Flanando em Paris

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Data: 26/09/1985 - Escritor José Carlos Oliveira - Editoria: Cultura - Foto: Gildo Loyola/Neg.10243 - Jornal A Gazeta - CULTURA - Literatura

Por Marcos de Vasconcellos

O cronista José Carlos Oliveira inaugurava-se Paris, primeira viagem. Prevenido, ainda no Rio, dia do embarque escolheu seu cicerone que, mesmo à distância, o orientaria na descoberta dos mistérios da capital da Europa: Aloysio Salles, cuja alma de grand seigneur abriga uma notável percentagem de genuíno parisiense.

Encantado com a missão, Aloysio deixou-se agarrar pelo Carlinhos e, tratando-lhe o braço, abandonou as coisas terrenas para sonhar Paris com o escritor aspirante à cidade. E dedicou toda a manhã, o almoço, meteu-se tarde adentro a desfilar, carro aberto, pela Rive Gauche, certamente o destino da boemia cultural do Carlinhos que lá pelas cinco horas, repleto de informações, ia, nos intervalos da fala interminável de Aloysio, tentando encaixar uma despedida, pois precisava fazer as malas e ir para o aeroporto.

Aloysio, inesgotável:

– Abandone os hotéis ordinários, desses anunciados em guias de viagem. Recomendo-lhe o Grand Hotel de L’Univers, é próprio para seu gênero. Ocupe a mansarde – desça a Rue Gregoire de Tous e dobre à esquerda, Rue Buci. Lá, compre um molho de flores silvestre, contorne o quarteirão e caminhe pelo Boulevard Saint Germain até topar, na outra margem com a Brasserie Lipp. Persigne-se, atravesse, e, com o pensamento em Deus, peça un blanc sec.

Em plena rua Barata Ribeiro, perseguindo pelos gritos do Aloysio – Espere! Espere! Há mais! –, Carlinhos fugiu, precipitou-se para o apartamento, fez as malas de qualquer maneira, voou para o aeroporto. Por um triz não perdeu o avião.

Paris! Refeito imediatamente da diferença das horas, dada a excitação da chegada triunfal, o escritor iniciou a missa rezada à distância pelo amigo: desceu a Gregoire de Tours, comprou as florezinhas na feira da Rue Buci, desembocou no Boulevard, caminhou contrito para a Brasserie Lipp e encantou-se ao ver que a casa estava justamente onde o Aloysio anunciara, com precisão.

Sentou-se, colocou as flores num verre d’eau, imitando a providência de um cidadão ao seu lado, que também mamava um blanc sec enquanto lia o Figaro que lhe ocultava parte do rosto.

Un blanc sec! – ordenou Carlinhos, com intimidade de nativo.

O vizinho de mesa parece que lhe reconheceu a voz, pois baixou o jornal e revelou-se: Aloysio Salles!

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