Histórias de nuestra América (13)

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Por Eduardo Galeano

HUAINA CÁPAC (Cuzco – 1523) – Enfrentando o sol que aparece, atira-se na terra e humilha a face. Recolhe com as mãos os primeiros raios e leva-os à boca e bebe. Atrás de Huana Cápac, suas muitas mulheres aguardam com a cabeça baixa. Esperam também, em silêncio, os muitos príncipes. O Inca está olhando para o sol, olha-o de igual para igual, e um murmúrio de escândalo cresce entre os sacerdotes.

Passaram-se muitos anos desde o dia em que Huaina Cápac, filho de pai resplandescente, subiu ao trono com o título de poderoso e jovem chefe rico de virtudes. Ele estendeu seu império muito além das fronteiras de seus antepassados. Faminto de poder, descobridor, conquistador, Huana Cápac conduziu seus exércitos da selva amazônica até as alturas de Quito, e de Chaco até a costa do Chile.

A golpes de machado e voo de flechas, fez-se dono de novas montanhas. Não há quem não sonhe com ele nem existe quem não o tema neste reino que é, agora, maior que a Europa. De Huana Cápac dependem os pastos, a água e as pessoas. Por causa de sua vontade se moveram as cordilheiras e as pessoas. Neste império que não conhece a roda, ele mandou construir edifícios, em Quito, com pedras de Cuzco, para que no futuro se entenda sua grandeza e sua palavra seja acreditada pelos homens.

O Inca está olhando fixo para o sol. Não por desafio, como temem os sacerdotes, mas por piedade. Huana Cápac sente pena do sol, porque sendo o sol seu pai e pai de todos os incas desde o antigamente das idades, não tem direito à fadiga nem ao aborrecimento. O sol jamais descansa, jamais brinca, jamais esquece. Não pode faltar ao dever de cada dia e através do c´peu percorre, hoje, o caminho de ontem e de amanhã.

Enquanto contempla o sol, Huana Cápac decide: “Breve, morrerei”.

AS PERGUNTAS DO CACIQUE (Cuaheapolca – 1523) – Entrega comida e ouro e aceita o batismo. Mas pede que Gil González de Ávila explique como Jesus pode ser homem e deus, e Maria, virgem e mãe. Pergunta aonde vão as almas quando saem dos corpos e se está a salvo da morte o Santo Padre de Roma.

Pergunta quem escolheu o rei de Castilha. O cacique Nicarágua foi eleito pelos anciões das comunidades, reunidos ao pé de uma ceiba. Foi o rei eleito pelos anciões de suas comunidades?

Também pede o cacique que o conquistador lhe diga para que tão poucos homens querem tanto ouro. Terão corpos suficientes para tantos adornos?

Depois pergunta se é verdade, como anunciou um profeta, que perderão sua luz, o sol, as estrelas e a lua, e se o céu cairá.

O cacique Nicarágua não pergunta por que não nascerão crianças nestas comarcas. Nenhum profeta lhe contou que daqui a poucos anos as mulheres se negarão a parir escravos.

A MALINCHE (Painala – 1523) – De Cortês teve um filho, e para Cortês abriu as portas de um império. Foi sua sombra e vigia, intérprete, conselheira, mensageira e amante, tudo isso ao longo da conquista do México, e continua cavalgando ao seu lado.

Passa por Painala vestida de espanhola, veludos, sedas, cetins e a princípio ninguém reconhece a florida senhora que vem com os novos amos. Do alto de um cavalo alazão, a Malinche passeia seu olhar pelas margens do rio, respira fundo o aroma adocicado do ar e busca, em vão, os rincões da folhagem onde há mais de vinte anos descobriu a magia e o medo. Passaram-se muitas chuvas e vendavais e penas e pesares desde que sua mãe vendeu-a como escrava e foi arrancada da terra mexicana para servir aos senhores maias de Yucatán.

Quando a mãe descobre quem é a que chegou de visita a Painala, se atira aos seus pés e se banha em lágrimas suplicando perdão. A Malinche detém a choradeira com um gesto, levanta sua mãe pelos ombros, abraça-a e pendura em seu pescoço os colares que usa. Depois, monta o cavalo e segue seu caminho junto aos espanhóis.

Não necessita odiar sua mãe. Desde que os senhores de Yucatán a deram de presente a Hernan Cortês, há quatro anos, a Malinche teve tempo de vingar-se. A dívida está paga: os mexicanos se inclinam e tremem quando a veem chegar. Basta um olhar de seus olhos negros para que um príncipe balance na forca. Sua sombra flutuará, além da morte, sobre a grande Tenochtitlán que ela tanto ajudou a derrotar e a humilhar, e seu fantasma de cabelos soltos e túnica flutuante continuará metendo medo para sempre, saído dos bosques e das grutas de Chapultepec.

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