Flores do inverno

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Por Edney Silvestre, de Nova York

Tenho uma proposta para o governo brasileiro. Ocorreu-me durante uma das (muitas) tempestades de inverno de 1994, enquanto caminhava com neve pelo meio das pernas, o vento fustigando meu rosto e congelando minhas pobres orelhas desprotegidas, a caminho de um dos três metrôs que fui obrigado a tomar para chegar ao destino que pretendia e para o qual já estava atrasado.

Táxi? Nem pensar. Os poucos que se arriscavam a circular pela grossa e escorregadia massa traiçoeira que fizera de ruas e calçadas um único tapete ainda branco (logo viraria uma gororoba marrom) estavam ocupados. Ou mais à frente ficariam atolados, como aconteceu com centenas de outros veículos, provocando um gargantuesco engarrafamento que travou Manhattan & adjacências. Para não mencionar as incontáveis batidas que fizeram a felicidade das oficinas de lanternagem em Nova Jersey.

Pois lá ia eu, me sentindo um bravo esquimó, a caminho de uma entrevista com Paul Newman, quando vi uma cena na Bleeker Street que me surpreendeu. E me chocou, também, por mostrar como se pode ignorar – não por descaso, gostaria de crer, mas por se estar mergulhando nas próprias mazelas – situações tão mais árduas que atravessam as outras pessoas que se conhece de todos os dias e de outras estações do ano. Na verdade, creio que fiquei mesmo foi envergonhado com meu próprio auto-envolvimento até aquele momento.

Já saíra do acolhedor aquecimento de meu apartamento (o boiler novo do prédio é impecável) um tanto ambíguo. É óbvio que eu queria aquela oportunidade com Paul Newman. Seu acedimento fora uma surpresa inesperada, sabia que ele virava a noite filmando no norte do estado, não dormira, entrara num carro e descera até Nova York por estradas ainda mais atoladas de neve que nossas ruas.

Não por minha causa, lógico: pelos irmãos Cohen, autores e diretores do filme The Hudsucker Proxy, onde nem tudo funciona, mas Newman dá um show de comicidade e vilania que deixou de queixo caído quem (como eu) tem dele uma imagem de coroa-bonitão-sem-pecado. Mas isso já é outra história.

Sim, eu queria a entrevista, queria conhecer o mito (ao contrário do que afirma Leonardo Laginestra, não tenho distanciamento olímpico deles; apenas gosto de xeretar seus lados menos conhecidos). Mas tinha que ser com aquele tempo? Com aquele frio? Sob aquele vendaval ártico? Justo na semana em que 130 milhões de compatriotas se escarrapacham pelas praias ou se entregam ao hedonismo bacanálico ao som de cuícas e tamborins?

Foi em meio a essas lamúrias que dei de cara com José.

Para explicar José vou ter que enveredar na transformação das delicatessen nova-iorquina a partir dos anos 70. Serei breve. Seguinte: as delicatessen eram pequenas lojas de frios, em geral de propriedade de comerciantes judeus recém-emigrados do Leste europeu. Com o tempo – e o progresso econômico de seus descendentes –, os (agora) velhinhos se aposentaram, foram morar na Flórida ou na casa de algum neto, e tiveram o negócio comprado por uma outra leva de imigrantes: os coreanos.

Os novos proprietários mantiveram as bancas de frios, mas foram acrescentando outros produtos (frutas frescas, pães & biscoitos, laticínios, enlatados, bebidas, comidas congeladas) até virarem o que são hoje: minimercados, abertos 24 horas por dia. Os nova-iorquinos, que no princípio lamentaram a descaracterização de uma tradição da cidade, acabaram por descobrir suas vantagens. E gostaram mais ainda da invenção que os asiáticos colocaram do lado de fora: flores. Bonitas, frescas, de toda espécie e cor, sempre mais baratas que nas lojas especializadas. É uma visão encantadora, a qualquer hora do dia ou da noite. E particularmente ainda mais sedutora neste momento, quando toda Manhattan está branca, cinza e preta como no filme de Woody Allen.

Como ficam do lado de fora (ás vezes protegidas por trás de grossos plásticos transparentes, outras dentro de estufas de vidro), alguém tem que tomar conta delas. Como não é um trabalho que requeira habilidades especiais, paga pouco. Como paga pouco, nenhum americano quer fazer. Sobra para o imigrante que está na parte mais baixa da pirâmide, precisa de qualquer emprego e aceita de bom grado a oportunidade de começar a construir o seu American dream.

José é um deles.

Veio de um povoado do norte do México, tem uns vinte anos, aluga uma vaga no Bronx com outros imigrantes de seu país e garante que tem permissão de trabalho. É dele – ou de outro mexicano que também afirma chamar-se José – que compro forsítias no início da primavera, babybreaths no verão, lírios no outono e tulipas nesta estação. Trocamos poucas palavras entre um ramo e outro, ou porque seja tímido, ou porque me ache com cara de oficial da Imigração, ou porque eu esteja sempre apressado, sempre me acreditando a caminho de alguma coisa.

José & José passam o dia por trás de uma cortina de plástica, sem aquecimento, num espaço menor do que essas cabines que os ricos de São Conrado instalaram na entrada de suas ruas. As flores, porém, ficam dentro de suas estufas de vidro, onde a temperatura nunca é abaixo de dezoito graus.

Eu nunca tinha notado. Ou melhor: sempre tinha visto e nunca tinha registrado. Até este preciso momento em que, no meio da minha ranzinzice egocêntrica, dei de cara com a cena: José abrindo uma das janelas da estufa, por breves minutos, aquecendo-se apressado, logo voltando para sua desaparelhada cabine de plástico. A temperatura, aliada ao fator vento, estava pelos dez graus negativos.

No mesmo instante me lembrei dos alugadores de cadeiras de praia que vi dezembro passado, em frente ao Hotel Caesar Park de Ipanema. Refestelados nelas, tomando sol, com copos de cerveja na mão, desfiavam um rosário de reclamações contra a corrupção e a pouca-vergonha nacional. Um deles concluiu que “este país não tem mais jeito”. Os outros três concordaram.

Daí me veio a ideia que agora proponho ao governo brasileiro.

Mandem essas pessoas para cá. Não especificamente essas e não apenas elas. Financiem a vinda de cada homem, mulher ou criança que acredite que uma nação se constrói sozinha ou é responsabilidade dos outros, enquanto nós mesmos nos tostamos languidamente sob um complacente céu azul. Ou rebolamos ao som de cuícas e tamborins.

Exijam apenas que passem aqui as quatro estações do ano e, expressamente, um inverno inteiro. Depois, se assim o quiserem, podem voltar.

Minha proposta, acreditem, é séria.

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