Hermano Vianna e a cultura clubbing

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Talvez você não esteja familiarizado com o nome ou a imagem de Hermano Vianna, mas com certeza alguma de suas colaborações à cultura musical nacional já chegaram até você. O antropólogo e pesquisador musical, incansável intelectual da cultura brasileira, é o nome por trás da seleção musical realizada em diversos programas de televisão da Rede Globo, que vão de novelas, passando pelo saudoso Programa Legal – apresentado por Regina Casé e Luís Fernando Guimarães –, até seleções para o gigante do domingo, Fantástico. Não é exagero afirmar que poucas pessoas no país têm tamanha responsabilidade sobre o que é ouvido em casas e estabelecimentos de Norte a Sul.

Autor de dois livros sobre a música popular brasileira, o antropólogo nunca pensou duas vezes ao botar os estigmas de lado e encarar toda manifestação cultural como genuína e digna de análise. Isto, ele mostra ao assinar um dos mais completos livros sobre o Funk Carioca (“O Mundo do Funk Carioca”) e outro sobre o samba (“O Mistério do Samba”).

Sua curiosidade em analisar a expressão cultural do brasileiro através da música não tem limites, o que o torna apto a falar dos primórdios da música eletrônica no mundo com a mesma facilidade que retrata os anos dourados do rock nacional, época em que a banda de seu irmão, Herbert Vianna, se tornaria uma das maiores da nossa história.

E sobre música eletrônica ele discorre com conhecimento de causa e um pujante otimismo na entrevista abaixo, onde atua em primeira pessoa nesta nova forma de disseminação e consumo cultural dos nichos, tão própria do nosso tempo e tão familiar aos fãs e profissionais do estilo nascido no verão do amor.

A Europa possui cenários muito fortes de “clubbing culture” há décadas. Já no Brasil, o processo de “importação” desta cultura foi relativamente tímido e restrito a um grupo pequeno e, paradoxalmente, assim como o próprio Funk carioca, ficou marginalizado. Haveria uma dificuldade do brasileiro em assimilar a música sintética, feita pelas máquinas? É alguma espécie de legado do tropicalismo, que sempre privilegiou a música orgânica e encontrou ressonância na crítica musical vigente no país?

Talvez eu seja mais otimista. Acompanhei com muito interesse e empolgação o aparecimento da house em Chicago e do techno em Detroit nos anos 1980. Gostava muito de Kraftwerk nos anos 1970. Então foi surpreendente perceber como culturas musicais negras norte-americanas se apropriaram de técnicas/estéticas de vanguardas europeias e produziram música pop para as pistas de dança. Fiquei alegre quando vi como aquilo cruzou o Atlântico de volta e deu no Verão de 1987 inglês, com uma música tão radical como Strings of Life como hino. Na época essas notícias dificilmente chegavam no Brasil. A imprensa pop e a indústria fonográfica por aqui tinha predileção por guitarras. Eu só escutava hip hop em bailes suburbanos. Nos anos 1990 isso foi mudando. Hoje há muito mais abertura para o eletrônico. Quase não acreditei naquele Reveillon de 2006/2007 com multidões em Ipanema se acabando ao som de Infected Mushroom e Anthony Rother. Em poucos dias David Guetta fará megashows no Brasil. E o funk carioca se nacionalizou.

Talvez o Brasil tenha sido preparado para isso justamente pelo tropicalismo. Sim, a aparência é de música orgânica. Mas os produtores dos discos tropicalistas entendiam de música eletroacústica e concreta (alguns deles foram alunos de Stockhausen) e usaram procedimentos que hoje chamaríamos de cut-and-paste nas gravações de grandes sucessos de Caetano, Gil, Tom Zé, Mutantes.

Porém, sei que hoje é bem difícil medir o sucesso de uma cena musical. Não há mais o “centro das atenções”, o que vemos é uma (para mim bem-vinda) confusão de cenas. Muita coisa acontecendo e pouca visibilidade geral para tudo. Provavelmente por isso as cenas não pareçam tão grandes como realmente são.

Mesmo com a relativa discriminação da mídia brasileira ao Funk, na periferia, e ao som eletrônico, nos centros urbanos, estes estilos encontraram muita popularidade com o passar do tempo. Hoje, possuem cenários e mercados expressivos, diversificados e em pleno crescimento, mas ainda não encontram uma visibilidade adequada na imprensa em geral. O fator “sucesso nos EUA” ainda é determinante sobre a cartilha musical da mídia brasileira?  A própria EDM, movimento que explodiu nos EUA nos últimos anos, está se repetindo um fenômeno no Brasil devido a esta dependência cultural aos EUA?

