Dias de cachorro louco

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Por Edney Silvestre

O verão opera estranhas transformações nos nova-iorquinos, difíceis de serem entendidas por quem nunca passou quatro meses trancafiados dentro de um apartamento, com as janelas permanentemente cerradas, enrolado em cobertores, metido em roupas de lã e puxando a poltrona para mais perto do aquecimento.

Este ano, após um dos mais longos, persistentes e implicantes invernos dos últimos tempos, a cabin fever – uma loucura branda, caracterizada por aflição permanente nas pessoas sitiadas pela neve durante muito tempo – está exibindo sequelas. Consideráveis, diga-se de passagem.

Os sintomas mais claros apareceram em junho, aos primeiros sinais de calor (leia-se treze graus positivos), e vêm crescendo desde então. Em agosto, tradicionalmente o mais demoníaco da estação e úmido de cortar com faca, se solidificaram. E me fizeram entender, finalmente, por que seus dias são chamados “de cachorro louco”.

O sintoma mais visível é a mudança de cor. Gente com pele de Madona (não me refiro à cantora) passou a exibir um rosado incerto, seguido de gradual mutação ao fúcsia e daí para o vermelho-crustáceo, rubi, cabernet-sauvignon e, ultimamente, roxo semana santa.

À metamorfose, obrigatoriamente seguida de peeling involuntário, denominam Summer tan. Que, apesar de não fazer sentido diante do óbvio fracasso, o dicionário traduz por “bronzeado de verão”.

Libertados, saíram todos à rua. E às praças, jardins, parques, terraços, varandas, escadas de incêndios, beirais de janelas, qualquer lugar onde podem exercer a liberdade de ir e vir que o inverno restringe.

Tem gente em tudo quanto é lugar. Menos dentro dos próprios apartamentos. Alguns gostaram tanto da nova condição que parecem ter decidido viver do lado de fora o resto de suas vidas.

Na minha esquina, por exemplo, enraizaram-se algumas screaming queens. Da majestade que o nome sugere, não possuem nada. São rapazes que as linhas 1 e 9 do metrô trazem de redondezas pobres como o Bronx e o Harlem.

Parecem com Mike Tyson ou George Foreman, só que vestidos com roupa da irmã, sobre altos e sob perucas – platinum blonde algumas delas – de cabelo sintético liso.

Chamam-se de “Giiirl!” uns aos outros, enquanto dão pinta e batem calçada em busca de fregueses para seus favores eróticos, rebolando com um à-vontade que levaria ao apedrejamento nos locais onde moram. Enxotados pela polícia, voltam com força de praga de madrinha.

Sorvetes parecem ser consumidos às toneladas, e as espertas indústrias de ice cream aproveitam para testar sabores novos. Não sou dos mais chegados, por isso não saberia opinar que gosto têm os recentes “bolo de cenoura”, “aveia com pingos de chocolate”, “creme de banana com chantilly” ou “pudim de tapioca com nozes”. Mesmo que fosse, creio que não teria estômago para tais inovações.

Uma divisão em castas racha esta cidade, tão democrática em outras épocas do ano. O sistema é estabelecido de forma automática nos finais de semana passados nas praias.

Gente comum – o povão composto por secretárias, trabalhadores blue collar, donos de mercearias, imigrantes latinos, toda a gente que faz o trabalho duro e põe para funcionar as entranhas deste lugar – toma o metrô ou trem para praias próximas como Coney Island ou Jones Beach.

Classe média, ricos e aspirantes partem na direção dos Hamptons ou aboletam-se em Fire Island. E os verdadeiramente ricos, o chamado old money, estes encastelam-se em Martha’s Vineyard, onde Jackie Kennedy Onassis reinou suprema.

Enquanto as conta de luz sobem aos céus, devido aos aparelhos de ar condicionado constantemente ligados, hordas de japoneses, italianos e alemães aterrissam em todo restaurante, teatro, museu, loja de departamento, bar, boates, locais de strip-tease, livraria, loja de aparelhos eletrônicos, butique de bugigangas e, last but not least, ponto turístico de Manhattan.

São tribos fáceis de identificar. Os japoneses, menos pela obviedade dos traços orientais (lembrem-se de que aqui há milhares de nova-iorquinos de origem asiática, tal qual São Paulo) ou pelas indefectíveis câmeras fotográficas ou de vídeo do que pelo fato de só andarem em grupos – homens com homens, mulheres com mulheres.

Italianos são aqueles vestidos como caricaturas francesas de americanos: bota de caubói, camisa de caubói, calça de caubói. Não se esquecem sequer de mascar chicletes.

Alemães são os de sandálias calçadas com meias pretas. De náilon.

Os táxis andam com o tampo do motor aberto, as estações de metrô parecem fornos crematórios, restaurantes e bares entopem de mesas as calçadas.

Há uma exibição de músculos e carnes frouxas em camisetas e blusas decotadas, de dinheiro suburbano nos conversíveis de Nova Jersey que vêm rodar por aqui nos fins de semana com os rádios aos berros, da justiça divina em cada tempestade inesperada que os ensopa e transforma o interior de seus veículos em banheiras.

Verão é a estação do ano que tem roupa de outono nas vitrinas, milionários filmes tolos nos cinemas, intermináveis jogos de beisebol na televisão e Madonna (agora sim, estou falando da loura ambiciosa) diariamente em tudo quanto é jornal. Lógico. Apesar de seu palacete em Miami, ela é a única estrela que não saiu da cidade.

O verão deste ano foi particularmente bem-vindo e surpreendentemente suave. Seus dias amenos, de sol gentil e noites frescas, fizeram baixar sobre cada um dos 7.323.000 habitantes de Nova York uma doçura baiana, uma espécie de encantamento com o cotidiano, um certo ar de serena irresponsabilidade e problemas expurgados. Como vi extravasado uma tarde dessas na Terceira Avenida, entre a Ruas 49 e 50.

Quase maltrapilha, carregando em sacolas de supermercado todos os parcos pertences de sua vida, lá vinha a homeless com um bruta sorriso pregado no rosto, cantarolando algumas canção que me pareceu familiar, mas que não consegui identificar até o momento em que ela parou na esquina.

Ali, abrindo os braços, com a intensidade de uma Jessye Norman em grand finale, soltou o vozeirão e proclamou para quem quisesse ouvir: “… Yes true love, is a many splendored thiiiiiiing!

Então o sinal abriu e ela atravessou, sumindo entre secretárias apressadas, executivos indiferentes e alheios entregadores de restaurantes chineses.

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