Gastando o latim

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Por Millôr Fernandes

Bem, fiquei calado mais ou menos duzentos anos, na esperança de que algum latinista, algum erudito, aparecesse para corrigir Inácio de Alvarenga. Como todo mundo sabe, está na história, está nos autos da Inconfidência, reuniram-se, em casa de Tomás Gonzaga, além do próprio, o Dr. Cláudio Manuel da Costa, Inácio de Alvarenga e o padre Corrêa de Toledo.

Nessa reunião, o grupo discutiu a já muito discutida questão da bandeira da nova República, e Cláudio Manuel da Costa, que já tinha feito uma proposta de bandeira, insistiu nela: a figura de um gênio quebrando seus grilhões com a inscrição: “Libertas aequo spiritus”.

Alvarenga lembrou então que essa proposta já tinha sido feita numa reunião em casa de Frederico de Paula, mas que nem mudando a legenda para “Aut libertas aut nibil” o pessoal tinha topado.

Naquela mesma reunião o alferes Tiradentes tinha feito outra proposta: uma bandeira com um triângulo representando a Santíssima Trindade.

Ele próprio, Alvarenga, sugerira que se juntasse ao triângulo o verso de Virgílio: “Libertas quae sera tamen”, e a proposta tinha sido aprovada.

Nesta reunião aconteceu o mesmo – todos acharam a idéia muito bonita. E a bandeira da insurreição ficou sendo, definitivamente, essa.

Pois desculpem, amigos, a idéia não é boa e o latim é péssimo. Eu, que sempre achei a frase “Liberdade ainda que tardia” uma proposta completamente furada, resolvi, um dia, com minha total descrença na história e nos historiadores, ir diretamente à fonte da frase: Virgílio. E, como não podia deixar de acontecer, a frase estava errada. Inácio de Alvarenga citou de memória, ninguém foi à fonte (nem na hora, nem até hoje, duzentos anos depois), e o erro se perpetuou.

A frase de Virgílio deveria ser “Libertas: quae sera”. Ainda assim furada, porque queria dizer: “Liberdade: que tardia”. Como está na bandeira, “Libertas quae sera tamen”, é um saudável bestialógico: “Liberdade: que tardia, todavia”.

Bem, mas como não sou latinista, é melhor reproduzir o próprio original pro pessoal aí não começar com discussões inúteis. Como sabem os que já leram as Éclogas de Publius Virgilius Maro, mais conhecido como Virgílio, logo no início da primeira écloga, dois personagens se encontram, Melibaeus e Tityrus, este indo a Roma comprar sua liberdade. O diálogo:

Melibaeus – Et quae fuit tibi tanta causa vivendi Roman? (E qual foi, para ti, a causa tão premente de vir a Roma?)

Tityrus – Libertas: quae sera, tamen respexit inertem; postquam candidior barbacadebat tondenti; etc. (Liberdade: que tardia, todavia (tamen) ainda me alcança em minha inatividade, quando a barba já me cai embranquecida.)

Como vêem os leitores, o tamen nada tem com a primeira parte da frase, escolhida por Alvarenga. O que me permite repetir, mais uma vez: “A história é uma istória!”

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