Histórias de nuestra América (12)

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Por Eduardo Galeano

PONCE DE LEÓN (La Florida – 1521) – Estava velho, ou se sentia. O tempo não seria suficiente, nem aguentaria o cansado coração. Juan Ponce de León queria descobrir e conquistar o mundo invicto que as ilhas da Flórida tinham anunciado para ele. Pela grandeza de suas façanhas, queria deixar anã a lembrança de Cristovão Colombo.

Aqui desembarcou, perseguindo o rio mágico que atravessa o jardim das delícias. No lugar da fonte da juventude, encontrou esta flecha que lhe atravessa o peito. Nunca se banhará nas águas que devolvem o brio dos músculos e o brilho dos olhos sem apagar a experiência da alma sábia.

Os soldados o levam, nos braços até o navio. O vencido capitão murmura queixas de recém-nascido, mas sua idade continua sendo muita e avança. Quem o carrega comprova, sem assombro, que aqui teve lugar uma nova derrota na contínua luta do sempre contra o jamais.

PÉS (Caminhos de São Domingos – 1522) – A rebelião, primeira rebelião de escravos negros na América, foi esmagada. Tinha surgido nos engenhos de açúcar de Diego Colón, o filho do descobridor. Em engenhos e plantações de toda a ilha o incêndio se propagara. Se alçaram todos os negros e os poucos índios que tinham sobrevivido, armados de pedras e paus e lanças de taquara que se quebraram, furiosas, inúteis, contra as armaduras.

Das forças, esparramados pelos caminhos, pendem agora mulheres e homens, jovens e velhos. Na altura dos olhos do caminhante flutuam os pés. Pelos pés, o caminhante poderá reconhecer os castigados, adivinhar como eram antes de que chegasse a morte. Entre esses pés de couro, talhados pelo trabalho e pelas andanças, há pés do tempo e pés do contratempo, pés prisioneiros e pés que bailam, ainda, amando a terra e chamando a guerra.

A MAIS LONGA VIAGEM (Sevilha – 1522) – Ninguém os acreditava vivos, mas chegaram ontem à noite. Arrojaram a âncora e dispararam toda a sua artilharia. Não desembarcaram em seguida, nem se deixaram ver. Ao amanhecer apareceram sobre as pedras do cais. Tremendo e em farrapos, entraram em Sevilha com tochas acesas nas mãos. A multidão abriu caminho, atônita, a esta procissão de espantalhos encabeçada por Juan Sebastian de Elcano. Avançavam tropeçando, apoiando-se uns nos outros, de igreja em igreja, pagando promessas, sempre perseguidos pela multidão. Iam cantando.

Tinham partido três anos antes, rio abaixo, em cinco navios airosos que tomaram o rumo do oeste. Era um montão de homens em busca de ventura, vindos de todas as partes, que tinham marcado um encontro para buscar, juntos, o passo entre os oceanos e a fortuna e a glória. Eram todos fugitivos. Se fizeram ao mar fugindo da pobreza, do amor, do cárcere ou da forca.

Os sobreviventes falam, agora, de tempestades, crimes e maravilhas. Viram mares e terras que não tinham mapa nem nome. Atravessaram seis vezes a zona onde o mundo ferve, sem queimar-se nunca. Ao sul encontraram neve azul e, no céu, quatro estrelas em cruz. Viram o sol e a lua andar ao contrário e peixes voarem. Escutaram falar de mulheres que o vento emprenha e conheceram uns pássaros negros, parecidos aos corvos, que se precipitam nas bocas abertas das baleias e devoram seu corações.

Em uma ilha muito remota, contam, habitam pessoinhas de meio metro de altura, que têm orelhas que lhes chegam aos pés. Tão longa são as orelhas que quando deitam uma serve de colchão e a outra de coberta. E contam que quando os índios das Molucas viram chegar à praia as chalupas desprendidas das naus, acreditaram que as chalupas eram filhotes das naus, que as naus pariam e davam de mamar.

Os sobreviventes contam que no sul do sul, onde se abrem as terras e se abraçam os oceanos, os índios acendem altas fogueiras dia e noite, para não morrer de frio. Esses são índios tão gigantes que nossas cabeças, contam, mal chegam ás suas cinturas. Magalhães, o chefe da expedição, agarrou dois deles, colocando-lhes grilhões de ferro, como adorno, nos tornozelos e nos pulsos. Mas depois um morreu de escorbuto e o outro, de calor.

Contam que não tiveram mais remédio que beber água podre, tapando o nariz, e que comeram serragem, couro e carne dos ratos que vinham disputar com eles as últimas bolachas com vermes. Os que morriam de fome eram atirados pela borda, e como não havia pedras para atar aos seus pés, ficavam os cadáveres flutuando sobre as águas: os europeus, de cara para o céu, e os índios de boca para baixo. Quando chegaram às Molucas, um marinheiro trocou com os índios uma carta de baralho, o rei de ouro, por seis aves, mas não pôde nem provar, de tão inchadas que estavam suas gengivas.

Eles viram Magalhães chorar. Viram lágrimas nos olhos do duro navegante português Fernão de Magalhães, quando as naus entraram no oceano jamais atravessado por nenhum europeu. E souberam das fúrias terríveis de Magalhães, quando mandou decapitar e esquartejar dois capitães sublevados e abando no deserto outros alçados. Magalhães é agora um troféu de carniça nas mãos dos indígenas das Filipinas que cravaram em sua perna uma flecha envenenada.

Dos duzentos e trinta e sete marinheiros e soldados que saíram de Sevilha três anos antes, regressaram dezoito. Chegaram em uma só nau queixosa, que tem a quilha carcomida e faz água por todos os lados.

Os sobreviventes. Estes mortos de fome que acabam de dar a volta ao mundo pela primeira vez.

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