Fernanda Pessoa e o resgate do cinema erótico nacional

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Existem várias maneiras de abordar de forma crítica um período histórico e a diretora Fernanda Pessoa, em seu filme de estreia como cineasta, escolheu uma forma bem peculiar de retratar o status quo do Brasil na década de 1970. A cineasta resolveu lançar luz em um dos gêneros mais repelidos e, paradoxalmente, populares do cinema nacional para traçar um retrato do país naquela época, tratando da repressão promovida pelo regime militar, da revolução de costumes experimentada pelas mulheres, do racismo, das relações entre classes sociais distintas, do êxodo rural e do milagre econômico através de cenas de dezenas de filmes da pornochanchada.

Selecionado para a Mostra Aurora, principal seleção competitiva da Mostra de Cinema de Tiradentes, o longa-metragem Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava foi um dos mais elogiados do festival mineiro e ressignifica o cinema erótico nacional de forma brilhante, graças a um grande trabalho de pesquisa e montagem.

Em entrevista para o AdoroCinema, a diretora Fernanda Pessoa falou sobre o ousado longa-metragem, explicou porque usou o termo “pornochanchada” entre aspas e adiantou detalhes sobre seu próximo projeto nos cinemas.

Como foi apresentar seu filme para centenas de pessoas em um festival como a Mostra de Tiradentes?

Eu senti que com o público o filme foi muito bem recebido. A sessão em si foi um teste. A gente já tinha feito sessão com poucas pessoas, para amigos e pessoas que a gente sempre consulta. Em Tiradentes foi melhor do que a gente estava imaginando porque as pessoas riram muito, ficaram até o final, conseguiram acompanhar bem e a gente entendeu que apesar do filme ter uma pegada mais experimental, de ser um filme de montagem, ele tem uma narrativa que guia o espectador até o final. Ele é muito acessível apesar da proposta parecer não ser. Eu senti que a sessão comprovou isso. Eu quero muito que o filme chegue no grande público. Na verdade, para mim foi muito legal ver que a sessão foi boa porque eu realmente gostaria que as pessoas assistissem esse filme, sabe? Mais do que seguir carreira em festivais eu realmente quero que ele chegue nas pessoas.

Há previsão de estreia no circuito?

Ainda não. A gente ainda não sabe o que vai acontecer com ele. Eu quero muito… Eu vou tentar. Estamos tentando. Se não rolar uma distribuidora, vamos tentar a distribuição, vamos ver o que vai acontecer. Mas de um jeito ou de outro vamos fazer esse filme chegar nas pessoas.

Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava é um filme de montagem. Quanto tempo você levou com pesquisa de material e quanto tempo a edição em si tomou da equipe?

O processo demorou. O filme demorou cinco anos para ficar pronto. Primeiro eu comecei a ir atrás desses filmes [da pornochanchada], ir atrás de todos possíveis. Na verdade primeiro eu levantei uma tabela no Excel com todos os filmes brasileiros produzidos na década de 1970. Depois de preencher essa tabela eu listei ainda os que poderiam me interessar, considerando filmes que foram considerados pornochanchadas na época, filmes que foram esquecidos porque têm essa questão do erotismo.

Consegui achar uns 130 desses filmes via Youtube, Making Of [fórum online de download de filmes, VHS, cinemateca, em todos os lugares possíveis. Fui pesquisando, achei esses filmes e daí comecei a assisti-los e fichá-los. Comecei a fichar tudo que poderia ter de interessante, tudo que aparecia, qualquer coisinha que me revelasse alguma coisa. Fui fazendo isso com todos esses filmes. Desses mais de 100 filmes que eu assisti eu selecionei uns 20 e poucos para a gente fazer um primeiro corte. Depois disso, eu e o Luiz [Cruz], o montador, começamos a decupar esses filmes e dividir em eixos temáticos.

A gente selecionou uns 10 eixos temáticos, começamos a decupar e daí a gente começava a ver que alguns assuntos a gente tinha um pouco mais e em outros a gente tinha um pouco menos de material, como, por exemplo, com o [eixo temático] do êxodo-rural.

Como foi para conseguir os direitos de imagem dos longas-metragens que entraram na montagem do seu filme?

Demorou uns dois anos até a gente conseguir achar as cópias e conseguir os direitos. Conforme a gente ia adquirindo ou não os direitos o corte final ia mudando. Porque as vezes a gente queria muito usar um filme só que ele só existia em cópias muito ruins. Então a gente diminuia um pouco a presença dele. As vezes a gente queria usar um filme, mas o detentor dos direitos queria cobrar super caro por minuto, então nós tirávamos o quanto dava e deixávamos só o que era necessário. Então a aquisição dos direitos foi pautando, muitas vezes, o corte.

