Declaração de princípios

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Por Millôr Fernandes

Já que os comportamentos sociais bonzinhos deram nisso aí, quem sabe este comportamento, mais honesto, não dará resultado melhor?

Desrespeitarei todos os meus semelhantes independentemente de sexo e idade, raça ou religião, irritando-os o mais possível, provocando, na medida de minhas forças, a revelação e o desenvolvimento do lado mais negro de sua natureza.

Chatearei e provocarei meu próximo, e os seus filhos, e os filhos de seus filhos, até tornar sua vida insuportável, usando para isso todas as diabólicas oportunidades que oferece a vida em comum nos edifícios de apartamentos.

Farei da minha vida um exemplo hediondo (insuperável) de intolerância e incompreensão totais.

Aclamarei todas as vaidades, apoiarei todas as reivindicações mesquinhas ou estúpidas, animarei todas as dúvidas reacionárias, inflamarei protestos da grande maioria estacionária, acenderei lembranças amargas em todos os cérebros doentios, serei o artífice inigualável das frustrações pessoais e coletivas, não dormindo, não comendo, nem descansando enquanto houver qualquer possibilidade de fomentar uma dissolução ou criar qualquer atrito, por menor que seja, à minha volta.

E para isso usarei todos os meios ao meu alcance, toda a imensa oportunidade que a tecnologia me oferece – o telefone, o jornal, o rádio, a imprensa, o Pássaro Madrugador.

Não me deixarei enganar pela propaganda pacifista e tola que pretende acabar com os conflitos entre as nações e mais tarde, talvez, quem sabe?, até mesmo entre os indivíduos. Me recusarei a viver nesse mundo de horror em que o amor seja a constante e o cotidiano.

Recusar-me-ei a apoiar qualquer organização que vise à paz, ao ecumenismo religioso, à filantropia, ao altruísmo em qualquer de suas formas ou maneiras de se manifestar.

Serei sempre a favor do câncer.

Serei inimigo mortal dos amigos de infância, dos casais bem constituídos, das famílias tranquilas, dos escritórios bem organizados, dos municípios bem administrados.

Atribuirei sempre aos outros as mesmas intenções de má fé, inveja, insinceridade e capacidade de dissimulação de que me sinto capaz.

Impedirei, na medida em que me for possível, de qualquer forma, sem medir sacrifícios, a liberdade de expressão de qualquer pessoa que discorde de mim ou de meus pontos de vistas mais reles, e procurarei cercear essa liberdade, usando da intriga à força física, sem esquecer a delação, sobretudo nos casos em que tais ideias possam provocar bem-estar social, euforia individual ou sequer um sorriso de satisfação numa criança.

Dedicarei minha vida a muito mais do que viver e deixar de viver: procurarei não viver desde que me seja impossível impedir a existência alheia.

Procurarei diminuir a crença no certo, a esperança no futuro, a necessidade do otimismo. Praticarei a ofensa, não temerei argumentos sadios, nem pouparei a honestidade e a retidão, destruindo-as onde quer que as encontre. Enfim: serei um competente e denotado artífice da intolerância, do ódio e do atrito pessoal e grupal, servidos ao rompimento, ao litígio e à separação. Combaterei todos os ditadores, de Assurbanipal a Pinochet, sem esquecer de Hitler e Stálin, como exemplos de extrema tibieza no comando do poder, como líderes excessivamente democráticos e humanos. Amém.

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