Dor de macho no radinho fanhoso

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Por Xico Sá

Das tragédias masculinas, a mais arrasadora sempre será a paixão pelo futebol. A paixão desmedida, sem lua, enviesada, carregada de todas as trevas, capaz de fazer a criatura trocar um cinema-de-mãos-dadas por qualquer Íbis x Ferroviário de Serra Talhada, qualquer Sampaio Correia x Paissandu, Treze x Campinense, Juazeiro x Itapipoca, qualquer Juventus x Ituano, quarta-feira à noite, 10 graus, chovendo, na Rua Javari…

Capaz de trocar não apenas uma promessa de sexo por uma pelada qualquer… Capaz mesmo de trocar a certeza de trepada do século, a mais homérica, aquela que cura de vez o amor mais platônico, por um Náutico e Vitória de Santo Antão – escrete da terra de Osman Lins e da gloriosa Pitu, nobre aguardente que tem slogan arrasador: “Se seu time ganhou, tome Pitu, se seu time empatou, tome Pitu, se seu time perdeu, Pitu.”

Não há miséria maior para a alma masculina do que o apego aos onze semelhantes que o defendem na mais épica das batalhas. A Monte Castelo de todos os domingos. De todas as tardes, do radinho de pilha fanhoso de todos os porteiros. Do grito de quase-gol que vem de lá dos porões de todos os canteiros de obras, do fundo da mais suja das pensões de Santa Cecília e do sótão-pensão que morei na Barão de São Borja, no Recife de todas as emparedadas. Domingos capazes de derrotar o mais brutamontes dos homens, o mais seco, o mais sem emoção, o mais sem sangue nas veias.

Mas não há miséria maior do que o “desábito de vencer”, como escreveu João Cabral de Melo Neto sobre o seu América. Não o América carioca de Trajano, que já teve as suas glórias. O desaparecido América alviverde do Recife, onde o poeta jogou, um center-half de primeira, antes de ser campeão juvenil em 1935 pelo Santa Cruz.

Uma vez, em uma entrevista com o ex-center-half, na primeira metade dos 80, ali na bifurcação entre Parnamirim e Casa Amarela, o homem-faca-só-lâmina pôs a marejar as retinas quando contava o seu arrojo como homem de marcação e exibia algumas raras fotos.

Somente no exílio sevilhano o poeta se livrou da aspirina e da dor-de-cabeça de torcedor, largou o futebol de vez pelas touradas.

Sorte dele, pois não há tragédia mais incompreensível do que a devoção por aqueles marmanjos suados tentando acertar o barbante inimigo.

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