Cada vez que a gente mostrava o filme, a gente ouvia pessoas, o corte ia mudando. A gente deve ter feito uns dez cortes, na verdade. Até um pouco antes da gente mandar finalizar o filme, no final do ano passado, o corte estava mudando. Esse é um filme que dá pra mudar eternamente. Se eu quiser pegar ele hoje e mudar, dá pra fazer isso, dá pra mexer nele para sempre. A gente ficou uns três anos montando. Não foram três anos direto nisso porque a gente estava fazendo outras coisas ao mesmo tempo, mas foi um processo de uns três anos.

Você pode dizer qual foi o filme cujo detentor não cedeu os direitos de imagem e entrou na montagem com a tela embaçada mesmo assim?

[Risos] Todo mundo quer saber! Todo mundo fez essa pergunta. Essa foi uma questão recorrente durante o debate [realizado na manhã do dia seguinte à exibição de Histórias Que.. em Tiradentes]. Todo mundo queria essa informação. Mas as pessoas que não quiseram liberar as imagens para esse filme não querem ser associadas a pornochanchada, então vou respeitar esse direito delas. Não quero comprar briga com ninguém. Tô tranquila aqui. Fazer esse filme já foi uma briga enorme, eu não quero brigar mais não [risos].

Você acha que a pornochanchada é um fenômeno injustiçado pela crítica? Logo na primeiras cartela de seu filme é dito que o nome foi dado de forma pejorativa e você escolhe inserir esse termo entre aspas. Por quê?

O fato dele estar entre aspas se deve ao seguinte: Esse termo “pornochanchada” foi usado para descrever um monte de filmes que não tinham nada a ver entre si. Se você for ver, há um conjunto super heterogêneo de filmes. Tem filmes ali que falam sobre tortura, que são super sérios, mas que foram categorizados como um sub-gênero da pornochanchada. O E Agora, José? – Tortura do Sexo, que é um filme que fala muito sobre tortura foi considerado um pornô-político na época. O Noite em Chamas, do Jean Garret, que é um super diretor, é um filme bom, foi considerado um pornô-social. O que eu sinto é que essa palavra “pornochanchada” foi usada para categorizar tudo que as pessoas não queriam nem considerar como cinema de qualidade. Eu acho que nessa leva de coisas que foram chamadas de “pornochanchada” muita coisa se perdeu.

Há muita diferença entre esses filmes. Tem muitos filmes que são muito melhores do que outros. A questão é justamente mostrar que eles são muito diferentes. Tem filme ali que traz uma crítica social feroz. Tem filmes que sim, são machistas, alienados, etc, mas tem filmes que tem coisas interessantes. Então o que eu sinto é que essa palavra “pornochanchada” estigmatizou esses filmes e foi por isso que um dos detentores dos direitos não quis participar do filme por causa do uso específico da palavra “pornochanchada”. Justamente por isso que eu a uso. Primeiro porque ela chama muita atenção, não é? É uma coisa muito contraditória: As pessoas querem falar mal da pornochanchada, mas se interessam em assistir.

Enfim, a gente pode repensar essa noção de que todas as pornochanchadas são iguais. Na verdade não. Tem muita coisa ali dentro.

Se deparar com aquelas imagens de E Agora José? que entraram em Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava – imagens que inclusive mostram instrumentos de tortura e ilustram o que seriam os porões da ditadura – faz a gente se perguntar como tudo aquilo passou batido pela censura.

Esse filme tem uma história muito louca que também fala muito sobre como funcionava a censura. O E Agora José? dirigido pelo Ody Fraga saiu em 1979 e impressionantemente passou ileso pela censura. Muito porque a pessoa que era diretora da divisão de censura na época do filme deixou o filme passar. Isso mostra como a censura também era muito personalizada. A censura não tinha critérios muito objetivos.

Há um outro filme que passou em 1982, que tem um tema parecido com E Agora, José?, o filme Pra Frente, Brasil. Os dois filmes falam sobre tortura a civis que a princípio não tem a ver com a luta armada. Acho que era isso que chocava mais as pessoas naquela época. O filme tinha esse apelo porque mostravam pessoas torturadas que a princípio não tinham a ver com a luta armada e para o grande público isso era muito chocante.

Só que o Pra Frente, Brasil, que é de 1982, foi censurado. É isso. É uma questão muito pessoal. Quem estava na censura em 1982 estava muito mais de olho nisso enquanto quem estava como chefe do departamento de censura de 1989 estava preocupado com outras coisas e acabou deixando E Agora, José? passar. Isso é louco porque o Pra Frente, Brasil acabou se tornando um marco. As pessoas se revoltaram pelo filme ter sido censurado. Enquanto E Agora, José? não foi censurado e acabou passando direto e quase ninguém conhece o filme.

