Contos que eu conto: o arreglo

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Por Millôr Fernandes

A sorte, de muitos madrasta, de Joãozinho Pixinga era mãe e companheiro, amante e conselheira, fã e secretária. Com dentes, num país de feios; louro, num país em que a água oxigenada é cara; vivo, num país de gigantesco índice de mortalidade infantil; ele era, só por isso, um privilegiado. O fato é que…

– João Pixinga, preciso ter uma conversa muito séria com você – disse Maneta Boa Pinta, Rei dos Bicheiros, encontrando Pixinga num bar do Rocha.

– Fala, crioulo! – disse Pixinga.

– Pixinga, você sabe o quanto eu o admiro. Aliás, não faço nenhuma vantagem com isso. Sou eu e toda a população da cidade.

– Sei. Passa pro outro parágrafo. Não vamos perder tempo com o que todo mundo sabe.

– Depois que você virou titular do Framinense, o escore máximo que os outros times conseguiram contra o teu time foi o 0 a 3, 0 a 5 e 0 a 8. Nunca mais ninguém conseguiu balançar o véu do Fra.

– Já sugeri um randicápi: aumentarem o tamanho do meu gol. Senão, sei, o futebol não tem mais graça.

– É uma boa idéia – concordou Maneta, Rei dos Bicheiros – mas, eu tenho uma idéia melhor, e mais rápida, pra animar o campeonato.

– Ah, é? – fez Joãozinho Pixinga, Rei dos Goleiros, meio ofendido porque, além de goleiro, ele tinha também suas pretensões intelectuais e a veleidade do outro ter uma idéia melhor que a sua lhe parecia coisa ofensiva. – Qualé?

– Cem mil cruzeiros.

– Cem mil cruzeiros o quê? Não entendo – disse Joãozinho Pixinga, fingindo-se de desentendido.

– Vou direto – disse Maneta. – Não sou Rei dos Bicheiros à toa. Conversa de homem. Topa não topa a coisa morre aqui.

– Vai.

– Pois é. Dia 15 temos a finalíssima Frumengo x Framinense, o crássico.

– O mais importante Fru x Fra dos últimos dez anos. O Dia disse que é o Fru x Fra do século.

– Exato. Há dez anos o Fru não ganha um campeonato. Esse ano, se passar pelo Fra, o Fru tá feito, o caneco na mão. Tou com cem mil na agulha.

– Pra quê?

– Pra você amolecer.

– Peraí, Maneta Boa Pinta, não tou te entendendo bem. Quer dizer, eu, o maior goleiro da história do futebol brasileiro, de quem a crítica especializada, além da “técnica sem par” elogia a “elegância sem igual” – estou citando –, vou liquidar minha carreira assim, por cem mil? Que é que há? Vai subornar os teus tiras, Maneta.

– Quem falou em cem mil, cara? Eu disse quinhentos mil!

– Pois é; você pensa que vou enterrar minha glória e minha honra, meu comportamento “verdadeiro exemplo para os mais novos” – estou citando -, por quinhentos mil cruzeiros? O que é que há? Vai subornar a tua PM, Maneta.

– Mas, que diabo, quem foi que falou em quinhentos mil? Quinhentos mil por um partidão desses? Você está doido? Trouxe até aqui, no bolso, ó, em espécie: um milhão. Foi o que eu distribuí com o júri das escolas de samba.

– Dois milhões? Pô, de uma vez por todas, Boa Pinta, você acha que a posição que eu consegui no esporte, alto e louro aos vinte e dois anos, olho azul na defesa da pequena área, eu vou vender por três milhões?

– Pixinga, você não percebe que tudo é um equívoco, que querem nos jogar um contra o outro, desfazer nossa amizade de tantos anos, desde que “trocávamos figurinhas” no fundo do quintal em Del Castilho? Quem falou em quatro milhões? É tudo ou nada, Pixinga; já fiz um pool com o Anastácio-do-Pó e o Toninho-do-Assalto-Ideológico e “fechei” em dez milhões. Fica tranquilo, sabemos valorizar o que é nosso. Tua honra não vale menos que a do Príncipe Bernardo, da Holanda, pô.

– Adiantado. Toma nota aí da minha conta numerada na Tailândia.

(Corte. Quinze dias depois)

Bocó passou pra Deodoro, Deodoro chutou pra Plim-Plim, que arrematou no peito e bateu firme contra o gol desguarnecido de Pixinga, que estava caído. A bola passou raspando a trave, dois centímetros por fora, milagrosamente não entrou.

Pixinga deu mal a saída, a bola foi pros pés de Jequitinhonha, que cruzou pra Bocó que chutou de primeira contra um gol vazio porque Pixinga, sozinho, tinha escorregado e caído outra vez. A multidão em peso gritou “Goooooooolllll”. Os locutores das várias TVs e inúmeras rádios também gritaram um “Gooooolll” gigantesco, que ecoou em todo o país, enquanto a bola, outra vez milagrosamente, passava por cima da traves do Fra.

De novo o jogo recomeçou. O time de Pixinga, sempre fraco e mal-ajustado, que usualmente só dependia dele defender tudo no gol, nesse domingo não podia contar com coisa alguma. Ainda assim, absurdamente, ganhava de 2 a 0.

Pixinga não estava num dia ruim. Ele nunca tivera um dia ruim. Estava num dia negro. Ninguém entendia. Nunca se vira aquilo. Parecia dopado. Defendia mal as bolas mais bobas, deixava as bolas mais fracas resvalar das mãos, saía mal do gol, caía errado em cima das bolas, assistia aos adversários passarem livres pela sua defesa.

Um dia incrível – comentavam todos nas gerais, nas arquibancadas e nos estúdios de rádio e TV. Parecia até – como disse um comentarista – que Pixinga tinha levado bola. Mas o fato é que, apesar do fracasso espantoso de Pixinga, o Fru perdeu o jogo e o campeonato.

Naquela tarde, os jogadores do Fru estavam ainda piores que sempre, piores, até que Pixinga e, misteriosamente, não conseguiram enfiar um gol em todos os noventa minutos de jogo.

Misteriosamente? É. Até que expliquemos ao leitor que Pixinga, além do grande talento esportivo, tinha também, como já vimos pelo seu diálogo com Maneta Boa Pinta, um extraordinário talento político-financeiro.

Depois de aceitar os dez milhões de Maneta, ele, sabiamente, distribuíra cinco entre os atacantes do time adversário para que estes chutassem todas as bolas fora.

Foi por isso que, apesar de sua atuação, ainda saiu do campo carregado pela solidariedade da torcida (que, se antes admirava apenas sua perícia, desse dia em diante passou a mitificar também a sua sorte), com cinco milhões no bolso e a honra intacta.

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