Embaixo do mosquiteiro

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Novembro de 1976. O Teatro Amazonas estava sendo palco da 1ª Mostra de Teatro Cênico do Amazonas, com a apresentação de grupos teatrais dos quatro cantos da cidade.

Como não era uma mostra competitiva, estavam participando do evento desde as famosas companhias Teatro Saltimbanco de Combate (Tesc), de Márcio Souza, e Grupo Universitário de Teatro do Amazonas (Gruta), de Marcos José, até obscuros grupos amadores da periferia.

Numa sexta-feira, com o teatro colocando gente pelo ladrão, começa a apresentação do grupo Sangue Novo, de Santo Antônio, formado por três moleques recém-saídos da adolescência: Orlando Farias, Sebastião Carril e Isaura Gonçalves.

Intitulada “Embaixo do mosquiteiro”, a peça tinha sido escrita por Orlando Farias e era uma crítica bastante ácida aos pastores evangelistas da época, com petardos metafóricos ao regime militar. O cenário era de uma pobreza franciscana: apenas uma rede armada embaixo de um mosquiteiro, onde a mulher do pastor passava a maior parte do tempo se embalando.

O clímax do espetáculo colocava em um canto do palco, sob um spot luminoso, o pastor (Sebastião Carril) pregando sobre o fim do mundo enquanto no outro canto, sob uma luz incidental, um soldado (Orlando Farias) passava o ferro na esposa do pastor (Isaura Gonçalves) embaixo do mosquiteiro.

Sentado na primeira fila da plateia, o escritor Antônio Paulo Graça levou um susto quando percebeu, dentro da rede, Orlando Farias levantar as duas pernas de Isaura na famosa posição “frango assado” e começar a remexer os quadris vigorosamente. Ele cutucou Guto Rodrigues, que estava sentado ao seu lado:

– Porra, Gutinho, aqueles dois atores estão trepando de verdade…

Guto minimizou a cena:

– Não é de verdade não, Paulo. Eles estão apenas simulando um coito e colocando bastante realismo na representação…

Nesse momento, no palco, Orlando Farias colocou a atriz na posição “vaca atolada” e começou a dar vigorosas estocadas do tipo duas fundas e uma rasa. A rede só faltava virar. Não demorou muito para Isaura chegar ao orgasmo. Seu gemido rouco atingiu a plateia silenciosa com a força de uma bofetada. As luzes do palco se apagaram. Orlando nem deu bola e continuou castigando a infeliz até ele próprio soltar um gemido rouco, uns cinco minutos depois, e desabar dentro da rede.

No dia seguinte, os jornais locais deitaram e rolaram sobre a cena de sexo explícito ocorrida no palco do quase centenário Teatro Amazonas e garantiram que “o grupo Sangue Novo havia instituído o teatro naturalista em nossa terra”.

Os organizadores da mostra, evidentemente, ficaram putos da vida e proibiram uma segunda apresentação do grupo de Santo Antônio. Se quisessem apresentar aquele tipo de peça, eles que fossem se exibir no palco da boate Saramandaia, o bas-fond mais famoso de Manaus.

De qualquer forma, o feito histórico de Orlando Farias e Isaura Gonçalves jamais foi igualado ou superado por outros atores em cena. Pelo menos no palco do Teatro Amazonas.

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