Você teve contato com mais de 100 filmes associados com a pornochanchada. Como você avalia a forma como as mulheres eram representadas nesses filmes? Há em Histórias Que o Nosso Cinema (Não) Contava trechos que inclusive contestam uma acepção comum de que as mulheres eram representadas nos filmes da pornochanchada apenas como submissas.

Para começar essa conversa sobre o cinema feito na Boca do Lixo ser machista ou não a gente precisa falar que o cinema, no geral, é machista. Dizem “Ah, os filmes da Boca do Lixo foram todos feitos por homens”. Sim, mas os do Cinema Novo também. No filme do Eryk Rocha a gente vê que o cânone do Cinema Novo é composto por um bando de homens. Ali as mulheres são objetos do olhar masculino, são musas românticas.

O cinema é um meio machista, nos anos 70 a sociedade era muito machista e eu acho que esses filmes refletem isso. Sim, a maioria dos filmes tem um olhar de objetificação da mulher e eu acho que isso fica muito claro no começo de As Histórias… quando se estabelece essa coisa da ligação do corpo feminino com o milagre econômico, como se esse corpo tivesse um preço, muito forte nas comédias eróticas. Nesse momento fica muito claro essa objetificação da mulher e essa mercantilização do corpo feminino, o que eu é bem chocante.

Mas As Histórias… vai mostrando depois que existem outros filmes que tem personagens femininas super fortes. Há muito a figura da menina do interior que vai para a cidade grande, descobre alguma coisa ali e volta influenciada por essa coisa da revolução sexual.

No filme Aventuras Amorosas de Um Padeiro, que é o filme que tem uma cena em que as mulheres olham para os pedreiros, que é uma cena inimaginável, é uma inversão total… Esse filme, apesar do nome, é sobre a Rita, uma mulher suburbana que casou virgem e agora percebeu que ela fez uma merda com a vida dela. Ela fica grávida e quer abortar, tem um relacionamento com um homem negro — o que também é um assunto que não se tratava tanto naquela época. O diretor desse filme é negro, o Waldir Onofre, um diretor super importante, que precisa ser resgatado.

Então temos os dois lados. A grande maioria dos filmes tem essa questão da mercantilização do corpo feminino que é bem complicada, há um olhar para o corpo feminino que o erotiza muito. Mas alguns filmes da pornochanchada problematizavam isso. O próprio Noite em Chamas tem a personagem da Maria Lúcia Dahl que é uma mulher com um discurso importante. Ela fala: “Eu não me envergonho de ser atriz de pornochanchada porque de qualquer modo, se eu fosse uma jornalista, se eu fosse qualquer outra coisa eu ia continuar sendo um produto”. É isso. Tem essa questão machista muito forte e tem também a problematização desse machismo.

Seu filme traz um trecho de A Super Fêmea, filme que mostra uma passeata onde pessoas carregam uma faixa com os dizeres “Povo feliz é povo desenvolvido”. Como você olha para a representação de pautas relacionadas a política econômica desenvolvimentista do regime militar, na valorização da consumo de alguns dos filmes da pornochanchada?

O meu filme, como eu sempre digo, não é sobre a pornochanchada. A pornochanchada foi um meio que eu usei. O filme é sobre a história do Brasil, sobre uma visão muito específica de Brasil. O filme é sobre o milagre econômico, as consequências diretas do êxodo rural, a expansão das favelas, sobre o que estava acontecendo no Brasil naquele período. A minha ideia sempre foi falar sobre a História do Brasil. Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava não é um filme de homenagem e daí ele também se difere muito de um filme como o Cinema Novo, por exemplo. Eu uso a pornochanchada para falar de uma visão da história do Brasil mostrando o que estava lá, mas certamente ressignificando esses filmes a favor dessa história que eu quero contar.

O assunto do milagre econômico é um assunto muito presente e a gente não imaginava isso. Quando eu comecei a fazer o filme eu não achava que o milagre econômico seria um assunto tão forte como ele é naquelas produções. Eu acho que um dos assuntos principais do filme é essa representação do milagre econômico, essa idealização do milagre econômico. Como se isso fosse legal, como se isso fosse dar certo… Esse ideal de ascensão consumidora da classe C, que era uma coisa que eles queriam promover. Enfim, é um assunto que está lá, muito forte, e eu acho muito interessante. Tem poucos filmes que falam sobre milagre econômico. Eu percebi que nessa junção era possível entender um pouco mais sobre esse assunto.

