Grafite ou pichação? Eduardo Kobra mostra o pau

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Um dos principais nomes da lista de artistas urbanos brasileiros que multiplicaram seu valor de mercado levando o trabalho das ruas a galerias do mundo inteiro, Eduardo Kobra diz que não cabe a ele decidir o que é arte ou não nos muros da cidade. Os limites entre grafite e pichação se tornaram centro de um debate desde que a Prefeitura de São Paulo removeu parte dos murais da Avenida 23 de Maio, em ação do programa Cidade Linda.

“Não me colocaria numa posição de julgar o que está nas ruas. Não tenho esse direito. Não vejo o meu trabalho superior ao de ninguém. Todo mundo está nas ruas, batalhando pelo seu espaço”, afirma ao G1 o muralista paulistano, uma das atrações da edição de 2017 da Campus Party, evento de tecnologia que acontece em São Paulo.

Kobra se tornou um dos personagens da polêmica ao ser citado pelo prefeito João Doria (PSDB) como coordenador de um projeto voltado à promoção do grafite em lugar das pichações. O artista negou a participação no programa poucas horas após a declaração de Doria. Nesta última quarta, 25, seu nome voltou a ser assunto, quando um mural de sua autoria na 23 de Maio foi pichado com uma caricatura do prefeito.

Sobre o papel das pinturas de protesto, Kobra avalia que “cada artista se manifesta da forma que acha mais viável”. “Eu não posso entender os motivos que levam cada um a fazer o que faz. Eu não pinto nada em que eu não acredito. Não vou realizar nada porque me mandaram fazer”. Questionado sobre o caso de São Paulo, porém, afirma que “não tem nada a ver com a história” e, por isso, “não pode participar do debate”.

Vista de um grafite do muralista Eduardo Kobra na Avenida 23 de Maio, na Zona Sul de São Paulo. O mural foi parcialmente coberto de tinta cinza e teve uma caricatura do prefeito João Doria inserida no painel

De pichador a muralista

Kobra começou como pichador nos anos 1980, no Campo Limpo, bairro da periferia de São Paulo. Tornou-se grafiteiro e, hoje, define-se como um muralista. Em 1995, criou o Studio Kobra. Desde então, teve obras expostas nos Estados Unidos, Suécia, Itália, México, Japão e outros países. Em São Paulo, entregou cerca de 30 murais desde 2006, incluindo a pintura de mil metros quadrados na 23 de Maio, que mostra cenas da década de 20.

“Nunca visei o dinheiro”, diz o artista, cuja bem-sucedida trajetória será foco de sua participação na Campus Party, no próximo dia 3. “Vou mostrar que, em alguns momentos, tive a oportunidade de desistir ou entrar por um caminho que estava sendo oferecido, de drogas, da bebida ou de crimes, mas resolvi não ir por eles”, conta.

Com discurso que foge de polêmicas, ele fala ainda ao G1 sobre sua relação com as origens de seu trabalho, nas ruas de São Paulo, o reconhecimento internacional, as críticas à mercantilização de uma arte que ainda pode ser marginalizada e as cores e o sucesso que o levaram a ser comparado a Romero Britto, outro fenômeno comercial brasileiro que ganhou o mundo. Leia a entrevista abaixo.

Mural Etnias, de Kobra, no Boulevard Olímpico da Praça Mauá, no Rio de Janeiro

Sempre se falou muito sobre os limites entre grafite e pichação, o que é arte e o que não é. Essa discussão foi intensificada nas últimas semanas. Para você, há algo que define o que é arte na pintura urbana?

Eu não saberia colocar esse limite. Não estou apto a dizer algo desse tipo. Não me colocaria numa posição de julgar o que está nas ruas. Não tenho esse direito, até mesmo pela minha trajetória. Eu não teria uma posição. Eu não vejo o meu trabalho superior ao de ninguém. Todo mundo está nas ruas, batalhando pelo seu espaço.

Qual o papel da pichação nesse contexto, especialmente das pinturas de protesto? Como lidar com elas?

Isso não é algo que cabe a mim decidir ou julgar. Acho que cada artista se manifesta da forma que achar mais viável. Cada artista tem os seus conceitos, os seus princípios. Cada um se expressa do jeito que achar melhor. Eu não posso entender os motivos que levam cada um a fazer o que faz. Eu não pinto nada em que eu não acredito. Não vou realizar nada porque me mandaram fazer.

Você acha que, hoje, a arte urbana é vista como qualquer outro tipo de trabalho artístico? Ainda há preconceitos a superar?

