Hímen anular íntegro

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Por Xico Sá

– Meu filho, essa moça já é furada, você vai casar mesmo assim?

– Oxe, pai, e eu quero ela é pra carregar água, é? Que que tem? E é lata d’água, é?

Sempre lembro dessa lorota sertaneja, lá de onde a água barrenta é carregada em ancoretas ou reluzentes latas de querosene Jacaré, quando me deparo com essa onda de virgindade que assola a Nação.

É virgem pra cá, virgem pra lá, virgem do funk, virgem que engravida em novela, virgem de Cristo, virgem do pau oco, virgem sonsa, virgem com culpa a dar, virgem zen, meia virgem – só indo, porque voltando já foi…

E até rapariga que roda a bolsinha com atestado (hímen anular íntegro, certifica a medicina) de virgindade como marketing de cabaré, inferninho de Copacabana, onde reina a badalada Ana Flávia do Café Sensoo – imaculada por todos os buracos d’alma.

É virgem demais da conta, minha Nossa Senhora do Ó, Nos classificados de sacanagem, lá estão elas, de novo, escondidas sob o enigma “só para brincar”. Só não casa com virgem que não quiser ou for um baita dum preguiçoso – descabaçamento é arte para estivador! Trabalho de Hércules, meu filho. Esse menino, aliás, Hércules, deflorou quarenta e cinco numa só noite, reza a mitologia.

De acordo com a seção “afrodisíacos” do belo e próspero sítio português Gastronomias (www.gastronomias.com), o tampa de Crush da velha Grécia entornou, antes da labuta, “uma suculenta sopa de feijão”. Hoje em dia, nem com vitamina de viagra (abacate, catuaba, vinho de jurubeba, guaraná, ginseng, caracu com ovo e viagra) um cabra consegue tamanha serial-foda.

Mas também tem uma coisa. Não basta dizer que é virgem. Na minga terra, era costume, nos idos do muito antigamente, a exibição aos parentes, como nos lembra Câmara Cascudo, dos panos íntimos da desposada, forma de comprovar a donzelice anterior ao matrimônio.

Dizia-se, na época, sobre as moças assanhadas e enxeridas: “Aquela não mostra os panos.” Era um jeito de dizer que não merecia confiança, pois já era “bolida”, “furada”. O costume dos panos foi herdado, como tudo que presta e não presta no Brasil, das nossas bandas mais ibéricas.

Eu só sei que quem é donzela de fato e de direito não precisa anunciar. Como aquelas Vitalinas encruadas de cidadezinhas do interior, que têm um chamego platônico apenas com o homem lá de cima, que até filho de virgem é, reparem só, e nunca foi lá chegado em fazer mal a diabo nenhum de mulher. Corta para um grito de Claudião, lá no alto do Moura, em Caruaru: “Freeeesssco!”

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