Geraldo Vandré

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Por Tárik de Souza

Num bar ao lado dos estúdios da TV Globo de São Paulo, Geraldo Vandré está preocupado.

– Não sei se o júri vai gostar da minha música – diz ele, esfregando as mãos nervosamente.

A poucas horas do início da eliminatória paulista do Festival Internacional da Canção de 1968, ele não tem certeza do sucesso de sua inscrita, Caminhando ou Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores. E mais: vai apresentá-la sozinho, no palco, apenas com o violão, contra orquestra e conjuntos dos outros concorrentes.

– O meu medo maior é o júri. É que eles têm votado em coisa muito complicada, e a minha canção só tem dois acordes.

Vandré sabe que dessa apresentação podem depender suas andanças futuras. Até onde caminhará sua canção? Vai levá-lo, de novo, aos maus tempos do Festival da Record de 67, quando apresentou a vaiada e desclassificada Ventania ou De Como Um Homem Perdeu o Seu Cavalo e Continuou Andando? Ou voará certeira como Disparada, que dois anos antes quebrou as regras dos festivais, dividindo o primeiro lugar com A Banda, de Chico Buarque?

Por sorte, faltava pouco tempo para a apresentação e, melhor ainda, a resposta seria uma surpresa agradável. Em meio a alguns gritos de “Vá trabalhar, vagabundo!” e “Demagogo!”, ele começava a receber muitas palmas. E, na final, no Maracanãzinho, Rio, só ficou atrás de Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque. Mas foram para a segunda colocada os acenos de 60.000 mãos, o coro de 30.000 espectadores:

– Caminhando e cantando e seguindo a canção…

As mãos estavam novamente agitadas, mas ele tinha certeza. Estava andando novamente.

Muitas léguas depois, ou seja, num espaço de oito meses, Caminhando reapareceu a baixo vapor. Desta vez, brotava ao lado de uma canção nova, Desacordonar, num frágil concurso de misses, no Chile. Não era exatamente uma coexistência pacífica, e as duas canções de protesto, mais seu cantor e compositor, perderam o duelo: teriam que abandonar o País.

Vandré e as músicas já tinham se apresentado em alguns shows universitários. Mas quando o programa de misses chegou à TV, alguém se lembrou de perguntar por sua licença para atuar como profissional no Chile. Resultado: uma próxima parada, longínqua e imprevista.

Recém-casado com sua segunda mulher, a chilena Belgica Villa Lobos, foi à Argélia assistir a um festival de arte negra. Continuando, esteve na Alemanha e teve a primeira boa oportunidade. Um contato feito com artistas alemães na época do Festival da Canção, no Rio, lhe valeu a gravação de alguns programas na TV de Baviera. Era um dinheiro grande que recebia depois de muito tempo, e não teve dúvidas: comprou um carro para andar mais depressa.

A viagem mudou, mas não especialmente em velocidade. Grécia, Áustria, Bulgária, entre outros, foram percorridas, de automóvel, por um caminho estanho que não deixava de ser uma forma de trabalho musical. Vandré cantava e tocava nas povoações do interior em troca de comida e pouso, mas só falava português.

– Foi uma das experiências mais importantes que eu fiz no exterior. Ao invés de sofisticar, adaptar ou traduzir, eu preferi procurar uma raiz comum, simplificando a música até ficar só com a parte mais essencial. Me saí bem. Em nenhum lugar me recusaram o que eu precisava, e eu aprendi muito.

Mas, aprendendo ou ensinando, este ainda não poderia ser o fim da linha. Na Itália, pouco depois, esteve com o cantor e compositor Sérgio Endrigo, que regravou algumas de suas músicas, em italiano. Na França, encontrou uma espécie de colônia artística brasileira e resolveu fazer uma pausa. Já que se aproximava a Páscoa de 1970, alguém do grupo sugeriu a remontagem de sua Paixão Segundo Cristino numa igreja de Paris.

