Foder não é lá essas coisas

0

Por Xico Sá

Dia desses, dentro de um cabriolé de luxo que nos levava para um evento do calendário pop da cidade de São Paulo, cutuquei a memória do inimitável homem de qualidade Tom Zé. Queria puxar na caixola por uma velha crônica de sua autoria que tratava da inusitada reflexão de um mancebo de Irará sobre as primeiras conjunções carnais. Otto, também passageiro, nem se buliu.

– Rapaz, é Zé Pequeno! – saltou Tom Zé.

– Como é mesmo a história? Eu sei que o menino dizia que foder não é lá essas coisas que todo mundo diz…

Enquanto exercitava a goela, qual um sapo que salta de um poema de Manuel Bandeira (“foi, não foi, foi, não foi”), Tom Zé rebobinava os anais de Irará:

– Isso mesmo. Naquele tempo, todo mundo tecendo Ioas à primeira vez, às primeiras transas, e aí vem Zé Pequeno, com uma sinceridade danada, e diz que comer moça num é lá essas coisas todas! – narrava o autor de “Sofro de juventude”, diante do olhar-retrovisor da bela Neusa, sua companheira, sina e sorte, que viajava uns palmos adiante.

Contra vento e maré, a reflexão do mancebo baiano, pensata correta perante o desacerto das metidas inaugurais do ser, cai como um meteorito de sabedoria sobre estes papiros. Quantos de nós, Zé Pequenos de noites de sábados, sofremos diante da obrigatoriedade?…

O nosso rápido fastio diante do melhor dos mundos?… Talvez uma certa preguiça de prazer e amor. Um Zé Pequeno que irrompe d’alma, tantas mil varas depois, para “inguiar”, vomitar, tal filhote de urubu, ainda no ninho, entre locas de pedras, quando avista gente branca curiosa.

Mas falamos de uma situação muito passageira, rapidíssima, uma náusea que nem chega a sartreana, uma repulsa que não se filia às doenças de Polansky, um naco de quase nada… Agonia de segundos. No mais, se demora a agonia, meus caros, poderemos dizer que o camarada se “androginou”, como no decassílabo de hormônios de um velho samba do meu tempo.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here