TEM RAIZ? (Huexoltzingo – 1493) – Está é a cidade da música, não a da guerra: Huexoltzingo, no vale de Tlaxcala. A três por dois, os astecas assaltam, a ferem, arrancam dela prisioneiros para sacrificar ante seus deuses.

Tecayehautzin, rei de Huexotzingo, reuniu esta tarde os poetas de outras comarcas.

Nos jardins do palácio, conversam os poetas sobre as flores e os cantos que do interior do céu vêm à terra, região do momento fugaz, e que só perduram lá na casa do Doador da vida. Conversam e duvidam os poetas:

São por acaso verdadeiros os homens?

Será amanhã ainda verdadeiro

o nosso canto?

Sucedem-se as vozes. Quando cai a noite, o rei de Huexoltzingo agradece e diz adeus:

Sabemos que são verdadeiros

os corações de nossos amigos.

TODOS SÃO CONTRIBUINTES (Pasto – 1493) – Até estas remotas alturas, muito ao norte, chega o arrecadador do império inca.

Os índios quillacingas não têm nada para dar, mas neste vasto reinado todas as comunidades pagam tributo, em espécie ou em tempo de trabalho. Ninguém pode, por mais longe que esteja e por mais pobre que seja, esquecer quem manda.

Ao pé do vulcão, o chefe dos quillacingas se adianta e põe um cartucho de bambu nas mãos do enviado do Cuzco. O cartucho está cheio de piolhos vivos.

UMA EXPERIÊNCIA DE MIQUELE DE CUNEO, NATURAL DE SAVONA (Ilha de Santa Cruz – 1493) – A sombra das velas se alonga sobre o mar. Sargaços e medusas derivam, empurrados pelas ondas, até a costa.

Do castelo de popa de uma das caravelas, Colombo contempla as brancas praias onde plantou, uma vez mais, a cruz e a forca. Está é sua segunda viagem. Quanto durará, não sabe, mas seu coração diz que tudo sairá bem, e como não vai acreditar no coração do Almirante? Será que ele não tem por costume medir a velocidade dos navios com a mão contra o peito, contando as batidas?

Debaixo da coberta de outra caravela, no camarote do capitão, uma moça mostra os dentes. Miquele de Cuneo busca os peitos dela, e ela o arranha e chuta, e uiva. Miquele recebeu-a há uns instantes. É um presente de Colombo.

Açoita-a com uma corda. Bate firme na cabeça e no ventre e nas pernas. Os uivos fazem-se gritos, os gritos, gemidos. Finalmente, escuta-se o ir e vir das gaivotas e o ranger da madeira que balança. De vez em quando uma garoa de ondas entra pela escotilha.

Miquele deita sobre o corpo ensanguentado e se remexe, arfa e força. O ar cheira a breu, a salitre, a suor. E então a moça, que parecia desmaiada ou morta, crava subitamente as unhas nas costas de Miquele, se enrosca em suas pernas e o fez rodar em um abraço feroz.

Muito depois, quando Miquele desperta, não sabe onde está nem o que aconteceu. Se desprende dela, lívido, e a fasta com um empurrão.

Zanzando, sobe à coberta. Aspira fundo a brisa do mar, com a boca aberta. E diz em voz alta, como se comprovasse:

– Estas índias são todas putas.

A PRIMEIRA PALAVRA VINDA DA MÉRICA (Salamanca – 1495) – Elio Antonio de Nebrija, sábio em línguas, publicou aqui seu “Vocabulário espanhol-latino”. O dicionário inclui o primeiro americanismo da língua castelhana:

Canoa. Nau de um tronco.

A nova palavra vem das Antilhas.

Essas barcas sem vela, nascidas de um tronco de ceiba, deram as boas-vindas a Cristovão Colombo. Em canoas chegaram das ilhas remando, os homens de longos cabelos negros e corpos lavrados de signos vermelhos. Se aproximaram das caravelas, ofereceram água doce e trocaram ouro por pequenos discos de latão, desses que em Castilha valem um maravedi.

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