A idéia foi bem aceita e ele colocou o projeto em movimento. Num local adequado – a Igreja de Saint Germain des Prés, próxima a um bairro de artistas de Paris –, Vandré e outros músicos brasileiros (entre eles a cantora Vanja Orico) encenaram Passion Brésilienne. E o público francês, boa parte dele estudantes de belas-artes, pôde ouvir palavras como estas: “Je temoingnerai de cette passion/ Qui aux sainst a donné la mort/ Aux vivant a laissé le sort/ D’une chose pire que la mort/ Seigneur, la vie dans l’esclavage”.

E gostaram tanto, que a Passion Brésilienne preparou Vandré para um reinício de carreira, na França. Estava, de certa forma, livre. Tinha rompido o contrato com a fábrica Vogue, onde chegou a deixar algumas faixas gravadas, e podia começar tudo de novo.

Além da experiência da viagem, tinha outro bom trunfo no momento: trabalhava em novo tipo de composição, que podia facilitar a comunicação com o público. Indianismo ou Astericos era uma delas. Montada apenas em assobios e partes do violão, a música subentendia a letra, e deixava falando sozinho um forte ritmo nordestino. Tinha outros exemplares (Liberdade, Meu Amor e Pátria Amada, Idolatrada, Salve, Salve), mas destes saltavam vozes ainda mais óbvias para um rápido entendimento.

E o convite acabou aparecendo: Vandré se apresentar na Cité Universitaire, num espetáculo individual com entradas pagas. Iniciando o show e até o final do primeiro ato, parecia mais uma calma vitória: o público – mais heterogêneo – acompanhava atentamente, seguindo falas e letras de canções no programa impresso em dois idiomas. Vandré, no entanto, parecia cansado, e começou a perder a tranquilidade quando avistou alguns músicos e conhecidos brasileiros na platéia:

– Olha, pessoal: não tem muito sentido eu estar aqui sozinho cantando música brasileira, não. Temos aqui na platéia o…

E o palco começou a se encher de gente, enquanto os franceses procuravam avidamente no folheto do programa explicação para o que estava acontecendo. A verdade é que nem o próprio Vandré podia informar. Apenas um ponto ficou claro, quando ele conseguiu deixar a Cité Universitaire: aquele dia era o fim da sua carreira na França. E o começo no Chile. Ou nos Estados Unidos, onde seu colega Airto, do extinto Quarteto Novo, se apresentou com Miles Davis, e podia lhe trazer propostas de trabalho.

Tudo isso, porém, é anotado no livro-vida-música que ele escreve diariamente, enquanto duram suas andanças no estrangeiro. Juntando em duas arcas enormes também o que escrevem ou dizem à sua volta, ele compõe ainda canções que não terminavam, como as que ele ouvia no interior de Pernambuco da boca dos cantadores de feiras e festas.

Seguindo essas primeiras lições, Geraldo Vandré acha que a arte deve ser uma coisa ligada a tudo que está acontecendo. É preciso sempre encontrar um fio central, que possa levar a todos os lugares ao mesmo tempo.

Ao começo ou ao fim.

DE CARLOS DIAS A GERALDO VANDRÉ, O CANTOR DE RÁDIO VIROU COMPOSITOR

Carlos Dias entra no palco, chamado pelo animador César de Alencar:

– É o representante da Paraíba em nosso concurso de hoje!

O cantor olha para a platéia, muito nervoso, mas localiza caras conhecidas. Estão ali Maria Eugênia, sua mãe, e Ângela, a tia. Canta uma música e, antes de ir embora, olha ainda de longe a família aplaudindo.

– Meu filho, você pode ser o que quiser: jogador de futebol, cantor de rádio, seja lá o que for. Mas tem que se formar primeiro.

Eram palavras que ele ouvia muitas vezes. Dona Maria Eugênia (a única da família que chegou ao quinto ano de piano clássico) queria o filho doutor, mesmo que fosse preciso enfrentar muitas vezes seu gênio violento. Principalmente, em sua juventude no Rio, entre 54 e 61, quando por fim se formou, isso ia acontecer quase sempre.

