Dicionário de Cearês – Prefácio da 2ª edição

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Por Dorian Sampaio Filho

No início tudo era brincadeira. Leso, como é carinhosamente chamado o nosso Marcus Gadelha, saudoso por estar há mais de vinte anos fora do Ceará, residindo nesse período em Salvador e Natal, criou a mania de anotar e comentar os termos e expressões faladas na “terrinha”, mais especificamente nas rodas do Cais Bar e em outros guetos da boemia de Fortaleza frequentado por nós com uma certa assiduidade.

Confesso que no início tal mania do amigo me enchia o saco, pois falando mal o português e recorrendo naturalmente ao cearês para narrar meus causos, era interrompido com frequência para permitir as anotações do companheiro, o que me irritava profundamente. Cheguei ao ponto de desafiá-lo a parar de atrapalhar as conversas e organizar de vez os seus rabiscos para transformá-lo em livro. Surgiu assim o projeto do Dicionário de Cearês…

Lançado o desafio, Leso me remeteu um exemplar do “Dicionário de Pernambuquês”. Pronto! Foi a gota d’água, o xeque-mate para que eu me empolgasse de coração pela publicação do “Cearês”.

É que Ceará e Pernambuco, por razões históricas, vivem de “beicinhos”. Se o pernambucano diz possuir algo em seu estado que é o maior da América Latina, o cearense logo trata de apresentar algo no seu que é o maior do mundo.

Conta-se, até, que certa vez um pernambucano de passagem por Fortaleza afirmou que os rios Beberibe e Capiberibe se uniam no Recife para formar o Oceano Atlântico.

Diante de tal grandeza e sem contar com recursos hídricos para fazer frente aos “caudalosos” rios pernambucanos, o cearense valeu-se de sua criatividade e respondeu na bucha:

Deixa de ser besta, pernambucano fi d’uma égua! Pois no Ceará nos temos o maior rio do mundo, o Jaguaribe. Rio seco, é verdade, mas o maior do mundo…

A partir do fato de Pernambuco possuir um idioma e o Ceará não, a brincadeira de mesa de bar passou a ser encarada com um certo tom de seriedade.

Resolvemos convidar o “brega-star” Falcão, maior autoridade na língua cearês, para participar da obra, e dessa forma garantir o sucesso de sua primeira edição, que resultou em 10 mil exemplares vendidos.

As críticas e sugestões recebidas de vários recantos do mundo – Europa, Estados Unidos, Japão e até Sobral – serviram de base para a preparação dessa segunda edição, ampliada e revisada, que esperamos trilhar a mesma trajetória de brilho da inicial.

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