Guia para a cultura social

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No Rio de Janeiro, numa clássica reunião de intelectuais – o Sabadoyle – onde se reuniam escritores na casa de Plínio Doyle

Por Paulo Mendes Campos

Permita-me, Doutor Godofredo, transcrever umas linhas de sua carta, para que o leitor entenda o seu drama: “Atarefado entre a minha (felizmente) numerosa clínica e os inumeráveis compromissos sociais, que me tentam (pois amo a vida e a convivência humana), disponho de exíguo tempo para a leitura de obras não-científicas e espero que o senhor me faça a mínima gentileza de arrolar os livros fundamentais, cuja leitura me livre da pecha de ignorante literário”.

Bobagem, Doutor. Para que não o culpem de ignorante literário, para conquistar mesmo o renome de homem culto, não é preciso ler livro algum. Leia a primeira frase do livro, só a primeira frase, e seja culto. Aconselho o processo há mais de quinze anos, muito antes dos Bluffer’s Guide.

Explico-lhe. A primeira frase, espontânea ou trabalhada, intencional ou distraída, é única. Nascida quando era nova e pressurosa a força criadora, a primeira frase será mais nova e pressurosa e significativa que o resto do livro. Inversamente, se terminado o livro, o escritor voltou à primeira frase, modificando-a, existe aí o interesse específico do que se chama, em linguagem criminal, a premeditação.

Simplificando: pela primeira frase, o senhor pode conhecer um livro inteiro. Como as teorias cansam, passarei logo à prática.

Tomemos ao acaso um volume, este, A Metamorfose, de Franz Kafka. O senhor já ouviu falar nele. Fique de olho clínico na primeira frase: “Ao despertar certa manhã, depois dum sono tranquilo, Gregório Samsa viu-se em sua cama transformado em monstruoso inseto”.

Ora, depois desse início, o doutor não iria continuar a ler um livro tão ridículo. Mas, como todos em torno falam de Kafka, examine melhor a frase que tanto o desagradou. Evidente que o autor é biruta. Diga, portanto, que Kafka é estranho ou estranhíssimo. É o bastante, todos os escritores são mais ou menos estranhíssimos.

Além do mais, toda a exegese da obra de Kafka resulta, em última análise (guarde também essa maneira de dizer), na conclusão de que a mesma é estranha ou estranhíssima. Assim, o senhor já pode elaborar sobre Franz Kafka uma sentença admirável como esta: “Kafka é estranho, estranhíssimo mesmo, e no entanto a sua obra, a meu ver, é dolorosamente realista”. Nenhum receio de dizer realista, pois é fácil provar que qualquer livro é realista, sendo mesmo sinal de perspicácia exagerar o realismo das obras aparentemente fantasiosas.

Se não for exigir muito, passe também os olhos no que se chama a orelha do livro. Veja: Kafka nasceu em Praga, fim do século passado, morreu em 1924. Quantos elementos! Um pouco mais: queria que seus originais fossem destruídos depois de sua morte, disposição que o amigo Max Brod não cumpriu.

No coquetel de hoje, procure discutir com alguém se o amigo do escritor procedeu certo ou errado. E leia, deliciado, amanhã, na coluna social: “Ontem, no party pra frente de Dodoca Chapedelaine, o simpático Doutor Godofredo explicava para os olhos arregalados e lindosos da Senhora Berta Pinson, née Markovic, que, fosse ele Max Brod, também não teria destruído os originais do estranhíssimo Kafka. Bom-gosto e profundezas. Saravá!”

Vejamos um livro chamado Sinfonia Pastoral, de André Gide. Primeira frase: “A neve, que não cessou de cair esses três dias, bloqueia as estradas”. Que se pode concluir disso? Esse André Gide, pelo nome, deve ser francês. Como o sagaz doutor não consegue deduzir mais nada, afirme: “André Gide é um pouco desnorteante, não há como pegá-lo”.

Lembrando-se da neve obstinada, acrescente sem compromisso: “Acho demasiado frios, para meu temperamento, alguns de seus livros”. O senhor passou a ser o quente. Se uma pessoa antipática perguntar quais livros, diga, beliscando um salgadinho: “Com exceção da Sinfonia Pastoral, posso dizer que todos”.

Se da primeira frase não lhe for possível obter muito, não se atrapalhe. O Príncipe, obra célebre de Maquiavel, principia assim: “Todos os estados, todas as soberanias que têm ou tiveram autoridade sobre os homens, foram ou são repúblicas ou principados”.

Quase certo de que se trata de obra sobre coisas de governo. O autor usa um tom maior, que tanto pode ser experiência do assunto como vulgar pedantismo. Apele para as adversativas vagas: “O Príncipe, não obstante tudo, tem passagens duma sabedoria política atualizadíssima”.

Em sociedade tudo se sabe, e ninguém irá perguntar-lhe o que o senhor pretende com aquele “não obstante tudo”. Ficarão saciados e gratos. Pode também afirmar que “Maquiavel não era tão maquiavélico quanto espalham por aí”. Sucesso garantido.

Umas poucas regras gerais, Doutor Godofredo: em se tratando de escritores portugueses, elogie o sabor da sintaxe lusíada; escritores franceses, a finura, digo, a finesse; escritores germânicos, a densidade; ingleses, o fog poético; eslavos, a psicologia inesperada; asiáticos, o misticismo milenar; africanos, o primitivismo; brasileiros, a força telúrica; norte-americanos, os fabulosos direitos autorais.

Restam praticamente os autores hispano-americanos e os australianos. Comente a imaturidade dos primeiros, “apesar de certo surto renovador nos últimos anos”. Quanto aos escritores da Austrália, mude habilidosamente a conversa para uma discussão se canguru joga ou não joga boxe. Todos vão adorar…

Finalmente, os clássicos. Como as pessoas que os leram são tão velhas ou tão mortas que não frequentam o society, é bastante elogiá-los indiscriminadamente. Diga: “Nada se compara à perfeita serenidade dos grandes clássicos”. As obras romanas, é preferível citá-las em latim. Se o senhor tem o cinismo dos vencedores, cite também os gregos em grego. Dá algum trabalho decorar, mas valerá a pena, pois é renome de humanista garantido. Em seu túmulo (que não seja já), um amigo (quem sabe?) pode ter a genial ideia de gravar um verso de Píndaro ou Horácio. É a sua glória a bradar no silêncio do óbito.

Mas grife no fundo da memória este conselho: não se refira a qualquer autor que o senhor realmente leu. Deve ter amado os sonetos de Bilac no tempo de colégio. Pois não diga nada. Ou diga, mas com um ar misteriosamente afetado: “Bilac? Quem é?” Os colunistas divulgarão a boutade. E o senhor, além de culto, será um homem de espírito causticante.

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