Histórias de nuestra América (10)

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Por Eduardo Galeano

A NOITE TRISTE (Teocalhueycan – 1520 ) – Hernán Cortês passa em revista os poucos sobreviventes de seu exército, enquanto a Malinche costura as bandeiras rotas. Tecnochititlán ficou para trás. Atrás ficou a coluna de fumaça que jorrou da boca do vulcão Popocatépetl, como dizendo adeus, e não havia vento que pudesse torcê-la.

Os astecas recuperaram sua cidade. Os tetos se eriçaram de arcos e lanças e a lagoa se cobriu de canoas em luta. Os conquistadores fugiram em debandada, perseguidos por uma tempestade de flechas e pedras, enquanto atordoavam a noite os tambores de guerra, os alaridos e as maldições.

Estes feridos, estes mutilados, estes moribundos que Cortês está contando agora se salvaram passando por cima dos cadáveres que serviam de ponte: cruzaram para a outra margem pisando cavalos que tinham escorregado e afundado e soldados mortos a flechadas e pedradas ou afogados pelo peso dos alforjes cheios de ouro que não se resignavam a abandonar.

A DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA (Segura de la Frontera – 1520) – Murmura-se e luta-se no acampamento dos espanhóis. Os soldados não têm mais remédio que entregar as barras de ouro salvadas do desastre. Quem esconda algo, será enforcado.

As barras provêm das obras dos ourives e dos escultores do México. Antes de converter-se em presa de guerra e fundir-se em lingotes, este ouro foi serpente a ponto de morder, tigre a ponto de saltar, águia a ponto de voar ou punhal que serpenteia e corre como Cortês explica que este ouro não é mais que gotinhas comparado com o que os espera.

Retira a quinta parte para o rei, a quinta parte para ele, mais o que cabe ao seu pai e ao cavalo que morreu, e entrega aos capitães quase todo o resto. Pouco ou nada recebem os soldados, que lamberam este ouro, o morderam, o pesaram na palma da mão, dormiram com ele debaixo da cabeça e contaram a ele seus sonhos de vingança.

Enquanto isso, o ferro em brasa marca a cara dos escravos índios recém-capturados em Tepeaca e Huaquechula.

O ar cheira a carne queimada.

DURER (Bruxelas – 1520) – Estas coisas desprenderam-se do sol, como os homens e as mulheres que as fizeram e a distante terra que pisam.

São capacetes e cintos, leques de pluma, vestidos, mantas, armas de caça, um sol de ouro e uma lua de prata e zarabatanas e outras armas de tanta formosura que parecem feitas para ressuscitar suas vítimas.

O melhor desenhista de todos os tempos não se cansa de olhar. Esta é uma parte da presa de guerra que Cortês arrancou de Montezuma: as únicas peças que não foram fundidas em lingotes. O rei Carlos, recém-sentado no trono do Sagrado Império, exibe ao público os troféus de seus novos pedaços do mundo.

Albert Durer não conhece o poema mexicano que explica que o verdadeiro artista encontra prazer em seu trabalho e que dialoga com seu coração porque não tem o coração morto e comido pelas formigas.

Mas vendo o que vê, Durer escuta essas palavras e descobre que está vivendo a maior alegria de seu meio século de vida.

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