Entenda o que diz a resenha de um filme antes de sair de casa

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Cena do filme Taxi, do diretor iraniano Jafar Panahi

Por Edson Aran

Você resolve pegar um cineminha, dá uma olhada no jornal e lê: “Obra singular e desmistificadora que, apesar das citações engajadas, guarda um nonsense imagético tipicamente almodovariano”. Tonto, você pergunta aos seus botões: “Que cazzo é isso?!”. Como os botões não respondem (botões são muito mal educados), você vai pro cinema e quebra a cara. Este breve guia foi criado para ajudá-lo a se orientar na hora de ler a resenha. Não é uma obra definitiva, claro, pois a crítica, sempre inventiva, enriquece o vocabulário todos os dias. Mas dá pra livrar sua cara na hora de encarar o próximo filme.

Almodovariano – Mulheres histéricas gritam e correm de um lado para o outro em permanente tensão pré-menstrual. No cenário tem muito vermelho, muito amarelo. Peraí… isso não é o programa da Hebe Camargo?

Anticlímax – Quando todo mundo pensava que o mocinho levaria a mocinha ao orgasmo, ele deu as costas e saiu de cena, enquanto os letreiros subiam.

Burton; Tim – É a mesma coisa que o David Lynch, só que batido com sorvete de baunilha.

Capra; Frank – Sejamos bons, puros e honestos que o Senhor, que tudo vê, garantirá o hamburger e a Coca-Cola nossa de cada dia.

Cinema de Arte – Cada cena dura, na média, 10 minutos. E a câmera faz de conta que não é com ela.

Cinema Iraniano – É a mesma coisa que neo-realismo italiano, só que sem humor e nenhum dente na boca.

Cinema Novo – Pôrra, essa merda tá fora de foco!

Citação – Hmmm… eu já não vi essa cena antes num filme do Hitchcock?

Consistente – Não desmancha ao primeiro olhar. O que não quer dizer que a coisa resista a uma revisão. Ex: A obra do Brian De Palma é muito consistente.

Cult – Todo mundo tem um, a diferença é o uso que se faz dele.

Desmistificação – No meio do filme, o Tiradentes chega pro Aleijadinho e pergunta: “É verdade que na noite de Vila Rica você é conhecido como Aleijadérrimo?”

Engajado – O cara nasceu no Leblon, mas fome e latifúndio no nordeste sempre foram bom assunto.

Establishment – Mesmo que mainstream.

Expressionismo Alemão – A iluminação pública é péssima e todo mundo trabalha em estatal.

Felliniano – Gozado, na minha rua tinha uma gorda esquisita igualzinha àquela.

Fetiche – O diretor adora mulher de quatro com roupa de couro. Vai dar cadeia ou acabar em processo.

Glauberiano – Um cangaceiro abre a sombrinha e começa a dançar frevo na caatinga. E o índio nu, simboliza o quê? O primitivismo tropical revolucionário, o atraso secular terceiro-mundialista ou foi problema de verba com o figurino?

Hitchcockiano – O colar é a pista para que ele perceba que a ruiva é a loira ressuscitada. Um gordo segurando um gato aparece nos momentos mais inusitados. Uai, parece até que são dois filmes em um, não parece?

Humano e perturbador – O filme é tosco, foi rodado na periferia e todo mundo se comunica num dialeto básico de quatro palavras: “mano”, “mina”, “cano” e “truta”. Se for absolutamente mambembe, o filme ganha o reforço do advérbio e é descrito como “profundamente humano e perturbador” nas peças promocionais e na crítica especializada – mas tem diferença?

Iconoclasta – Um desmistificador com mania de grandeza.

Imagético – O roteiro não faz nenhum sentido, os diálogos são indigentes, mas aquele pôr de sol renascentista, hein? Parece até pintura. Aliás, por que o diretor não vira artista plástico logo de uma vez?

Irregular – A primeira hora de filme é boa. A segunda foi remontada pelo produtor para agradar o público do Arkansas.

Lynch; David – É igual ao Frank Capra, só que apanhava da mãe quando pequeno.

Mainstream – O mesmo que establishment.

Melodramático – Qualquer coisa na qual o Spielberg mete a mão. Ou melhor, os pés pelas mãos.

Mistificação – Então quer dizer que depois de tentar invadir Cuba e de encher o Vietnã de mariners, o Jonh Kennedy pretendia virar pacifista? Arrã… então tá.

Nonsense – No meio da missa, a mulher tira um peixe da bolsa e põe na cabeça, enquanto o padre começa a dançar frevo e falar em japonês.

Nouvelle Vague – É que nem bergmaniano, só que o pessoal fuma mais, bebe mais vinho e come mais queijo.

Overacting – Alguém, por favor, dê um tiro no Jim Carrey.

Politicamente Correto – O cara não confia no próprio talento e só se segura fazendo média.

Postura – A obra em si é uma porcaria. Mas sabia que o autor foi torturado no Doi-Codi?

Referencial – Ele precisa ficar dizendo toda hora que leu o Pasquim e que bebeu com o Vinícius?

Remake – Pra quê pagar autor, roteirista, essas coisas? É só pegar um trash dos anos 50 e refazer com efeitos especiais de última geração.

Revisão – Pensando bem, numa perspectiva histórica, o Victor Mature era bem melhor que o Schwarzenegger, não era não?

Singular – Bom não é, mas a distribuidora levou toda a imprensa pro set em Los Angeles, com tudo pago. Bota aí: singular.

Surreal – É a mesma coisa que nonsense, só que no fundo tem um relógio derretendo.

Tarantino; Quentin – Capricha no ketchup ou eu mando bala, modafóca!

Título – Filme com nome de fruta – O Mamão Macho – é chinês. Mas se for receita exótica – Mamão Macho Frito – é americano independente. Filme com nome de objeto inanimado – O Sapato – é sempre iraniano. Mas se o título tiver sujeito – O Ladrão de Sapatos – é italiano neo-realista. Filme com nome de lugar – Estação da Luz – é brasileiro da retomada. Se tiver mulher no meio – A Dama da Estação da Luz – é brasileira também, só que é pornochanchada.

Transgressivo – No meio do filme, o Tiradentes chega pro Aleijadinho e diz: “Não olhe agora, Alê, mas seu nariz acabou de sair…”

Vanguarda – Um troço feito para cinco pessoas assistirem, quatro acharem uma merda e uma entrar na sala errada e não entender nada.

Triers; Lars von – Cenário e trilha sonora é muito caro. Inventa uma teoria aí e abaixa o orçamento, falou?

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