– O programa do César de Alencar é o de menos. Na tarde de domingo, uma vez só, é fácil de controlar. Mas, desde que entrou para o ginásio do Colégio Juruena, aqui no Rio, não se tem mais sossego. Conheceu – sabe-se lá como – o pianista Paulo Burgos, da boate Tudo Azul, que funciona em cima do Hotel Vogue. E desaparece todas as noites. É esse ambiente artístico…

Carlos Dias, porém, era no máximo um dos mais humildes figurantes daquele meio fantástico. Ficava de lado nas boates, raramente conseguia cantar e poucas vezes era também ouvido – mas arregalava muito os olhos. Dava tal importância às suas tentativas de penetração no círculo dos artistas, que acabou conseguindo que a mãe lhe pagasse a gravação de um acetato particular, em que ele cantava imitando Orlando Silva e Francisco Alves. E mostrava o disco nos lugares em que aparecia.

Um deles era o programa do compositor e folclorista Waldemar Henrique, na Rádio Roquette Pinto. Tinha escolhido cuidadosamente o pseudônimo que usava nessas ocasiões – Carlos, de seu ídolo Carlos José, e Dias, de se sobrenome – e lá ia cantar. Waldemar tornou-se seu amigo e a roda de frequentadores da casa do novato começou a aumentar.

Antes de se ampliar muito, em noitadas com Ed Lincoln e Luiz Eça, Carlos Dias desapareceu. Mas não era ainda um dos muitos projetos do jovem candidato-a-cantor-que-queria-fugir-de-casa-e-começar-carreira-em-outra-cidade. É que, de comum acordo com Waldemar Henrique e também com seu pai José Vandregísilo – ambos estudiosos de numerologia –, escolheu um novo nome artístico. Passava a Geraldo – seu primeiro nome – e Vandré, abreviatura do segundo prenome do pai, o que, de acordo com os dois técnicos, era uma combinação forte e de futuro.

Já no fim do último ano do clássico, Geraldo Vandré quis testar a potência e sorte do seu nome. Conheceu um colega baiano, tímido, mas muito sério, que também tinha os mesmos planos – João Gilberto – e os dois começaram a se preparar para mudar de vida. Segundo os sonhos da dupla, iriam para Porto Alegre morar em cima de uma boate. Estudariam de dia e ainda conseguiriam um empreguinho – uma espécie de sinecura, como dizia Geraldo – para se manterem, por via das dúvidas, caso o ofício de cantor falhasse.

Mas o que não deu certo foi a idéia inteira. A mãe de Vandré, vigilante (ou pouco profética), preferiu não pagar para ver o novo duo: o filho ficaria no Rio, de qualquer maneira, para fazer o vestibular. (Ficou com raiva: mais de seis meses sem falar com a mãe.) E o colega, sozinho, voltava para a Bahia.

Vandré seguia cada vez mais rápido ao encontro do diploma, mas também era certo que sua roda de amigos aumentava. Com um deles, moreno, de nome difícil – Baden Powell –, Geise, irmã de Vandré, se lembra de muitos passeios e farras – os três fazendo serenata no Largo do Boticário. A maior diversão, no entanto, ainda era em casa. Todos reunidos em silêncio, compenetrados, esperando o velho relógio de parede dar meia-noite:

– Era a hora do show do Baden – conta Geise. – Ele improvisava em cima das doze badaladas, usando o relógio como se fosse um metrônomo.

Além de amigo, Baden Powell era uma espécie de exemplo capaz de evitar algumas situações embaraçosas em casa. Foi numa época em que quase todos tinham aprendido violão – até o pai de Vandré dedilhava alguma coisa –, e Geise e Geraldo eram o centro das festas quando vinham visitas. A desculpa para não tocar era sempre o excelente colega do irmão, que envergonhava quem não dominasse bem o violão. Geise ainda conseguia passar por algumas valsas – Branca era a favorita da família –, mas Vandré tinha uma defesa ainda mais forte.