Desde a década de 80, alguns artistas americanos, como Jean-Michel Basquiat, já quebravam essa barreira, já mostravam que nas ruas existem muitos artistas talentosos. Com o passar do tempo, as ruas das cidades se transformaram em grandes galerias de arte. Durante muitos anos, artistas mostraram sua capacidade, enfrentaram os problemas, e brasileiros conseguiram levar seus trabalhos para vários países. É uma expressão de talento que foi reconhecida por pura capacidade.

Você já foi marginalizado pelo seu trabalho, e hoje é tietado por gente de todas as classes sociais, suas obras ganharam alto valor de mercado e projeção internacional. O que aprendeu com essa transição? Isso mudou de alguma forma seu trabalho?

Não acredito numa evolução, trata-se mesmo de uma transição. Passei os últimos 28 anos da minha vida me dedicando ao meu trabalho. Por mais que hoje eu tenha obras em galerias de fora, tenho o maior prazer em voltar para São Paulo, que me projetou para o mundo, e deixar meu trabalho nas ruas da cidade. Não só em áreas nobres, mas também na periferia, que é onde meu trabalho surgiu. Eu jamais iria contra a minha origem. Tive problemas sim, paguei o preço que eu tive que pagar, mas também tive uma grande recompensa nas ruas. Cada trabalho que eu faço é um presente para a cidade.

Algumas pessoas criticam a mercantilização de uma arte que ainda pode ser marginalizada e, por causa do sucesso, outras comparam sua trajetória à de Romero Britto. O que acha disso?

Eu tenho uma história completamente voltada para as ruas. Todo o meu desenvolvimento aconteceu nas ruas. Eu nunca visei o dinheiro, entrei numa galeria pela primeira vez quando tinha uns 30 anos. Sempre batalhei muito. As conquistas que eu tive sempre foram muito legítimas. Sobre outros artistas, eu não tenho uma posição de crítica. Cada um toma as decisões que são cabíveis pra si. Jamais vou ter uma posição de ataque a outros artistas. Eu respeito a trajetória de cada um, cada um tem seus motivos.

Você descarta fazer licenciamento de produtos, como faz o Romero Britto?

Não descarto totalmente, mas não tenho feito. Fiz duas ou três coisas durante minha carreira. Não significa que eu não farei, mas sim que quero fazer coisas que tenham uma conexão legítima. Se uma pessoa quer se associar ao meu trabalho, tem que haver algo legitimo. Não é simplesmente pelo dinheiro. Mas não critico outros artistas que fazem isso. É a forma como eu penso, tenho um cuidado com meu trabalho.

Sua palestra na Campus Party será sobre “arte da superação e empreendedorismo”. O que isso significa?

Eu vou contar um pouco do meu trabalho em relação a todo o processo que eu tive que passar, da minha história, mostrando que outros jovens, que têm algum sonho, algum talento, mas sofrem repressão, devem continuar acreditando. Quero mostrar para eles, através da minha trajetória, que isso é possível. Passei pelas mesmas condições que muitos enfrentam, existem caminhos e escolhas que a gente tem que fazer, e determinam nosso destino. Vou mostrar que, em alguns momentos, tive a oportunidade de desistir ou entrar por um caminho que estava sendo oferecido, de drogas, da bebida ou de crimes, e resolvi não ir por eles.

A Campus Party é um evento de tecnologia. Qual papel ela exerce no seu trabalho?

A arte é aberta. Meu trabalho não é restrito a nada. Sou sempre aberto a utilizar qualquer tipo de inovação. A gente percebe esse movimento no mundo inteiro. Apresentei um projeto de realidade aumentada no mural do Niemeyer [na Avenida Paulista]. Ao apontar o celular para o mural, obras ocultas no rosto do arquiteto aparecem na tela. Também estou desenvolvendo um projeto de iluminação para os meus murais: através de um aplicativo, as pessoas vão poder mudar as cores dos murais.

Serviço – Campus Party 2017

Quando: de 31 de janeiro a 5 de fevereiro de 2017

Onde: Pavilhão de Exposições Anhembi – Avenida Olavo Fontoura, 1209, São Paulo, SP

Entradas: a partir de R$ 240

 

(link original: http://g1.globo.com/tecnologia/campus-party/2017/noticia/grafite-ou-pichacao-kobra-evita-polemica-e-diz-que-seu-trabalho-nao-e-superior-ao-de-ninguem.ghtml)

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