“História em quadrinhos agora é cult”, diz Ziraldo

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Campeão de vendas, o autor de Menino maluquinho encanta-se pelo livro infantil e diz: “Não tenho mais paciência para os quadrinhos”

Mineiro de Caratinga, Ziraldo Alves Pinto, ou apenas Ziraldo largou o diploma de Direito para dedicar-se ao desenho. Foi uma escolha feliz. Hoje é conhecido e reconhecido pelos inúmeros e memoráveis personagens. Um deles, o Jeremias, ganha nova versão. O livro Jeremias, o bom (ed. Melhoramentos) foi publicado pela primeira vez na década de 1960 e volta agora repaginado e com histórias censuradas pela ditadura militar. Nessa entrevista para a CULT, o escritor, jornalista e principalmente desenhista fala de seu encantamento com a escrita, sobretudo de livros infantis, e diz: “Tenho tanta coisa ainda para fazer!”.

O que você prefere fazer? Um cartum, uma história em quadrinhos ou um livro infantil?

Ando muito encantado com a escrita. Não tenho mais muita paciência para fazer história em quadrinhos, não. Gosto do cuidado e do zelo com que preparo um livro para crianças.

Valeria a pena lançar hoje uma revista infantil de quadrinhos? O público se interessaria ou só vídeo games e Internet?

Sempre vale a pena. Tem público para tudo. Agora, uma coisa: história em quadrinhos não faz mais parte do que se chamou cultura de massa. Agora, é cult. Não dá mais para vender milhões de exemplares de uma revistinha infantil por mês como fazia o Maurício de Souza. Meus personagens estão aí, em revistinhas editadas pela Globo. Tudo muito bem-feitinho por uma linha de produção que foge um pouco da minha criação exclusiva. A Globo tem roteiristas, artefinalistas, webdesigners, uma equipe grande. Tenho um diretor de arte e de criação chamado Miguel Mendes – que se assina Mig – e que é um gênio das histórias em quadrinhos. Trabalha comigo desde adolescente. Juntos, a gente comanda a equipe. Não considero minhas histórias em quadrinhos de hoje obra de autor. Obra de autor para valer, mesmo, eu fiz com a Turma do Pererê, mas isso são outros tempos. Ali, eu estava escrevendo a minha biografia.

O seu traço é facilmente reconhecível e original. Quem o influenciou para chegar a ele?

Não sei se os meninos de hoje passaram por isso. Quase todos os jovens profissionais do humor gráfico no Brasil inteiro tiveram contato comigo para me mostrar seus primeiros desenhos. Quase todos. Naquela época, porém, o núcleo aqui do Rio, os meninos do Millôr (Fortuna, Jaguar, Claudius e eu), éramos muito influenciados pelos grandes nomes do desenho de humor universal: Steinberg, Ronald Searle e André François. Manzi, um artista italiano do nível deles, dizia que um bom desenho de humor salvava qualquer piada. Nós queríamos fazer humor, mas desenhar melhor do que o Aldemir Martins. E desenhávamos muito bem. Não gostávamos de ser chamados de caricaturistas, mas de desenhistas de Humor. Humor com H maiúsculo. Coisas que caíram de moda.

Em quem você se inspirou para criar personagens como a Supermãe, o Menino Maluquinho, o Mineirinho Come-quieto, o Jeremias? Ou todos são você, como diria Flaubert?

O Flaubert não disse que todos os personagens dele eram ele. Só a Emma (de Madame Bovary). Agora, tanto ele quanto eu (coleguinhas!!!) criamos nossos personagens tirando todos eles das nossas províncias.

Flicts é seu livro mais publicado internacionalmente? Como surgiu o tema para você?

O Flicts tem tido uma razoável vida internacional. Agora mesmo, acaba de sair em coreano, na íntegra, com bandeira do Brasil e tudo. Não vou contar de novo como foi que ele surgiu. Não aguento mais.

Ele é ao tempo mesmo simples e sofisticado. Essa dupla qualidade foi intencional? Como foi o desenvolvimento da idéia?

Claro que não tem nada de dupla qualidade intencional. De repente, lhe ocorre uma idéia. Como é que você reage a ela? Dizendo: vou fazer, com ela, o melhor possível. É isso.