Não acho que a “imprensa em geral” tenha mais grande importância na divulgação e/ou reflexão sobre o que acontece de importante nas várias cenas artísticas. Muitos cadernos culturais funcionam como se a indústria fonográfica ainda tivesse a importância e a centralidade que tinha nos anos 1980. Ainda temos páginas e páginas para lançamentos de discos. Álbuns ainda são relevantes? Lançamentos? Sabemos que hoje os sucessos acontecem de forma cada vez mais fluídas, e que as informações circulam freneticamente por muitos canais diferentes. Ser capa do caderno cultural ou ter a música na novela não é mais garantia de sucesso. E muito do que vira sucesso enorme (vide o sertanejo atual) não tem espaço nenhum na imprensa. Então não acho importante essa preocupação com “cartilha musical”. Mas entendo que ainda estamos apegados à “maneira antiga”: os artistas ainda ficam frustrados se não aparecem nos jornais ou nos espaços de consagração de antigamente.

Curiosamente a globalização foi uma das responsáveis para que os meios de comunicação tradicionais como TV e rádio tivessem um poder de influência cada vez mais limitado. Na sua opinião, a chamada “cultura de massa” está com os dias contados?

Sim, está, e não tem volta. Há cada vez mais canais de comunicação diferentes, divulgando uma avalanche de novidades. Tudo é muito novo. Ainda há a nostalgia da situação anterior, quando o mundo tinha centros e meia dúzia de celebridades, conhecidas por todos. Como vamos viver sem referências em comum? Ninguém tem uma resposta, nem um modelo de negócios que funcione igual para todas as cenas, equalizando resultados. Tem gente que diz que nunca mais teremos.

O que se entende popularmente por música brasileira não é algo muito nostálgico? O retorno constante às referências do passado e uma espécie de “negação” do som eletrônico não acaba sendo um obstáculo pra que se tenha uma música brasileira de vanguarda mais vigorosa?

Não sei se o termo vanguarda ainda é importante para pensarmos a realidade cultural atual. Quem falava em vanguarda pensava a evolução da cultura como uma linha evolutiva, com pessoas e obras na frente das outras. Hoje tudo parece mais uma teia de aranha, com links fortes entre momentos históricos e espaços geográficos distantes uns dos outros. Isso torna possível gratas surpresas, como o disco Recanto, de Gal Costa, uma aventura eletrônica radical.

Movimentos musicais simbolizam comportamentos da juventude há décadas. Assim como o Rock foi o canal perfeito para a rebeldia, a música eletrônica estaria em alta exatamente por ser um ambiente “atitude free” e receber bem todas as bandeiras?

Não existe apenas “uma” música eletrônica. Há várias cenas eletrônicas diferentes, com valores diferentes. Algumas são “atitude free”, outras reciclam velhos preconceitos e podem ser bem fechadas. Mas sempre penso a pista de dança como espaço produtor de transe. A humanidade precisa de transe. E de alguma maneira sempre fomos escravos do beat, como um dia cantou Grace Jones.

E o que te agrada quando se fala de música eletrônica?

Gosto de espírito aberto para experimentação. Em muitos momentos as cenas eletrônicas foram mais abertas para a experimentação que as outras. Mas quando vira uma fórmula, quando vira um estilo com regras rígidas, já não me interessa mais (também detesto quando um estilo musical se isola dos outros, como se fosse superior aos outros). Mas sempre tem alguém que abre o que se fechou, e a roda do beat começa a girar novamente.

Para um povo conhecido por ser festeiro por natureza, por que o entretenimento noturno como estilo de vida ou até profissão ainda é visto com tantas ressalvas no Brasil?

Não acho que isso é problema apenas com o entretenimento noturno. Todas as dimensões culturais (e a festa em particular) não são encaradas como atividades produtoras de riquezas (dos mais variados tipos). Mas isso também é culpa dos próprios profissionais. Lutar por direitos dá muito trabalho. Mas sempre digo: o Brasil deveria se especializar em festa. É algo que sabemos fazer bem. Nos anos 1990 participei do projeto Música do Brasil que visitou cerca de cem municípios brasileiros documentando festas chamadas de folclóricas (mas que sempre considerei modernas). Vivia praticamente numa festa diferente por noite, muitas nunca registradas antes, e sempre animadíssimas. É muita riqueza, que poderia alegrar e dar trabalho bom para muito mais gente.

 

Esta matéria foi retirada na íntegra do Anuário RMC 2015. Acesse e leia todo seu conteúdo on-line: http://www.anuariormc.com.br/

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