Em Parintins, índio não quer apito…

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O invocado Antonio Belém comprou um lote de terra lá pra bandas do Uaicurapá-Jacu, na zona rural de Parintins, praticamente encostado na reserva dos não menos invocados índios Sateré-Mawé, cujo principal guerreiro, Kunhanbebe, um gigante de dois metros de altura com a musculatura do Arnold Schwarzenegger, era temido em toda a região.

Disposto a ser um novo tycoon dos agronegócios, Antonio Belém arregimentou dois peões, alugou uma voadeira e a trinca foi tomar posse da terra, numa viagem de dois dias pelo rio Andirá. Eles levaram uma semana para construir um barracão e limpar uma capoeira, onde começariam a plantar milho, feijão e melancia, quando, por volta das 5h da tarde, foram surpreendidos por meia dúzia de índios armados de arco e flecha.

Antonio Belém não perdeu a calma. Entrou no barracão, pegou o documento do cartório que comprovava ser ele o dono daquele lote de terra e mostrou para os índios. Os guerreiros confabularam entre eles e foram embora.

No dia seguinte, por volta das 5h da tarde, o barracão recebeu a visita de 50 índios fantasiados de flamenguistas (a tintura rubro-negra, de urucum e jenipapo, só é usada em tempos de guerra), armados de arco, flecha, zarabatanas, arpões e tacapes, gritando, cantando, pulando, urrando, em suma, fazendo um escarcéu medonho.

Antonio Belém não perdeu a calma. Entrou no barracão, pegou o documento do cartório que comprovava ser ele o dono daquele lote de terra, mostrou para os índios e procurou ser o mais diplomático possível:

– Parentes, nós somos de paz, não queremos confusão não. Daquela samaumeira pra lá, a terra é de vocês. Da samaumeira pra cá, até aquela castanheira, a terra é minha. Eu não vou invadir a terra de vocês, juro por Deus. A única coisa que quero é que vocês também não invadam a minha. Vamos viver em harmonia, que tem terra pra todo mundo. Estamos acordados, parente?…

Um dos índios imitou um grito de macaco-barrigudo e, dali a alguns minutos, começaram a sair do meio de mato mais três dezenas de índios, incluindo velhos, mulheres e crianças. Os guerreiros começaram a conversar com uma anciã desdentada, que parecia ser a liderança do grupo. Aí apontaram pra samaumeira, apontaram pra castanheira e apontaram pra Antonio Belém, que não estava entendendo nada.

A anciã chamou um dos moleques indígenas e cantou a pedra:

– Curumim, vai correndo lá na Boca do Boto, que o Kunhanbebe está por lá, caçando uma onça pintada. Pede pra ele vir pra cá, trazendo as flechas de osso de canela de veado, que tem um brabo aqui querendo roubar as nossas terras…

O curumim entrou na floresta na maior correria e os outros índios, capitaneados pela anciã, também se embrenharam no mato. Antônio Belém e seus dois ajudantes se trancaram no barracão e passaram a noite acordados, rezando pro dia amanhecer. A cada cinco minutos, o silêncio da floresta era cortado por um esturro de onça. Ou um grito de guariba. Ou pelo piado lúgubre de uma rasga-mortalha. Eram os índios, sinalizando que ainda estavam por perto.

Por volta das 5h da manhã, assim que surgiram os primeiros raios de sol, os três entram na voadeira e se mandaram para Parintins como o diabo foge da cruz. O sonho de Antonio Belém, de ser um tycoon dos agronegócios, havia ido pro espaço. Também, quem seria doido de encarar uma flecha de osso de canela de veado manejada pelo gigante Kunhanbebe?…

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