Fim de uma era

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Por Luís Fernando Verissimo

Gostamos de ler a História como uma narrativa literária, pontuada por cenas simbólicas e epifanias – e se forem desastres, melhor ainda. Tipo “a Idade Clássica terminou no incêndio da biblioteca de Alexandria” ou “o século 19 acabou mesmo com o naufrágio do Titanic”.

Vivemos atrás do significado maior de qualquer de qualquer coisa que resuma uma época ou uma quebra na narrativa, seja a dança da bundinha ou o baile da Ilha Fiscal. (Tenho um amigo que data o começo da confusão de valores dos nossos dias da primeira vez que o papa posou com um cocar de índio na cabeça.)

Os leitores do futuro talvez elejam como um destes momentos maiores do que se pensava a aprovação no Senado do fim de boa parte dos compromissos sociais nos nossos contratos de trabalho, há poucos dias.

Dirão que foi um momento histórico porque – assim como século 19 já tinha cronologicamente acabado 12 anos antes do Titanic levar todos os seus mitos para o fundo – só então, mais de quarenta anos depois do suicídio de Getúlio, a Era Vargas acabou mesmo no Brasil.

Algum maldoso pode sugerir que a votação foi histórica, também, porque, assegurou ao presidente da República o único cumprimento integral, até ali, de uma das suas promessas de campanha.

No futuro observarão que acabaram com o melhor legado da Era Vargas, apesar dos seus defeitos paternalistas e das suas deturpações, que era a legislação social, retocada pela Constituição de 88, enquanto triunfava no país o pior exemplo da Era Vargas, o estilo de governar pela manipulação de opostos e alianças heterodoxas, que na má imitação virou pseudo-esperteza e rendição à oligarquia.

Até a tirania da simpatia sob a qual vivemos com o Michel Temer é parecida com a de Vargas. Felizmente, as semelhanças terminam aí e Michel Temer não parece sofrer de nenhuma tentação totalitária. Salvo na forma branda do continuísmo.

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