– Ele ficava tão nervoso que seus dedos rachavam e ele não podia tocar. O mesmo acontecia às vezes com os dedos do pé, e por isso ele acabou dispensado do serviço militar.

Lentamente, porém, o nome Geraldo Vandré acumulava conquistas. Algumas mesmo em família: aprovado no vestibular, conseguiu que a mãe pagasse um professor de canto para ele. Aprendeu colocação de voz, respiração, controle dos músculos. E, na faculdade, começou a participar do diretório acadêmico, o que lhe valeu alguns amigos e participação no CPC (Centro Popular de Cultura) da extinta União Nacional dos Estudantes. Um deles Carlos Lyra, que “já participava da roda dos Vinícius”, foi seu primeiro parceiro.

Em 1960, Lyra tinha musicado o filme Gimba, de Flávio Rangel, quando começou a se interessar pelo processo de composição. Até aqui, tinha se preocupado apenas – seguindo seus primeiros impulsos, ainda criança – em ser “cantor de rádio”. Pediu a Carlos Lyra que fizesse uma música para que ele colocasse letra, e assim surgiu Quem Quiser Encontrar o Amor, logo seguida por Aruanda. Foram gravadas pelo próprio Lyra, em 1960, mas a gravação de Vandré, no ano seguinte, fez mais sucesso.

– O êxito dessa música deve-se muito àquela obstinação de vencer do Vandré – conta Ângela, sua tia e secretária. – Ele tinha se agarrado à idéia nova, de ser compositor, e queria vencer logo, sem esperar nada. E ia humildemente de disc jockey em disc jockey, pedindo para tocarem a música dele.

Estava chegando o fim do curso de Direito e o último ano oferecia certa liberdade aos alunos. Era permitido assistir a poucas aulas e apenas fazer as provas. Ou, pelo menos, era o que dizia em casa, quando começou a viajar muito para São Paulo.

Frequentava uma turma de cantores e compositores – Carlos Lyra e Oscar Castro Neves também vinha com ele – e hospedava-se numa pensão, perto do Colégio Mackenzie, onde se reuniam estudantes universitários. Era dirigida por Paulo Cotrim, que depois ia transferir seu centro cultural para a boate João Sebastião Bar, fundada em 1962. Vandré, porém, tinha ainda outros motivos para a assiduidade ao grupo: namorava uma moça que residia perto da pensão.

E em São Paulo estava mais à vontade. Nos fins de semana, a turma da pensão promovia festas ou comparecia a outras tantas, e ele podia cantar ou declamar poesias – Vinicius, José Régio, principalmente. Por essa época, compôs algumas músicas com dois outros parceiros: a cantora Alaíde Costa (Canção do Breve Amor) e Baden Powell (Nosso Amor, Fim de Tristeza, Se a Tristeza Chegar, Rosa Flor, Samba de Mudar). E às vezes ficava conhecendo músicas novas. Sua colega de festas, Ana Lúcia, certa vez lhe mostrou uma delas – Samba em Prelúdio – que Vinicius de Moraes e Baden Powell tinham acabado de compor.

– Disse ao Vinicius que eu queria gravar a música com você e ele topou – contou ela, animada.

Mas antes da gravação – que seria feita duas vezes, uma às pressas, na véspera da viagem da cantora ao Carnegie Hall, novembro de 62 –, Vandré respirava mais aliviado. Tinha encerrado o curso de Direito e, numa celebração bem típica de sua personalidade impulsiva, horas depois, pendurou o canudo no pescoço de sua mãe:

– Eis o filho doutor que você queria. Agora vou cuidar da minha vida.

Para o arrependimento, passou-se pouco tempo. Logo se lembrou de que, enquanto não saía a gravação, ele tinha apenas um emprego público – fiscal da Cofap – arranjado por seu tio ainda no Rio. E, reunindo-se a alguns amigos, chegou a montar um escritório de corretagem. Pensou até mesmo em ser advogado.

