Embolada Junguiana

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Por Xico Sá

É um pouco Paulo Coelho, um pouco Jung, um pouco Kierkegaard – os dois últimos são citados exaustivamente ao longo do texto. Meio Fernão Capelo Gaivota (pela coragem que transmite), meio aquele jovem cobaia de Educação sentimental, de Flaubert (pela angústia de aprender a amar sem mestre e sem método).

Uma misturada dos diabos, por isso mesmo torna-se muito pedagógico.

O livro chama-se Sob a sombra de Saturno a ferida e a cura dos homens, de um tal de James Hollis, Ph. D. do Instituto C. G. Jung de Zurique. Do ramo, o autor ganha a vida dando conferências sobre mitologia, religião e homens.

Saturno, para nós que não sabemos, era o deus romano que devorara os filhos para que os meninos não ameaçassem o seu reinado, não colocassem em risco o poder. O livro fala sobre os problemas com a conquista da maturidade e, claro, como promete a contracapa, “tudo aquilo que precisamos para nos libertar das piores influências do patriarcado”.

Haja mitologia. Tem mais deuses no livro que bustos na Praça do Largo do Arouche, centrão de SP. E se apóia mais em citações do que este complicador que vos balbucia.

Um capítulo chama atenção, em especial, o que trata sobre o nosso relacionamento com os próprios homens. Veja só que o dublê de Jung fala sobre a homofobia: “Por que deveria ele ter medo dos homens, afinal de contas, do seu próprio sexo?”

O nosso James Hollis atribui esse medo à competividade, ao jogo patriarcal do poder.

Ele diz que a camaradagem alcança um bom momento no mundo dos esportes: “Os homens podem se abraçar, dar tapas e segurarem-se uns aos outros, até chorar juntos no vestiário”. As patoladas, como aquela do Aílton em Jefferson, do Tricolor das Laranjeiras, que falem por si.

O livro vai sim para a cabeceira, mas com uma advertência edipiana, escrita com tinta porosa, vermelha, logo na folha de rosto: homem que é homem leva ao túmulo todas as influências do pai, mesmo que ele tenha nos traído tanto, nas noites que mais sonhávamos e carecíamos do colo quente das nossas genitoras.

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