Gay, mulher e formiga

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Por Xico Sá

Das pequenas questões da natureza masculina: por que homem gosta menos de doces, sobremesas etc., do que as mulheres?

Certamente não é pelo medo de engordar ou avariar os caninos. Como não existe, creio, literatura científica para discutir o assunto, vamos correr solto para tentar compreender  fenômeno.

Macho que é macho não bebe o mel, mastiga as abelhas, já falou um Zaratrusta da Silva qualquer. Não deixa de ser um bom começo de explicação, pedagogia do pau-na-mesa.

Despencando ladeira abaixo, para a sociologia dos costumes, damos de cara com “Açúcar”, de Gilberto Freyre. É o grande trabalho nacional do doce, embora a prosa bem corrida seja abalroada por expressões pedantes e viadosas como “simbiose eurotropical” e outras franguices ou baitolagens do gênero. (Um parêntesis para a defesa do mestre de Apipucos: como disse Nina Horta outro dia, o cabra precisa ser muito macho para escrever um livro com receitinhas de doces e bolos, em pleno Nordeste de 1939, como fez o homem de Apipucos.)

Ao lê-lo, o menos chegado dos homens pega a sua amada pelo braço e desaba para a mais farta banca de doces da cidade de São Paulo: aquela montada aos sábados na praça Benedito Calixto. Para encontra-la basta ir em direção a uma roda de choro e samba que fica bem no centro da feira. Lágrimas como guia.

O melhor do local, para quem não é mesmo chegado ao deleite, é observar o semblante de culpa (pura tolice) das gazelas que se deliciam com uma ambrosia, uma barriga de freira e outros prazeres do velho, bom e claustrofóbico Portugal. Como são belas as mulheres culpadas, a conferir na vitrine mais próxima, sem necessidade, as silhuetas.

Largando a sociologia de lado, voltemos pra baixaria propriamente dita, para tentar descobrir uma explicação sobre o nosso desgosto diante dos doces.

Pereira, consultor pansexual deste ignorante que vos fala, tem a resposta. Para o nosso monstro, doce é coisa apenas para três espécies de criaturas desse mundo: gay, mulher e formiga. E pril.

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