Histórias curiosas do carnaval carioca

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O carnaval é recheado de histórias interessantes. Muitas vezes, os casos que acontecem nos barracões e na Marquês de Sapucaí vão bem além dos enredos pensados pelos carnavalescos. Algumas são engraçadas, outras nem tantas e a maioria, de tão inusitadas, beira o inacreditável. Mas as que são relatas aqui foram confirmadas por fontes confiáveis, que vivenciaram as situações e recentemente as relembraram com bom humor.

Vamos começar com Luiz Fernando Reis, nosso amigo colunista do SRZD-Carnavalesco. Ex-carnavalesco da Caprichosos de Pilares e do Salgueiro, ele tem um baú de recordações de casos publicáveis e “não publicáveis”. Preferimos dividir com o leitor apenas os mais amenos.

No carnaval de 1984, na Caprichosos, com o enredo “A visita da nobreza do rio a Chico Rei num placo nem sempre iluminado”, Luiz era o carnavalesco. No desfile da azul-e-branca havia um carro em que uma alegoria que trazia a cabeça do Chico Anísio, o homenageado do enredo. Porém, já com o desfile encerrado, a cabeça ainda mexia na área de fora da dispersão. Acontece que o rapaz responsável pelo movimento da alegoria estava um tanto “animado”.

– Naquela época, as primeiras escolas que desfilavam guardavam os seus carros no depósito da Comlurb, atrás da Praça da Apoteose. Eu estava concedendo uma entrevista e a cabeça do Chico continuava mexendo. O cara que fazia o movimento estava bêbado desde o início do desfile, tanto que o Chico entrou na Sapucaí completamente alucinado, mexendo a cabeça feito um desesperado. Só melhorou depois que eu conversei com o tal operador. Essa mesma pessoa tinha uma caixinha de madeira fechada com cadeado no barracão para guardar a cachaça – disse Luiz Fernando.

Outro caso divertido também foi contado por Luiz Fernando. Ainda nos tempos de Caprichosos, ele tinha um aderecista: Mario Pedra. O funcionário do barracão improvisava um compensado de madeira, preso com arame, em baixo da estrutura de um dos carros alegóricos para dormir à noite.

– Essa alegoria foi para a Sapucaí com a madeira embaixo. O Mario amarrou arame para ninguém roubar. No meio da Avenida, com o solavancos dos empurradores, ele caiu. De repente, o Mario saiu por detrás do carro, ele estava com a roupa suja de barracão, dando esporro e questionando: “Porra, ninguém me acordou?”. Depois disso, ele voltou para debaixo do carro, trocou de roupa e ficou tudo bem – relembrou.

Esse mesmo Mario protagonizou uma cena polêmica na escola da Pilares. Um bate-boca com o então presidente da agremiação, Fernando Leandro, que na época era deputado. Segue o diálogo, de acordo com Luiz Fernando:

Fernando Leandro:

– Tu é burro?

Mário:

– Não sou burro. Não sou deputado!

Alguns dias depois, Mario pediu desculpas a Fernando e voltou a trabalhar.

Renato Thor, presidente do Paraíso do Tuiuti, também tem várias histórias. O dirigente lembrou de duas dos tempos em que ainda era diretor de bateria da escola de São Cristóvão.

– O regulamento permitia que as escolas do Acesso desfilassem com três carros. No caminho, entre o barracão e a Sapucaí, dois quebraram. Na hora do desfile, um ferro arrebentou na parte debaixo do chassi e arrastou até o final. Depois que o desfile terminou, quando eu estava voltando para a concentração, ouvi um dirigente da escola que desfilaria em seguida perguntando a um segurança como havia sido o desfile do Tuiuti. O cara respondeu: “O Tuiuti passou arrancando asfalto” – divertiu-se Thor.

Em outro ano, a caminho da concentração da azul-e-amarela, um empregado do barracão caiu dentro de uma alegoria, que representava um rádio, quando consertava um queijo. Ele ficou por lá até o final do desfile.

– Não tinha como ele voltar. Passou a madrugada toda lá dentro. O pessoal da escola deu refrigerante, água e sanduíche pra ele, que ficou muito chateado com a situação – conta o dirigente.

A porta-bandeira Selmynha Sorriso já passou por momentos de tensão na Avenida. Quando ela defendia o pavilhão da Estácio de Sá, na folia de 1995, o salto do sapato quebrou em plena concentração. O jeito foi desfilar no improviso.

– A fantasia chegou em cima da hora, mas os sapatos eu já tinha testado há muito tempo, estavam na minha casa. Quando vesti a fantasia, calcei os sapatos e girei, o salto quebrou. A escola já estava entrando. Decidi que desfilaria assim mesmo, nem o Claudinho sabia. Fui na ponta do pé. Graças a Deus conseguimos as notas máximas e um prêmio da TV Manchete. Hoje é engraçado relembrar isso, mas depois do desfile tive dores e câimbras.

No barracão do Salgueiro, durante os preparativos do enredo “Templo negro em tempo de consciência negra”, havia uma alegoria que representava um carro alegórico. Como alguns funcionários dormiam por lá, à noite o carro virava ponto de encontro dos casais que trabalhavam no local.

– Tinha casal em cima, em baixo, em todo lugar. O carro se mexia à noite – ri Luiz Fernando, ex-carnavalesco da vermelha-e-branca.

E para encerrar, Luiz Fernando conta mais um caso do barracão salgueirense. Fissurado em mortadela, o patrono Miro Garcia vez por outra gostava de oferecer sanduíches aos funcionários.

– Ele comprava 10 quilos de mortadela, uns cem pães e chamava as pessoas do barracão para comer sanduíche ou então levava o lanche durante o expediente. Nunca me esqueço disso – finaliza.

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