Para uma audiência dos dias de hoje, talvez os filmes associados a pornochanchada tenham um humor quase involuntário. Além disso, chama a atenção a precariedade técnica de alguns aspectos, como captação de som, etc. Entretanto, a sessão de Histórias Que o Nosso Cinema (Não) Contava serviu para lançar luz em algumas das qualidades dos longas do gênero, como a trilha sonora, muitas vezes ótima. Com base na sua pesquisa, o que você destaca de mais valoroso entre os longas produzidos nesse período?

É essencial falar da trilha sonora porque a trilha sonora é muito boa. O meu filme tem Kraftwerk, Gal Costa, música clássica… Tem muita música clássica porque não precisa pedir os direitos, não é? Então isso é muito sintomático do baixo orçamento que eles tinham. E também tem outra coisa. A questão dos direitos autorais era diferente naquela época. Eles usavam músicas dos Beatles nos filmes da pornochanchada. O cara não adquiriu os direitos das músicas dos Beatles, né? Isso seria impossível. Tinha uma liberdade muito maior nesse sentido. A gente fica muito engessado hoje porque tem que pedir os direitos pra tudo e aí fica mais complicado de conseguir usar essas trilhas.

Eu acho que tem vários diretores de fotografia muito bons na pornochanchada, principalmente os da Boca do Lixo. O Snuff – Vítimas do Prazer, que é um filme do Cláudio Cunha, tem a direção de fotografia do Roberto Buzzini, que apresenta uma fotografia muito boa. É realmente muito boa. Depois ele fez a direção de fotografia do Oh! Rebuceteio, que é um clássico do cinema explícito, que também é dirigido pelo Cláudio Cunha.

Alguns desses filmes tem planos muito ousados. O Palácio de Vênus tem planos muito ousados. O tipo de trabalho de câmera que eles estão fazendo ali é algo que por si só já mereceria que as pessoas vissem esse filme. Tem um texto da Andreia Ormond, do site Estranho Encontro, no qual ela fala que se os cineastas brasileiros olhassem mais para os filmes da pornochanchada eles conseguiriam encontrar soluções diversas para várias questões. Ali tem tudo. Eles não têm esses problemas em relação a onde botar a câmera. É muito inventivo. Como linguagem cinematográfica, acho que há vários filmes desses que são bons. Eu sinto que o roteiro é uma coisa muito mais difícil para vários deles. Talvez até porque tinha essa questão de ter essa exigência de ter cenas eróticas e de sexo, as vezes eu sinto alguns filmes tem premissas boas, mas como gasta-se muito tempo com essas cenas eróticas o roteiro não se desenvolve tão bem. Na pornochanchada há muitas ideias muito boas. A própria ideia do Snuff é muito boa. As Aventuras Amorosas de Um Padeiro também. Tem vários filmes que partem de uma premissa muito interessante.

Para finalizar, quais são seus próximos projetos?

Eu estou começando a montar agora o meu segundo longa-metragem, que também vai ser um documentário. Será um pouco diferente porque eu acho que eu não consigo fazer um documentário tradicional. É um documentário sobre a volta do conservadorismo que nós estamos vivenciando agora. É um filme que fala sobre… É o seguinte… Vou explicar bem rápido porque ele é… Ele é complexo.

Quando eu tinha 15 anos eu fiz intercâmbio numa cidade que se chama Mesa, no Arizona, nos Estados Unidos. Essa cidade foi considerada a cidade mais conservadora dos Estados Unidos por um estudo que a UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) e o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) fizeram. Eu fui para lá há 16 anos. Duas semanas depois que eu cheguei tiveram os ataques de 11 de setembro e eu vivi as tensões do momento lá.

Em setembro de 2016, ou seja, dois meses antes das eleições que levaram o Trump ao poder, eu voltei para Mesa com uma equipe bem pequena e fui tentar entender o que quer dizer ser aquela a cidade mais conservadora dos Estados Unidos. Eu fui entrevistar pessoas que fizeram parte da minha vida e muitas delas votaram no Trump. Minha tentativa era mesmo entender o pensamento delas porque eu sinto que a gente precisa muito compreender esse inimigo. Quem são essas pessoas? Qual é o raciocínio delas? Por que faz tanto sentido para elas votar no Trump?

Isso racionaliza o debate, não é?

A gente fica vendo vídeos da TV Folha e dando risada dos caras, mas os caras estão no poder, sabe? Os caras estão aí e é muito sério. A gente não pode ficar dando risada dos caras que pedem intervenção militar. Isso é muito sério. A gente precisa entender e conseguir desconstruir isso. Não estou falando nem que “Ah, temos que ter um diálogo”. A gente tem que entender e desconstruir.

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