– Uma semana depois, ligou para a mãe, aflito – contra a tia Ângela. – Queria que ela fosse ao tabelião reconhecer a firma, porque já estava precisando de diploma. Não desse certo o escritório, ia tentar se estabelecer como advogado trabalhista.

Mas o advogado, certamente inflamado, não chegou a defender futuros clientes operários.

Várias vezes por dia, começava a tocar o Samba em Prelúdio em todas as rádios, e a dupla com Ana Lúcia era formada agora em outros palcos e outras festas. Foram dias tão bons, que desapareceu a reação nervosa nos dedos e ele começou a trabalhar sozinho, unindo duas idéias. Uma: a bossa nova estava se jazzificando demais, e era preciso descobrir linguagens mais brasileiras para ela. Outra: se ele fazia poemas e letras, por que não construir também a música?

Que sol quente, que tristeza…./ que foi feito da beleza/ tão bonita de se olhar?” Nasceu a Canção Nordestina, uma toada simples, de poucos acordes, que experimentou seu impacto num show de bossa nova do Colégio Mackenzie. Impacto e espanto: alguns compositores e cantores do show comentavam surpreendidos:

– Não é bossa nova!

E só. As águas voltaram a se assentar, e o nome Geraldo Vandré tinha ficado conhecido, mas ainda estava distante das promessas mágicas da combinação de sues números. Cantava no João Sebastião Bar, revezando-se com Ana Lúcia, Claudete Soares, Marisa, Pedrinho Mattar, Sambalanço Trio, Alaíde Costa e algumas atrações que vinham do Rio. Também aparecia num programa de vanguarda – Mobile –, produzido por Fernando Faro na TV Tupi de São Paulo. Mas era pouco. Com tanta tranquilidade, casou-se com Nilce, na própria boate em que trabalhava, e encerrou a festa apresentando-se no Mobile, “com a aliança na outra mão para que pensassem que era video-teipe”, segundo combinou com Faro.

Alguns meses antes, havia saído seu primeiro elepê, quase com a mesma discrição. Tinha uma retaguarda de músicos maias que respeitáveis – Walter Wanderley, Moacyr Santos, Baden Powell, Meireles, Erlon Chaves. E trazia novas letras e músicas de Vandré. Mas não chamou muita atenção, embora o Menino das Laranjas, de Theo, e sua Fica Mal com Deus ficassem bastante conhecidas. Na TV aparecia muito raramente – “sempre com cachês irrisórios, em troca de divulgação” – e estava fora da turma dos shows do Paramount, que levariam Elis Regina e a bossa nova à televisão em 65.

Nesse ano, porém, ele participou – embora sem sucesso – de um acontecimento importante para sua carreira. Inscreveu-se como cantor no I Festival da Música Popular Brasileira, e, alguns dias depois, apareceu um rapazinho em casa, pedindo-lhe que defendesse sua música. Chamava-se Chico Buarque de Hollanda e vinha mostrar Sonho de um Carnaval. Vandré ia cantar também uma música sua, Hora de Lutar. Mas, a música de Chico não passou do sexto lugar (o cantor estava nervoso) e o compositor Vandré estava reprovado: nem chegou a classificar-se. Não era uma derrota total, porém. Ele acabava de descobrir um meio de mostrar suas músicas sem precisar pertencer a grupos da TV ou do rádio.

E em 66 não teve dúvidas. Concorreu três vezes: na TV Excelsior, na TV Record e na TV Globo do Rio, no I Festival Internacional da Canção. Um ano antes, havia lançado um elepê – Hora de Lutar – com a maioria de músicas suas, e aparentemente ninguém tinha prestado muita atenção. Mas, antes de começar o Festival da Excelsior, o primeiro de 66, ele ia ver que sim, tinha sido notado. Quem eram seus ouvintes? Eles viajaram da Bahia e estavam ali, no tapete, depois do show Opinião, compondo ou cantando com ele:

– Você se lembra daquela música que tocava no norte?

Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Netto conversam com Vandré ( a essa hora Maria Bethânia já foi para casa, mas ainda vai fazer De Mãos Dadas, um show com ele na boate Cave, em São Paulo). O que Vandré estava ouvindo dos baianos não era uma surpresa naquele tempo, mas o início de curto trabalho juntos:

– É até engraçado a gente está aqui sentado em sua casa. Você era o nosso ídolo lá na Bahia. Aquele seu disco, Hora de Lutar, falava tão bem do nordeste, e tinha ainda a Asa Branca, do Luiz Gonzaga, que a gente gosta tanto…

E fizeram (Gil, Torquato e Vandré), numa daquelas noites, Rancho da Rosa Encarnada, que podia ser uma apresentação do novo grupo, mas foi desclassificada no Festival de Excelsior: “Vejam quantas coisas novas vamos contar/ nas cantigas mais antigas/ que meu rancho da rosa encarnada/ escolheu para cantar”.

Com outro parceiro baiano, Fernando Lona, e outro rancho, ele venceu o Festival: “Olha que a vida tão linda se perde em tristezas assim/ Segue teu rancho cantando essa tua esperança sem fim” (Porta-Estandarte).

Foi quando as coisas começaram a se tornar mais fáceis. E rápidas. Depois do Festival foi contratado pela Rhodia para fazer uma excursão ao nordeste. Já conhecia o bateirista Airto (do Sambalanço Trio), o violonista Theo e o guitarrista Heraldo, e resolveram formar um trio – O Trio Novo – para acompanhá-la na excursão. Na volta, incorporaram também o flautista Hermeto e mais o Trio Marayá, com quem Vandré já tocava, e o som ficou completo.

Entre uma coisa e outra, precisava mandar uma música para o segundo festival de 66, da Record, e lembrou-se de uma letra enorme que tinha feito numa viagem. Levou-a a Theo para que ele musicasse. Saiu Disparada, inscrita sem o subtítulo: Moda para Viola e Laço.

Finalmente, parecia chegada a sua hora e vez de fazer sucesso. Outro problema que ainda o afetava – a perda de voz nas apresentações mais difíceis – desapareceu depois dos êxitos seguintes.

Ele venceu o Festival da Record, empatado com A Banda, de Chico Buarque. E, no Rio, ficou em segundo lugar com O Cavaleiro, feito em parceria com a cantora e compositora Tuca.

Isso era muito mais do que podia sonhar o obstinado candidato a cantor, e parecia também estar além da magia dos números. A verdade é que, juntando-se a dois conjuntos de formação original – o Quarteto Novo e o Trio Marayá –, Vandré estava criando algo novo na música popular brasileira.

Uma espécie de bossa nova nordestina saía da instrumentação moderna do grupo que alternava as formações mais estranhas, partindo de um esquema simples: viola, violão – às vezes elétrico –, flauta, piano e percussão. (Esta, sempre a mais variada possível. Numa viagem a Santo André, em São Paulo, Airto descobriu uma queixada de burro na casa de um fabricante de instrumentos de percussão e a incluiu na apresentação de Disparada, semeando sucesso e imitadores).

Mas os números não mentem jamais e, se 66 tinha sido ótimo para Geraldo Vandré, 67 não seria uma soma agradável. Ele teria ainda um bom trabalho no início do ano com os dois conjuntos, e o compacto simples Arueira e João e Maria entrou na parada de sucessos. Os sonhos, porém, começavam a ser destruídos.

Conseguiu levar ao ar um programa de TV próprio – Disparada – na TV Record, de São Paulo. Tinha a montagem do diretor de cinema Roberto Santos, o mesmo para quem Vandré havia feito a trilha sonora de A Hora e a Vez de Augusto Matraga, em 65. Mas, as apresentações duraram apenas um mês.

