Helena, que não era de Tróia

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Por Solda

Desde que fui expulso da Itália por haver escondido uma holandesa de bom tamanho no quarto que me fora cedido por algumas liras semanais, eu não via Helena. Era um ano febril, de grandes desfalques e imensas recordações, mas apesar de tudo ainda se conseguia um bom Martini no Ferruci.

Na época da expulsão, duas dolorosas semanas antes, fui internado no Hospital de Estrangeiros, como convém a todo estrangeiro doente, com uma crise renal, de vital importância na ocasião.

O Hospital de Estrangeiros nunca fora o local indicado para se cortejar enfermeiras, pois lá sempre houve uma disciplina muito rígida, desde que um árabe com cirrose fugira com a anestesista de plantão.

Além das visitas de um médico baixinho de óculos, cujo nome, pela cara sardenta e gorda devia ser Rosco, já que todo baixinho com a cara sardenta e gorda na Itália descende dos Rosco, quando não dos Pupazzeto, eu era visitado por um compatriota hediondo com hepatite e por Helena, que me proporcionava ereções regulares quando tirava minha pressão, se é que eu a tinha.

Como estrangeiro, estava ali de passagem, até que a crise renal permitisse que eu voltasse novamente às ruas para me encharcar desesperado com os martinis do Ferruci.

Durante minha estadia naquele depósito de doentes sem pátria desfrutei de tudo aquilo que Helena me podia oferecer: seu estoque de maçãs, biscoitos e seu corpo, um labirinto de paixões desenfreadas.

O porte físico de Helena era de tal modo magistral que se assemelhava à Úrsula Andrews dos bons tempos! Meus braços ansiosos, ainda úmidos do banho desnecessário que Vicenza me obrigava a tomar na banheira que ganhara dos tios de Milão.

Helena gostava de cozinhar, portanto, haveria um almoço digno, com hortaliças e tudo o mais.

Sorrateiramente, subi os lances da escada e assomei à porta, com um largo sorriso estampado no rosto marcado pelas fatalidades da vida nômade.

Havia um cheiro de carne assada no ar, excessivamente temperada com alho e cerveja, além das trivialidades que um bom assado comporta.

Helena preparava um acepipe e, ao me ver, desmaiou.

Surpreso com a ação um tanto quanto descortês de Helena, entornei friamente o primeiro copo de vinho e notei, com um certo espanto, que uma prostituta no prédio em frente se oferecia freneticamente ao padeiro.

Vicenza ainda não voltara da missa.

Os primeiros roncos do meu estômago denunciavam uma fome avassaladora.

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