Profissionalmente, quais são os seus maiores desafios hoje? Você é muito cobrado?

Agora, não sou mais não. E nem tenho de provar mais nada. O que eu sei ou soube fazer já fiz. Agora, é repetir com um pouco mais de competência e segurança. Meus desafios sou eu mesmo quem faço. Tenho tanta coisa ainda para fazer! Ou, como diria minha mãe se referindo a mim: “Ele tem tanta idéia na cabeça.” Ainda.

Você já teve algum livro que foi um fracasso editorial? Caso afirmativo, por que aconteceu isso?

Você não vai acreditar: não tem um só livro meu (da Melhoramentos) que esteja fora de catálogo.

A facilidade de comunicação com vários tipos de público lhe dá um grande poder, mas também é uma enorme responsabilidade. Como você trabalha com isso? Que vantagens é possível tirar e quais os maiores riscos?

Poder e responsabilidade, honestamente, a gente não registra. Somos todos iguais, cheios de problemas e dificuldades e dores na coluna e carências afetivas. “Trabalho com isso” como quem respira. Quando vi, já aconteceu. As vantagens? Furar fila é a principal delas. Pagar com cheque em qualquer lugar (quando ainda se pagava alguma coisa com cheque!!!) Riscos? Quer saber? Não tomo conhecimento. Juro.

Como você avalia hoje os tempos de O Pasquim? Foi uma experiência “válida e inserida no contexto”? A produção, bem livre, para o jornal, afetou de alguma forma as suas criações?

Ter tido o Pasquim na minha vida para atravessar os chamados anos de chumbo foi um privilégio. Foi uma experiência válida e inserida no contexto, foi mesmo. Não sei se a palavra é afetou, quando você se refere às formas de criação. Afetou não é pejorativo? Tô perguntando. Não seria melhor dizer influiu? Quando você diz afetar, já vem com um preconceito. Já está me dizendo que achou que o Pasquim me fez mal. Fez não. Era o que a vida podia me oferecer para que eu a seguisse construindo naquele momento.

Você já foi muito criticado pela “popularização” dos seus personagens, como alguém que teria se rendido ao mercado para ganhar dinheiro. O que você diria aos seus críticos?

Fui, é? Se fui, me esqueci. Não sou nem nunca quis ser pintor. Sempre fiz arte narrativa e nunca separei qualquer imagem que eu criei de um significado fora dela. Fiz arte aplicada. O que um artista como eu chama de obra – odeio chamar o que faço por esse nome: minha obra!… que coisa pedante! – só fica pronta quando o decodificador a “decifra”. A obra tem duas pontas: a feitura e o entendimento. Eu procurava fazer, com a maior qualidade a meu alcance, um trabalho que atingisse o seu fim. E deu sempre muito certo. Quanto aos meus críticos – ou descobre – o meu trabalho desses anos todos – as novas gerações – salvo engano, têm o maior respeito pelo que eu fiz.

Como homem identificado com a esquerda, como avalia a situação política brasileira. Da era FHC aos tempos de Lula. Quais os avanços e onde o Brasil continua a patinar?

Você não quer que eu responda a essa pergunta, quer? Em quantos artigos? Num livro? Acho o Lula um Ali Babá e seus aloprados, uma turma absolutamente descartável. Com um peteleco, o Brasil se livra deles. Agora, os herdeiros das capitanias hereditárias, esses, minha filha, são imbatíveis. Jamais nos livraremos deles. Como o Lula não é o representante direto dessa raça, tenho muito mais simpatia por ele que pelos amigos do FHC. Este não conseguiu se livrar das amarras de sua origem (ainda que com aquela historinha do pé na cozinha… argh!).

Você diz que, quando criança, uma de suas manias era a de querer salvar o mundo. Do alto de sua experiência de vida, você ainda tem alguma esperança disso?

Todo dia eu tenho uma idéia para salvar o mundo. Todo dia! No princípio, elas me angustiavam – “Meu Deus, não há nada que eu possa fazer” – mas, hoje, isto não acontece mais. Eu sei, meu Deus, que não há nada que eu possa fazer, mas estou aqui, ó, tranquilo, tranquilo!

 

(link original: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/entrevista-ziraldo-o-bom/)

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