Novos festivais e igual número de derrotas. Ventania recebia vaias e uivos no Festival da Record: era música “muito complicada e barulhenta”, diziam seus críticos. Falavam contra a buzina de caminhão que ele usara para reforçar a letra (“eu já fui até soldado/ hoje, muito mais amado,/ sou chofer de caminhão”). E De Serra, de Terra e de Mar, no II FIC, percorreu menos acidentes geográficos que previam seus versos. Derrotas e separações: deixou o Quarteto Novo, que passou a acompanhar outros cantores. E também a mulher, Nilce. No início de 68, estava só com o Trio Marayá.

Antes da Semana Santa, porém, convidado pelos padres dominicanos de São Paulo, recomeçou a trabalhar. Compôs a trilha musical e os versos da Paixão Segundo Cristino, que apresentava de forma diferente a crucificação de Cristo: “Respondo pela memória na história desta paixão que aos santos já deu a morte e aos vivos deixou a sorte de coisa pior que a morte – Senhor, a vida na escravidão”.

De volta, o cantor e compositor esquecido. E novos caminhos. Um programa de TV – Canto Geral, depois Canto Permitido – na Bandeirantes, de São Paulo. Um festival de canções de protesto da Bulgária, um prêmio como intérprete. E de novo nos estúdios de TV, agora na Globo, de São Paulo, para preparar a apresentação de Caminhando.

Depois do grande sucesso da música, uma briga com o Trio Marayá, outro show e novamente músicos diferentes. Em Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores – pouco mais de um mês de exibição no Teatro Opinião do Rio – Vandré apresentava o Quarteto Livre: Naná (tumbadora), Franklin (flauta), Nélson Ângelo (violão) e Geraldo Azevedo (violão e viola).

A fita, deixada num gravador, cantava a nova despedida. O recomeço, o fim e o princípio: “Vou me embora/ Não chore não, amor, eu volto…”

 O QUE SOU NUNCA ESCONDI

No princípio, era dia 12 de setembro de 1935, em João Pessoa, na Paraíba. Nascia o primeiro filho, neto e bisneto da família Pedrosa de Araújo Dias. Cercado de cuidados em casa, Geraldo preferia brincar na rua com os outros meninos: jogo de futebol, vidraças partidas, galinheiros assaltados e muitas outras reclamações.

Castigos severos: era uma família burguesa e conhecida – o pai, Dr. José Vandregísilo, o primeiro otorrinolaringologista da região. E a volta à rua. Um brinquedo novo: mocinho e bandido. Como sempre, as ordens vinham do magro Geraldo, o menino que tinha boa voz e sabia comandar a meninada.

Como os outros, também as primeiras namoradas. Uma delas era encarregada de guardas suas bolas de gude. E cartas, muitas cartas. Geise, a irmã caçula, interceptou uma resposta: “Geraldo, você é o pré-histórico que habita a caverna do meu coração”.

A frase se tornou irônica e valeu muitas brigas. Vandré acabou interno, no tempo do ginásio: era, além de levado, mau aluno. Foi para o interior de Pernambuco – Nazaré da Mata – e lá parece que descobriu outras diversões. Ouvia cantadores das feiras e chegou a participar de alguns festivais de canto no colégio. O que guardou desse tempo, mais tarde apareceu em sua voz. Cantava de longe, um som distante. E também sabia das músicas. Eles podiam ficar um dia inteiro improvisando, a música fazendo parte de tudo, da vida, do trabalho, sem começo, sem fim.

Mas, o menino Geraldo está de novo em João Pessoa. Num canto da casa, debruçado no velho rádio, meio acordado, meio sonhando.

– Ao soar o carrilhão batendo as doze baladas… ao se encontrarem os ponteiros no meio-dia…os ouvintes do Programa Luís Vassalo encontram-se também com sua majestade, o Rei da Voz, Francisco Alves.

A mãe chega perto com uma pergunta, mas sabe que não pode interromper. Espera um pouco e fala.

– Meu filho, o que você quer ser quando crescer?

A resposta vem muito rápida:

– Cantor de rádio.

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